“Não tenho paciência pra teatro”
“Agora eu tô em entrevista! Vou ganhar um alvará com isso aqui! Amanhã eu tô de carro branco aqui!”, anuncia Élcio José Araújo Martins, taxista que, durante o dia, carrega engravatados na saída do fórum João Mendes e, durante a noite, carrega engravatados na saída de teatros e shows.
O ambiente em frente ao teatro Cultura Artística é repleto da mais típica malemolência brasileira: só na amizade, na conversa mole, no baralho e na sacanagem. Os taxistas que correm atrás do público e levam a burguesia pra tão consagrada pizza pós teatro são muito unidos – com a ajuda do Nextel – mas, claro, rola uma concorrência tácita.
Entre tantas caras e carros conhecidos por ali, os seguranças do teatro apontam Élcio como o mais falante. Ele se autodefine “o mala”. Mais tarde, porém, já menos inibido, assume que é, na verdade, “o anjo da guarda da galera”.
Élcio não tem paciência pra teatro, mas tem paciência pra suportar gente de todo tipo que entra em seu carro. Ele não é rico, mas assistiu ao Fantasma da Ópera mais vezes do que todo nosso salário poderia pagar. Ele teoriza sobre os amantes, sobre o brasileiro típico, sobre alvarás de 45 mil reais. Falante, sim, prolixo, não. As falas são de um cara objetivo e direto, que faz graça de tudo, sabendo muito bem aonde quer chegar.
Você gosta de falar?
Ah, não sei.
Você fala trabalhando ou só fala assim com jornalista, imprensa?
Falo o dia inteiro, com todo mundo.
Você fala muito com os clientes?
Falo. Ah, depende. Tem cliente sisudo, né? Tem cara que não adianta chamar assunto com ele, que não vai. Tem outros que chama assunto com você e você que não quer conversar. Tem isso também.
Tem que ser falante pra ser taxista?
Não… só que sendo falante você acaba ou queimando o passageiro ou ganhando o passageiro, né? Às vezes, você fala alguma coisa que não foi do agrado do cara, você já queimou o cara. Às vezes, você fala algo que ele quer saber ou que quer ouvir… Assim… não falo nada que não me perguntam. Perguntou, eu informo, não perguntou, eu não respondo, pronto. Fácil. Fico na minha, meu.
O pessoal daqui é mais sisudo ou mais falante?
Tem de tudo aí, tem o sisudo, tem o falante, tem tudo aqui. Acho que por ser peça, teatro, assim, vem um público bem diversificado. Não vêm só os tiozinho… vem pessoal de fora ver, quem não é de São Paulo, vem aqui pra trabalhar, fazer alguma coisa, a gente deixa aí nos hotéis, tal. Tem os amantes…
Como é que identifica os amantes?
Você percebe né, meu. Dá pra notar. É muito chameguinho, não é normal. Você percebe, no dia a dia você acaba percebendo. Você sai de casa brigado com a mulher e vê o outro no amorzinho, beijinho… Você fala: “tem coisa errada aí!” (risos)
Você já ouviu muita besteira?
De todo tipo. Briga no telefone, a pessoa tá no celular… “ai, moço, desculpa, viu! É que não sei o que…”. Pede desculpa porque tá no meu carro, mas por mim, não quebrando meu carro, não batendo em mim, pagando minha corrida, não tem problema nenhum.
Lembra de alguma história, algum exemplo?
Ah, não tem uma, tem várias. Tem caso de: “ah