Um encantado de Mogi das Cruzes que usava cuequinha vermelha
Claudinei Nakasone é um interiorano agitado que nasceu em Mogi das Cruzes, mas viveu a maior parte da vida no interior. Cheio de digressões, é uma pessoa espontânea, curiosa e talentosa que fala pelos cotovelos. É, segundo sua própria definição, um homem muito sensível.
Tal sensibilidade se traduz em seu trabalho. Além de dar aulas e produzir books de atores, Claudinei é fotógrafo profissional de espetáculos teatrais e ator do grupo GATU.
Pra quem vê suas fotos, fica muito claro que Claudinei faz aquilo que o encanta, de alguma maneira. Pra quem o ouve, fica ainda mais evidente, pois a cada trecho de sua história, ele repete, com os olhos verdes brilhando: “fiquei encantado com aquilo!”.
Uma história de encantamento e da busca por traduzir o encantamento que o teatro suscita. Mas também uma história de quem ganha pouco por um trabalho tão bonito e que, se pudesse, deixaria de acordar às seis da manhã para trabalhar, trocando a rotina movimentada por uma rede.
Claudinei se acha. Sim, ele é dos que acreditam no seu trabalho e fazem total questão de demonstrar isso. No entanto, diferente de muitos, é generoso e até tentou ensinar o Maurício, nosso querido editor, a tirar fotos. E tentou explicar que luz verde não precisa parecer verde. “Mas daqui ela parece tão branquinha!”. “Pois é, o que os olhos não vêem o coração não sente, mas a película da câmera sente.”
Um cara com cara de pau pra dizer: “aquilo que você não perguntar, eu vou falar. Aí o que você não quiser, você joga fora” e com doçura e paciência pra mostrar suas melhores fotos e contar cada detalhe de cada uma. Pena ter pedido para cortarmos partes da entrevista. Essa parte que o leitor não vai saber, fica como segredo nosso, viu Claudinei. Elas por elas, por você ter emprestado de graça as imagens que ilustram esta longa e divertida conversa.
Finalmente, o entrevistado que proporcionou a rapidinha mais gostosa da Bacante até hoje.
Como você começou com fotografia?
Aconteceu da seguinte maneira. Vocês já ouviram falar do inconsciente na vida da gente, né? Jung, Freud, tal… (pausa) E o Freud… não tem nada a ver Freud nenhum… Na história da minha família, eu sou o único homem e mais duas irmãs, perdi dois irmãos na barriga da mamãe. Na história da minha família foi assim, quando minhas irmãs nasceram, a estrutura familiar ainda era pequena, meu pai ainda era considerado da classe C. Depois, quando eu nasci, e quando eu já tinha por volta de 5 ou 6 anos de idade, meu pai já estava subindo pra classe média e a fotografia começou a surgir na minha família. Tanto é que você pega fotos da minha família não tem das minhas irmãs recém-nascidas. Eu não tenho foto recém-nascido, mas eu tenho uma foto minha no meu batizado, em Aparecida do Norte. Então, isso é uma identidade que vem aparecendo na minha vida, por isso eu estou falando do inconsciente. Desde criança, eu olho as minhas fotos. Tem pouquinhas ainda, porque era tímida a minha família, mas tem. Estava até revendo esses dias, tinha uma fotinho minha num triciclo, cuequinha vermelha…
E isso pra você era diferente, né?
Você só vai descobrir isso quando você tá mais velho e faz a releitura da sua vida, a gente sempre está passando por momentos de releitura.
(Sinal da Faculdade Cásper Líbero)
Eu fiz análise durante cinco anos, estou voltando agora a fazer, então, você volta ao útero, até mesmo para o psicanalista te entender e você voltar à história, também, lembrar dessa história da cuequinha vermelha e do triciclo, porque, até então, a gente acha que isso não tem tanta importância. Bom, isso foi acontecendo, essas coisas vão aparecendo. Mas até aí nunca fui um apaixonado. Existiu um certo momento da minha vida que despertou. E vou falar nu e cru. Quando eu entrei na faculdade, em 1989, eu tinha acabado de completar 18 anos – eu sou de dezembro – portanto, prestei ainda com 17, na Universidade de Mogi da Cruzes, minha cidade natal. Ainda aos 18 anos, quando eu trabalhava de Relações Públicas no CCBB, minha professora de fotografia, que seria minha professora no segundo ano (eu ainda tava no primeiro), montou um curso pequeno, de quatro meses, para iniciantes com foco em preto e branco, coisa que hoje é muito difícil. E qual era a justificativa dela? A gente ia aprender em três meses o que uma turma demora pra aprender em um ano, se é que aprende. Ela tinha uma aula por semana de 50 minutos. Hoje eu dou aula na Belas Artes, em turnos de quatro horas. Já tive de cinco. Então, eu fui fazer o curso, com uma máquina do Paraguai, que meu cunhado me emprestou, que tinha cara de ser máquina profissional, mas era só a cara. Mas também eu fazia fotos do cotidiano, só, não tinha nenhum propósito maior, não. Eu me lembro que eu fotografei a Estação da Luz. Aí nós fomos revelar o negativo. Até aí tudo bem. Aí eu fui ampliar a foto do negativo. E eu vou usar agora uma coisa muito chula do Hector Babenco, me perdoem, mas ele disse que quando ele entrou no cinema e viu um filme pela primeira vez, ele ficou excitado. É mais ou menos a sensação que eu senti, tamanha foi a minha empolgação. Fiquei encantado vendo aquela imagem aparecendo no papel, tanto é que eu fiquei vidrado ali. Eu fiquei amigo da laboratorista, a Silmara, nossa relação foi e voltou, foi e voltou. Eu até já a chamei pra trabalhar comigo. Essa mulher me ensinou tudo, tudo que vocês possam imaginar. Aí eu tava passando por um período de transição, saí de São Paulo, voltei pra trabalhar no banco, meu pai queria que eu começasse a trabalhar mais perto, aí fui trabalhar numa empresa. E eu sempre saía mais cedo da empresa e ia pra faculdade pra aproveitar que o laboratório não tinha ninguém. Lá tinha dois ou três ampliadores só. Então eu chegava bem cedo e ficava treinando. Comprar papel foto no Brasil ainda era fácil, ainda em São Paulo, na Conselheiro Crispiniano, você achava um em cada esquina, hoje já não é mais assim. Nessa história de ficar ali os dois anos com a Silmara, eu errei muito no meu trabalho, que foi o que me propiciou aceitar. Por exemplo, a caixa d’água lá era muito alta, quando tá no verão, esquenta muito. Então você passa por todo o processo de revelação do negativo, interrompe, lava, fixa, depois você passa a mão para tirar o resto de fixador. Se a água da caixa d’água está recebendo muito sol, ela pode derreter a gelatina, que é de origem animal, e aí, se você passa a mão no negativo, toda a prata sai no seu dedo. Quando eu fui fazer isso, saiu tudo. Aprendi com a prática, o encanto do papel e o clima escuro do laboratório.. Esse foi meu primeiro momento, quando eu tinha 18 anos. Aí, pedi uma câmera pro meu pai, que foi roubada há uns cinco anos. A minha casa foi roubada e eu tinha a minha Pentax K 1000 lá, que foi uma câmera que muita gente começou, na minha faixa etária, né? Meu pai me deu a câmera e eu comecei a fotografar lá em Mogi, pra jornal, casamento de amigos, fiz muita formatura, terrível, mas é um tremendo aprendizado. Porque nas formaturas, o problema é o branco dos vestidos das meninas. Branco reflete muita luz, então estoura a imagem, então você fica craque nessa história.
E quanto ao teatro? Como começou?
Quando eu entrei na Universidade, uns seis meses antes eu tinha feito um curso de teatro em São Paulo. Então eu vinha sentindo aquilo com muita latência dentro de mim. Eu tinha 17 anos, fui na ACM, na avenida Nestor Pestana, peguei um jornal e vi “curso de teatro”, na Folha de São Paulo. Liguei pro meu pai e disse: “Pai, eu vou fazer um curso de teatro em São Paulo”. “Não vai não.” Falei: “Vou”. Ele disse: “não vai, não. Eu não vou pagar”. E eu falei: “mas eu tenho dinheiro”. Eu trabalhava desde os 15 anos, meu pai obrigou a gente a aprender a trabalhar desde os quinze. Dá uma meia hora e ele me liga. “Vai, filho. Pode ir, eu pago, não quero que você mexa na sua poupancinha”. Aí vim fazer um curso de teatro aqui, eu era um dos caçulas, eu e a Mônica, uma amiga minha. Dessa turma saiu um grande ator chamado André Garolli*, que é um tremendo de um diretor aqui em São Paulo. E ali eu fui descobrir a vida boêmia, o teatro, meus amigos, tudo muito gostoso. Terminou o curso, eu tava em Mogi das Cruzes, passei no vestibular. Tinha passado no Mackenzie e na FAAP, mas meu pai não deixou eu vir estudar aqui. E ele fez bem, porque Deus escreve certo por linhas tortas. Quando eu entro no curso de Comunicação, Publicidade e Propaganda da Universidade de Mogi das Cruzes, uma grande amiga minha de adolescência, a Luciana Rosa, entra na sala e diz: “Olha pessoal, o TUMC, Teatro da Universidade de Mogi das Cruzes, está abrindo as suas portas para quem quiser trabalhar como ator ou aprender o ofício, o diretor é o Adamilton**”. E eu sentia muita falta daquilo que eu tinha feito em São Paulo. E eu fui. Não teve teste, como não tem até hoje. O teste é do mais forte, da sobrevivência, aquele que for mais forte sobrevive. Você tem que ter o sábado pra ensaiar, não tem hora pra sair, não pode chegar atrasado.
*diretor indicado ao 19º Prêmio Shell de São Paulo, por Rumo à Cardif.
**Adamilton Andreucci Torres, atual coordenador de Cultura de Mogi das Cruzes
Quanto tempo você ficou no TUMC?
Bom, eu fiquei 12 anos nessa companhia. Fiz teatro na rua, uma semana de teatro nas escadarias da Praça da Sé, em todas as praças da Zona Leste. Infantil, drama, tragédia, fiz mais de quase 20 leituras dramáticas. Nisso eu já era fotógrafo. Foi paralelo.
Qual foi a importância do TUMC na sua vida?
Esse grupo foi tão importante na minha formação de ator e cultural e organizacional da vida, porque eu tive um diretor muito organizado, um homem muito macho, que exigia muito dos seus atores, no sentido de comprometimento e comportamento. Ali, nos doze anos, nunca vi um ator fumando um baseado, nunca ninguém tomou uma cachacinha antes de entrar em cena, porque se entrasse, um acabava delatando o outro. “Olha, se o Adamilton ver, você está ferrado”. Nem mesmo nas nossas festas, quando o Adamilton não estava, isso não rolava mais, quer dizer, nunca rolou. Quando eu tinha 19 anos, meu segundo espetáculo, o Adamilton entrou no teatro e disse: “olha, gente, eu vou defender meu mestrado na USP”. Aí lá vai o Claudinei, né?, com vontade de saber. “Adamilton, que que é um mestrado?”. “Ah, eu um processo, você faz um projeto, você estuda durante um período, depois você vai escrever uma dissertação, escrever uma tese…”. Aí eu fui com uma pseudo-namorada, que virou namorada, mas só na “vorta”. Aí fomos, eu e a Maura, pegamos o trem, descemos no Largo da Concórdia. De lá fomos à USP e eu assisti. E eu fiquei encantado com aquilo, só tinha 19 anos. Dez anos depois, quem estava na mesma sala com o mesmo orientador era eu, defendendo o meu mestrado na USP, porque eu entrei com 27 anos na USP pra fazer mestrado. Então, a influência deste grupo e deste homem na minha vida é muito grande. Olha só, aos 19 anos, quando o Adamilton defendeu a tese dele, ele falou de um espetáculo em São Paulo chamado Senhor de Porqueiral, do Molière, e era o grupo Tapa que estava encanando. E lá vai aquele enxerido que gosta de saber. Eu sempre fui assim. Tanto é que eu pego no pé dos meus alunos, quando eu mando ir na papelaria lá na Maria Antônia e eles dizem “Ah, professor, eu não sei chegar na Maria Antônia”. “Por que não sabe?” “Ah, porque eu moro no ABC”. Eu falo: “Isso! Vai ficar sua vida inteira fazendo cartão de visitas! O professor te ensina que lá tem uma das maiores papelarias de São Paulo e você não vai, sua carreira é essa! Você não sabe chegar na Maria Antônia? Se vira, rapaz! Eu vim pra São Paulo com 14 anos de idade, minha mãe me catou pela mão, falou: “o busão é esse, desce no terminal Tietê e vai pra tal lugar”. E eu fui”. Aí lá fui eu, assistir o Senhor do Porqueiral com alguns amigos meus. Eu fiquei encantado com aquilo. Desde então eu quase não perdia um espetáculo do grupo. Aí quando eu fui fazer o mestrado na USP, qual era o projeto? O TAPA. E fui o primeiro homem no Brasil a levantar a trajetória do grupo. Minha tese se chama: “Um TAPA na Paulicéia: contribuição do Grupo TAPA para o teatro na cidade de São Paulo“. Meu orientador é o professor Clóvis Garcia, um dos grandes cenógrafos que o Brasil já teve. E crítico de teatro também. E vivo. E trabalha até hoje na USP. Aí, eu vim pra São Paulo, terminei a defesa de mestrado, no último ano de mestrado eu já morava aqui, porque a correria é muito grande. Eu tinha que ir pra USP, entrevistar atores, atrizes, críticos. Todos, o Nelson de Sá, o Alberto Guzik, tinha que estar no meio desse monte de gente. Assim que eu terminei eu falei: “agora é minha vez!”. Eu descansei, respirei e comecei a fotografar. O primeiro trabalho que eu fiz foi As Nuvens*, dos Parlapatões.
* As Nuvens e/ ou Um Deus Chamado Dinheiro
Como veio a idéia de juntar teatro e fotografia?
Como fotógrafo, eu já dava aula em faculdade, comecei dando aula aos 27 anos na UNIP. Como fotógrafo, eu pensei: poxa! Preciso direcionar um pouco as coisas na minha vida. Já sei fotografar eventos, paisagem eu sei fazer… agora eu sou um ator que, mais do que nunca, conheço os âmbitos… os ambientes da coxia, o que acontece lá, que é um espetáculo que vocês não vêem, não sabem e que é maravilhoso. A união, a energia, a força, o silêncio, o estressado, o estúpido, o grosso, aquele que não fala com ninguém, que é mais ou menos eu. O Adamilton falava que eu chegava com a minha maletinha de maquiagem (faz o gesto), não falava com ninguém, tava um pouco nervoso. Aí, falei, poxa!, vou fazer fotografia de teatro, porque no espetáculo tem bons momentos e momentos nem tão altos assim, tem ápices, cumes, o momento da melhor iluminação, o melhor gesto, a melhor palavra. E como você resume isso numa imagem? Ou seja, a força da concepção do diretor nesta imagem, ou a força do texto. E olha que estou mexendo em coisas perigosas, to falando em gregos, em teatro antigo, espanhol, inglês. Nem eu sei tudo isso, a gente vai descobrindo, eu não li tudo na vida ainda. Mas, por exemplo, eu conheço muito sobre teoria teatral, por isso que escrevo também. E o quanto já coloquei isso no meu corpo pra praticar…
E como traduzir tudo isso numa imagem?
Ai, é muito complicado, porque isso é técnica e isso é emoção. Onde vem a técnica, vem a sua consciência cultural, vem tudo aquilo que eu já vi na vida. Sabe, assim, desde o Claudinei que foi criado em Mogi das Cruzes, que andava de pé descalço e fazia picova, que é buraco na areia, pra jogar fubeca, que é bolinha de gude, que empinava pipa, que andava de carrinho de rolemã e o carrinho quem fazia era eu. Desde as oficinas. A gente é a nossa história. Se eu abro esta carteira deste jeito, é porque foi aberta assim até os meus 36 anos de idade. Um outro ia pegar assim. (demonstra) Eu sou a minha história. Eu me relaciono com vocês, com os meus alunos com a minha história até aqui, eu atuo com a minha história. Sou eu, não baixa um santo aqui. É toda minha referência. Então, quando vou fotografar, quando vou atuar, na hora em que estou fazendo um enquadramento, tudo ali nos meus olhos que se passa ali na hora de clicar, veio dali pra trás. Então tem as minhas alegrias, as minhas tristezas, os meus pés na bunda, os chifres, briga com pai e mãe, minha cidade de terra batida na época, toda essa história vem. Os livros que eu li, as coisas que me emocionaram, os quadros, as exposições. Às vezes, é que nem técnica vocal pra ator e cantor, você faz exercício, faz exercício (demonstra). Aí, no primeiro ano você conta com a técnica, você põe até a mãozinha no estômago, pra sentir o diafragma (demonstra). Depois, você tá cantando sem nada, você não percebe mais aquilo. Então quando eu clico, vem. Vem tudo isso no meu dedo, filtrado pelos meus olhos. Então, isto é técnica e isto é emoção, porque alguma coisa ali me chama a atenção. Não é só a luz e a técnica, mas algo meu toca o coração. E os meus olhos. Como que eu sei? Às vezes eu vejo uma foto, que me intriga tanto, que é tão bonita, eu falo assim: “por que é que eu gosto tanto desta imagem?”. Aí eu falo: “ah, isso se parece com Caravaggio, olha o fundo preto, essa pouca luz, por causa daquele quadro que eu vi que eu tanto gostei, quando eu fui à Espanha, Madrid”. Quando eu estou atuando, eu me lembro que tinha um espetáculo que eu fazia um padre asquerozíssimo, tinha uma Bíblia e ele fazia assim ó (demonstra – lambendo dois dedos da mão para virar a página). Isto eu criei e a platéia vinha ao delírio com esta coisa nojenta. E eu ia fazendo. Mas de onde saiu isso? Aí eu me lembrei. O primeiro filme que eu assisti em São Paulo, foi um filme chamado A Rainha Margot. Um dos filhos da rainha morre envenenado pelo própria mãe, porque ela tenta matar a todo custo o genro. Então, ela vai envenenando algumas pessoas em torno do genro pra ver se pega ele, mas sempre o tiro sai pela culatra. Aí ela manda envenenar as folhas de um livro de caça, porque o genro dela gostava muito de caça. Aí coloca perto da lareira porque o genro dela estava para chegar da caça. Mas o filho chega primeiro e vê o livro. O que acontece? As páginas estão coladas, ele não consegue tirar. (repete o gesto de lamber os dedos)
Então você lembrou que tinha resgatado esta referência só depois de resgatar?
Isso mesmo.
Você falou em técnica e emoção. Dá pra dizer que isso é um requisito pra ser fotógrafo de teatro especificamente ou é um requisito pra ser artista?
Este é o meu requisito. Essa é a minha história. Eu só posso dizer isto. E eu tô reproduzindo isso, porque um dia o fotógrafo Sebastião Salgado falou isso no Roda Viva da TV Cultura. E eu achei isso lindo. Ele disse: “eu fotografo com a minha história”. Tem essas coisas. A minha tia mora numa casa em frente à casa do artista Volpi*, aquele considerado o pintor das bandeirinhas. Quantas vezes eu brinquei naquela casa. Porque nós tínhamos um amigo, que agora me fugiu o nome, e eu ia brincar na casa dele. Anos depois, quando fui me apaixonar pelas bandeirinhas, porque aquilo me tocava o coração, eu fui lembrar que o Volpi morou naquela casa. A casa tá toda destruída, porque a família não vende, não faz nada. Então, essa é minha história. Eu só posso te dizer que eu entendo a fotografia desta maneira, porque assim que eu aprendi. Ouvindo o Sebastião Salgado, eu me encontrei, falei “poxa, ele tem razão! Eu fotografo com a minha luz, com a minha história”. Claro que eu quero melhorar, claro que eu posso melhorar, então tenho que ver mais quadros, tenho que ler mais poesias, tenho que ver mais teatro. Mas esse caminho é muito difícil. Nesse caminho você perde pai, sua história melhora, né? Porque é na perda, é na dureza… mas até passar a dor… Você mora sozinho em São Paulo, você não tem família por aqui. Há uma série de questões que vão até te impulsionando a ir pra rua mesmo. Aí eu fui fazer trabalhos, pros meus amigos, faço até hoje, às vezes paga, paga muito pouco, vocês não fazem idéia.
*Alfredo Volpi
Então não dá pra dizer o que é preciso para ser um fotógrafo de teatro?
Se você quer uma resposta: acho que você tem que ter sensibilidade. Sensibilidade e berço cultural. Não adianta só sensibilidade, você precisa conhecer arte, precisa estudar muito, técnica fotográfica, conhecer os grandes artistas, os grandes fotógrafos. Só que eu tenho um olhar que eu vou pro grande e pro pequeno, eu não descaracterizo quando falam que o filme é ruim, eu vou lá ver. Se eu tenho vontade de ver, eu vou ver. Porque grandes coisas da vida vêm dos pequenos detalhes, que te ensinam, que te emocionam com pouca coisa, pouca coisa. Às vezes um olhar me enternece, me encanta. Uma vez eu estava num restaurante em São Paulo e vi um rapaz olhando pro outro. Acho que eles eram futuros namoradinhos e o que tava paquerando olhou com tanta doçura. Pensei: “que coisa mais linda! Que amor mais verdadeiro!”. Só porque eu estava olhando assim e vi o olhar de um batendo pro outro. Há muitos gestos. Eu sou um homem muito sensível. Acho que às vezes isso até judia um pouco. Mas é a história de cada um, mas eu creio que você tem que ter técnica e saber a hora de apertar o disparo da câmera.
Já começamos falando que fotógrafo, geralmente, não é entrevistado. Você acha que poucas pessoas se dedicam só a isso? Há uma valorização específica de quem fotografa teatro?
Olha, o mercado é muito aquecido, então você vê muita gente fotografando, muita gente com uma câmera na mão e fotografando. E faz qualquer coisa, e faz de qualquer jeito. Claro, ele pode ter a percepção, pode ter um bom olhar. Há fotógrafos e fotógrafos, há iniciantes e iniciantes. Mas, hoje em dia, todo mundo tem uma câmera digital e sai por aí. Agora, nós temos profissionais gabaritados que saíram dos jornais, das grandes revistas. Estes têm tarimba, né? A sola do sapato gasta, a coluna machucada – porque fotografar machuca a coluna, com peso de tripé e dependendo da posição. Eu acredito que há muitos fotógrafos de teatro, porque neste mercado, eu percebo que há, mas não creio que há bons fotógrafos. Muitos bons fotógrafos. Nós temos uns nomes fortes aqui em São Paulo. Não conheço no Rio de Janeiro. Mas nós temos a Lenise Pinheiro, que é da Folha de São Paulo, agora ela tá iluminando um espetáculo no Satyros. A Lenise é uma referência pro meu trabalho. Nós temos o Gal Oppido, que é outro fotógrafo de teatro também, mas fotografa moda. Nós temos o, este é o bambambam, é o Emidio Luisi. Por que que é o bambambam? Porque ele só fotografa o Antunes Filho*, quer dizer, ele deve fotografar outras coisas, mas o Antunes só deixa Emidio fotografar sua equipe. Meu projeto de doutorado, quando sair, será sobre Emidio Luisi. Já tá pronto, já foi aceito pela USP e tal, só falta eu tomar coragem, porque é muito tempo de dedicação. E o fotógrafo de teatro nem sempre é bem remunerado, a remuneração é baixa, porque os grupos de teatro geralmente não têm dinheiro, não é? E às vezes fotografar tal ator, tal estrela, é importante pro seu currículo, pro fotógrafo, então acaba recebendo pouco, se recebe, mas receber a gente tem que receber sempre, pra valorizar o trabalho. Mas nem sempre vem, nem sempre. Então é muito complicado, é muito difícil.
*José Alves Atunes Filho, diretor teatral.
É possível sobreviver / se sustentar só com fotografia ou normalmente todo mundo procura outra coisa em paralelo?
Normalmente, o fotógrafo de teatro faz outras fotos. Por exemplo, o Gal Oppido faz, o Emidio Luisi tem uma escola de fotografia. A Lenise tá lá, fazendo iluminação no Satyros, mas eu não sei se isso é por prazer, eu não posso ficar falando… Ela pode dizer: “Não, Claudinei, eu sobrevivo de teatro”. Eu, ainda hoje, acho muito complicado.
E o que você faz?
Eu tenho que aliar um pouco. Eu faço book, normalmente pra atores. Aí você fala assim: “ah, você é fotógrafo”, mas eu não faço moda. Então não vou ficar me metendo num campo onde eu não conheço. Não tô dizendo nem de cenário, nem de iluminação, porque isso eu tenho, mas roupa, cuidado, cabelo. Cabelo e um bom maquiador em São Paulo custa uma fortuna e isso faz a diferença, faz muita diferença. Agora estou me aliando a um maquiador, ele também está em processo, está indo bem, ele já está me indicando pra trabalhos também, essa semana ele foi fotografar um ator amigo meu, então esse dinheiro eu ganho. Pra fotografar ator, porque eu conheço ator, porque eu conheço agência de atores. Então, agência de ator não quer a foto da top model, toda maquiada, com cabelo perfeito. Não, ele quer as imperfeições. Claro, sem brilho na testa, tal, mas não quer com uma roupa fashion, quer uma camisetinha, uma camisa jeans, se for um homem, um terno e uma gravata que é pra fazer comercial de banco, como eu tenho. Então faço locações simples, que é na rua da minha casa, que é uma rua muito cheia de árvores, então eu tenho sombras, tenho luz, tenho muros lindos, vou ao Parque da Aclimação, então isso também me permite. Além de poder fotografar produtos também. Não produtos pra grandes agências de publicidade, eu vou naquilo que quase ninguém conhece. Uma vez eu fiz quase 200 chips de impressora, de carretel de impressora, cartucho… foi um trabalho muito desgastante, mas que me deu muito dinheiro na época, que me possibilitou naquele período pagar a minha digital profissional, que eu já tinha comprado, veio de Nova Iorque, tinha pago com meu dinheiro do meu bolso, que eu tinha economizado, mas eu consegui recuperar naquele trabalho. Então as coisas vêm aos poucos. Sabe, você fazer editorial de revista, por exemplo, os grandes fotógrafos, aqueles que trabalham pra Vogue, não pense que ganham muito, ganha aquele que já tem muito nome e ganha aquele que faz a capa. Pelo menos é o que me disseram.
E quando ele ganha já é um resgate como foi o caso da sua câmera, não? Porque o fotógrafo já investiu pra fazer as fotos.
Pode ser. E há aqueles também que só fazem trabalhos artísticos. Fotografia de teatro eu considero uma foto artística, porque eu acho muito difícil de fazer. É aquilo que eu falei, você nem sempre vê isso nas fotos ou nas exposições, até porque a gente vê poucas exposições de teatro. Há aqueles que são muito empreendedores, que já fizeram seu nome, mas a duras penas, que são os fotógrafos da rua, da vida cotidiana, mais ligados ao fotojornalismo, ou que faz o espaço urbano, com ou sem o ser humano, mas enxerga as linhas, as formas, as curvas, as texturas e fica só naquilo ali, sem intervenção do ser humano, se bem que aquilo foi feito pelo ser humano, tem a mão do homem ali. Então, esses vão desenvolvendo sua carreira. Mas eu nunca ouvi, assim, um fotógrafo que já parou de trabalhar porque já fez fortuna. No nosso país? Muito complicado.
E você pararia se fizesse fortuna? Ou tem algo a mais?
Tudo na vida depende de tanta coisa. Se você falasse assim: “Claudinei, o que você quer agora?”, eu diria, “Ai, eu queria ir pra uma chácara com uma rede”. Sabe, assim? Balançar, levar uns três, quatro livrinhos, alguém pra fazer a minha comida, uma companhia boa, é bom, né, e só. Sem ter que ter a preocupação de acordar todos os dias às seis horas da manhã pra trabalhar ou pra fazer fotos, essas coisas todas. Agora, aos 50, 60 anos essa visão pode mudar. Tô ficando velho e minha cabeça precisa ficar ocupada. Isso vai da vida de cada um. Tem gente que tem 50 anos e está muito cansado, não agüenta mais, mas não pode parar, porque precisa do dinheiro, manter a casa…
Essa questão de levantar às seis da manhã, da preocupação, não está necessariamente relacionada com fotografar, mas com a obrigação. A partir do momento que não fosse obrigação fotografar, você continuaria?
Fotografando? Não sei… eu estou com 36 anos de idade, não virei os 40. Os sonhos ainda são grandes e Deus queira que eu tenha sempre muitos, né? Eu sou um homem que gosta muito de viajar, mas depois fico pensando, viajar deve cansar muito, só no avião, só no avião… Depois fiquei pensando, poxa, podia ter um apartamento em Paris. Mas quem tem apartamento em Paris tem dinheiro, então se tem dinheiro não vai ter problema… então fica no Ritz, pra que uma casa? Tem ficar pagando IPTU?
Sua diretora atual? Em que grupo você está agora?
Sim. No grupo GATU. É um grupo que se profissionalizou há dois anos, lá da Uniban, que começou assim… depois que eu comecei meu mestrado, fui fotografar e colei no Grupo TAPA, já tava colado por causa do mestrado, né? Falei: “bom, agora vou me dedicar à carreira de ator”. Então eu entrei lá e comecei a fazer os cursos do TAPA voltados pra Nelson Rodrigues, só para atores profissionais. E lá fiquei três anos. Aí surgiu um convite. A Heloísa* era namorada do Brian**, na época e o Brian um grande amigo meu, ator do TAPA. Eu tava em Maceió, o Brian me ligou e disse: “a Heloísa ta precisando de um ator com a máxima urgência porque ela vai estrear daqui a um mês e eles já estão ensaiando há oito. E o personagem é muito bom pra você, pra você criar, fazer o que você quer”. Era um diabo. “Você quer?” Eu falei: “não posso dizer nem que sim, nem que não, primeiro preciso conhecer o ensaio, ver o grupo, vai que eu to colocando meu pé numa barca furada”. Quando eu vi o trabalho, eu vi qualidade. Ela falou: “e aí, Claudinei, você quer?” e eu falei “Eu quero”. Tô no grupo até hoje. Estamos ensaiando. Vamos voltar com Viúva porém Honesta. Fomos em cartaz profissional. Fomos pro TBC. Agora a gente tá vendo Teatro da Folha, Teatro Imprensa. Mas não sei te dizer. Hoje eu acho que eu gostaria de parar de trabalhar, sim. Fotografar, fazer os meus projetos de fotografia eu gostaria, sim. Ter dinheiro pra fazer os meus projetos de fotografia. Acordar no horário que eu quiser acordar, do jeito que eu quiser fazer, beber o vinho que eu quiser tomar. Tem essas coisas. E continuar no teatro como ator.
*Eloisa Cichowitz, diretora teatral
**Brian Penido
Além de atuar, fotografar pra teatro, fotografar books, você também dá aulas de fotografia. Onde você leciona?
Faculdade Cásper Líbero, Faculdade Belas Artes e na FECAP.
Mais alguma coisa, ainda, nesta vida doida?
Escrevendo e pintando, né?
Profissionalmente também?
Pintando, não, é pra mim. Acho que tem muita coisa boa que sai, mas faço isso desde criança. E escrevendo, estou na batalha, procurando espaço… Eles promeeetem, “a gente vai publicar”, e não vem. Aí o Mário Bortolotto colocou no blog dele “ninguém deu espaço pra esse rapaz, então eu dou”. (risos) É difícil, mas eu tenho bons amigos. Sabe, o Valmir Santos, crítico de teatro da Folha, é meu grande amigo, porque nós fizemos faculdade juntos. Ele é um ano a cima de mim, mas a gente tava nos mesmo botecos, lugares, conversas. E eu fui crescendo como ator e ele já fazia críticas do meu grupo em Mogi, do TUMC. Aí ele veio pra SP, timidamente, foi sendo freelancer. Ele já trabalhava no Diário de Mogi e veio como freelancer. O Diário de Mogi serviu pra ele como espaço de experiência, acredito que até hoje ele erra também. Claro que o exercício é pra errar menos, mas lá ele foi melhorando. E eu comecei a fazer críticas e crônicas pra um jornal da minha cidade também. Falei: “vou seguir o mesmo caminho do Valmir”. Fiquei quatro meses fazendo crônicas. Aí, quando eu tava terminando o mestrado, tive que parar, porque tem que estar com a cabeça voltada pra escrever a dissertação e aquilo é muito difícil. Agora que eu tento voltar pro jornal não consigo mais, porque já tem outras pessoas ocupando meu espaço, mas o exercício era maravilhoso e escrever é difícil, pelo medo de estar falando alguma bobagem. Mas aí eu mando o texto pro Val, ele gosta. Claro, ele dá os seus dedos, porque eu peço pra ele: “mete o pau, porque não tem como comparar sua experiência com a minha”. “Ó, Clau, dá pra melhorar isso, não concordo com isso…” e eu não tenho porque ficar bravo. Ainda mais do Val, que é amigo. Tem também o Mário Sérgio, meu amigo de 52 anos de idade que também me critica, eu acho isso bom, uma pessoa em quem eu confio muito, e tem uma pessoa que corrige os erros de português e corrige pouco – graças a Deus estou escrevendo melhor – e também dá umas sugestões. Mas, se eu não ouvir estas três pessoas que me amam tanto a ponto de não passar a mão na minha cabeça… isso é um exercício de humildade e confiança.
Pra finalizar a parte de grana, em fotografia de teatro, seu trabalho funciona como? É freelancer? Você geralmente vende as fotos antes ou depois que faz?
Tem várias coisas. Tem freelancer, quando me chamam. Eu vou fotografar o espetáculo Edmond, agora, do Marco Antônio*, porque conheci ele, ao acaso, num restaurante. Aí eu liguei para o produtor dele, o Marco Aurélio Nunes e ele disse que tava pensando em me ligar, para fotografar o Edmond pro catálogo Off. Aí fechamos algumas coisas assim. Não discutimos preço. Isso virá depois. Vamos ver como vem. E, às vezes, tem trabalho fechado, quando a equipe da produção está finalizando o espetáculo, vai começar a fazer cartaz, começar a fazer folder, me chama, a gente fecha um preço, eu vou lá e faço. E tem aquele amigo, que tá duro, sem grana, o espetáculo é bárbaro, eu vou lá e faço. Dou as fotos, dou o CD. Eu não seguro nada, sabia? Não sou fotógrafo egoísta, não. Qualquer um pode me criticar e bater a porta na minha cara, mas eu vou lá dou a foto em alta resolução, a foto que tem defeito. O que valoriza o meu comportamento é a minha doçura também.
*Marco Antônio Pâmio, ator.
Como funciona a relação entre Claudinei espectador e Claudinei fotógrafo? Você tem que assistir à mesma peça várias vezes pra conseguir, de fato, assistir? Você costuma assistir antes de fotografar?
Com uns dezoito anos de experiência de ator e uns seis de fotógrafo de teatro, você pode se arriscar a fotografar o espetáculo sem assistir, porque você já sabe… mas é um risco. Normalmente, eu gosto de fotografar o espetáculo assistindo pelo menos uma vez. Nunca vai ter o melhor lugar onde se posicionar, mas eu posso perceber que, ali na esquerda, eu posso fotografar grandes cenas. Vou perder umas grandes ali na direita, mas aqui eu tenho mais, pra poder selecionar.
Também vale voltar e fotografar de outra posição?
Também. Às vezes a gente faz. Às vezes, eu acerto na primeira. Eu sempre gosto de fazer o trabalho esperando a grande foto. Ela virá… e eu só vou perceber depois que eu vejo na câmera, porque até então o trabalho é louco. Aí, eu sei qual é o melhor gesto, qual é a melhor cena, é o meu filtro. E fico ali quietinho. E eu gosto, aí é a história da arte e da vivência: eu gosto de fotografar o espetáculo, não o ensaio. Às vezes, não dá. Quando tem que fotografar pra mídia, tem que fotografar antes, não tem jeito, mas quando é pro elenco, pra uma exposição, pra entrada ou qualquer coisa assim, eu gosto de fotografar o espetáculo, porque há uma premissa muito grande no teatro. a de que teatro só existe com uma única condição: platéia. Se não tem ninguém na platéia, você não tá fazendo nada. Ou seja, o teatro é a única arte que se acaba em um curto espaço de tempo. Se você tá fazendo sem platéia, você não tá fazendo teatro, tá fazendo um exercício, mas se tem somente uma única pessoa assistindo, a mágica já se estabelece. O ator quando vai à cena sabendo que tem platéia, ele é um outro ator. Quando ele está no ensaio, sabendo que ele pode coçar a cabeça se coçou, que o diretor pode parar a cena naquele momento porque ele pisou no vestido da mocinha, é diferente. Se ele pisar no vestido da mocinha durante o espetáculo, ele não pode parar, ele tem que improvisar. E eu gosto de trabalhar com este nervosismo, este fio de alta tensão, porque ali é onde eu vou ter o melhor gesto, o melhor olhar, a melhor movimentação, porque o ator acredita no que ele está fazendo naquele momento, porque eu sou ator, é onde isso me dá força. Tá vendo como é que se diferencia um fotógrafo?
Essa é também a diferença de você ser ator?
Nesse sentido, eu sou um agraciado.
Acontece de você ir pra fotografar, mas ter vontade de rever a peça pra poder só assistir?
Muito difícil. A partir do momento que você vai pra fazer o trabalho, você já vai com um olhar. Por exemplo, quando eu vou a Campos do Jordão e estou muito cansado, eu preciso descansar, eu não levo a câmera, pra dar sossego aos meus olhos. Claro que chega uma hora que eu digo: “putz! Devia ter trazido a câmera!” (risos). É normal, você tá andando no carro, aí olha a luz batendo na janela, a luz batendo na árvore, a luz batendo no copo do restaurante onde você tá comendo… você não pára! E… é ruim. Acho que eu sou muito preguiçoso.
Você gosta das suas fotos?
Muito. Muito.
Tem alguma de que você goste especialmente?
Tem. Tem umas… Especialmente, de teatro, tem várias, mas fortes tem três. Uma do espetáculo Contos de Sedução, uma do espetáculo A Casa de Orates e uma de um espetáculo chamado Rumo à Cardiff. Aliás, algumas destas fotos foram dificílimas, porque o André Garolli ficava do meu lado dizendo “não fotografa agora não”, então eu tinha que fotografar no limite, o que é bom. Mas fiquei puto com ele. (risos)
Tem um tipo de peça que você goste mais de fotografar?
Não, neste sentido não.
Como um fotógrafo deve se comportar durante o espetáculo? Há ‘regras’?
Eu procuro ir com roupa preta, pra chamar menos atenção, e me movimentar quanto menos possível. Normalmente eu fotografo numa lateral e da lateral eu saio pra ir fotografar lá no fundo, com objetiva azul, essas coisas todas, tal. Tiro o sapato pra não fazer nenhum barulhinho no piso. E procuro me movimentar bem pouquinho mesmo. E jamais usar flash.
Já aconteceu algum acidente?
Não, mas já teve coisas curiosas. Por exemplo, fui fotografar o Cardiff e eu tenho um pouco de medo de altura. Eu quando viajo de avião não fico na janela, além de eu ser mijão, porque eu gosto de ficar bebendo ågua, eu também não fico na janela porque eu não gosto, não me interessa nada que tá acontecendo lá em cima. Eu não durmo, se a viagem for de 20 horas, eu não vou dormir 20 horas. Aí, o Cardiff, quando acontece no porão, na cena final eles abrem o palco pra jogar uma luz lá de cima, azul, pra quem esta embaixo ver os atores todos azulados. Só que eu queria fotografar de cima, de onde vem a luz. O que eu fiz? Um ator me levou até o urdimento*, que deve ter poeira de 40 anos, e lá eu fiquei, vinte minutinhos, entre um sarrafo e outro, onde coube minha objetiva, esperando aquele maldito porão abrir. Mas, pelo menos, eu fiz grandes fotos. Tem que ter coragem.
* segundo o houaiss: conjunto de traves no teto de um palco.
Tem uma peça que você possa dizer que foi a que você mais gostou de fotografar, que rende as melhores fotos?
Não. Tem grandes peças de que eu gostei muito e ainda não fotografei e atores que eu gostaria muito de fotografar e ainda não tive a oportunidade.
Fala alguns.
O Paulo Autran, a Fernanda Montenegro, a Bete Coelho, esse menino que tá fazendo agora A Pedra do Reino, com o Antunes Filho, que é incrível. Aliás, é um espetáculo inteiro que eu gostaria de fotografar. Mas tudo o que eu já fotografei eu gostei. Eu sempre procuro ter um pouco de relação… uma relação de amor, assim… é importante. A vida é assim, às vezes não dá pra ir em um, dá pra ir no outro e tal. Aí, se eu não fotografo, eu faço a crítica. Isso vai suprindo um pouco.
Você gosta de ser fotografado?
Não. Odeio.
Nem no teatro?
Odeio. Eu gosto de ser fotografado por um fotógrafo que me conhece. Porque eu conheço os ângulos, onde fica melhor a luz, careca não fica bem em foto, é bem complicado. Eu tenho fotos lindas minhas, mas são fotos que foram melhor produzidas, com uma luz um pouco mais acabada, mais bem elaborada, aí eu gosto, mas normalmente eu me acho um caco. No vídeo, então, como eu tenho um pouco de língua presa, quando eu tô no teatro, eu tenho que me esforçar muito pra que isso não aconteça, para que a platéia não veja. Até hoje ninguém falou: “Ah, você tem língua presa?” Porque é exercício.
A gente ainda tem tempo pra uma rapidinha? Vai ser triste, eu vou te limitar, você agüenta?
Agüento… Agüente você o que eu vou te responder. Eu não tenho papas na língua, sou muito pornográfico.
(risos)
Rapidinha:
Uma peça: Vestido de Noiva, do Grupo TAPA.
Um fotógrafo: Emidio Luisi.
Uma boa atriz: Nós temos muitas… Denise Weinberg, não tem o que errar, é a melhor do mundo, é a melhor do Brasil.
Alguém fotogênico: Duas atrizes que eu fotografei, Juliana Calderon e Paula Geli. Lindas. Você não precisa fazer o menor esforço pra fotografar. Sabem posar, qualquer ângulo fica bem.
Uma marca de calça: Vocês não viram a que eu tô usando, né? (risos) Qualquer calça fica bem, eu gosto de qualquer calça, qualquer calça da 25 de março. Eu estou usando uma Diesel, porque eu estive na Europa, agora, no início do ano e lá isso não custa nada, aí eu falei: :vou levar!” (risos) Mas eu jamais compraria, não pagaria. Assim, se eu vou à 25 de marco e tem uma calça que eu gosto, toda fudida, toda rasgada, eu compro. Não importa se a bunda fica caída. Eu compro, não ligo. Não ligo. Foi-se a época.
Numero do seu sapato: 40.
Uma lente: Pra trabalhar?
Ou pra brincar, você é quem sabe. Pra brincar. Uma lente macro. Pra desvendar os mistérios dos insetos. (risos)
Um teatro: Todo teatro. Todo e qualquer teatro, quando você entra naquela caixa escura e sente o cheiro da poeira, da madeira encerada, quando você entra no camarim, não importa se e o camarim do Renaissance, não importa. O ator gosta daquele espaço. Daquele escuro, daquele lugar.
Um iluminador: o grande iluminador do TAPA, Nelsão.
Luz natural ou artificial? Sempre natural.
Digital ou analógico? Digital. Pra teatro.
Preto e branco ou colorido? Branco.
Comercial ou artístico? Artístico.
Carne ou salada? Carne.
Palco ou coxia? Palco, sempre o palco… é que a coxia é muito gostosa, né? (risos) É onde eu faço as minhas loucuras.(vário risos).
Por dinheiro ou por prazer? Por prazer, sempre.





Muito legal seu trabalho. As vezes a gente pensa que não dá para fazer 3 coisas ao mesmo tempo…
Ola, gostaria de deixar meus contatos, para caso vc precisar de um maquiador e cabeleireiro. Tenho experiencia com foto, desfile e video…..11 8991 4020
Ai que orgulho! Meu professor querido! Ele é ótimo como professor, como fotógrafo, enfim, como pessoa!
Ah, mqu querido amigo, que saudade de você, das boas gargalhadas nos tempos do NEC, em Mogi. Como você anda ocupado, não? Fico muito orgulhosa em saber que você conseguiu unir prazer, vocação e profissão. Essa deve ser a verdadeira receita do sucesso. Um grande beijo!
Oiiiieeee Cuca! Eu lembro dessa foto de cuequinha vermelha…. haahahhaaaa
Beijos para você, que é um vencedor!
Sucesso sempre e vê se aparece na terrinha, né?
Saudades
Querido Cuca,
Adorei a sua entrevista porque me fez voltar ao tempo, de quando você estudava com a minha irmã Akemi, lembra,lá em Mogi das Cruzes?… Lembrei dos seus pais, das suas irmãs… Percebi também que você tem um potencial enorme e que jamais perdeu a sua essência que é a vontade de aprender sempre!Nossa, quanto tempo já nos conhecemos hein? E quando nos esbarramos nesses acasos da vida, fico muito feliz em te ver bem.
Continue sempre assim, encantando as pessoas e ensinando a elas o quanto a vida é bela… Suas fotografias são perfeitas porque vejo nelas o foco e o ponto que dá o sentido dela existir, de estar como ela está. Parabéns e sucesso sempre!!!
Beijos
Marisa Kumimatsu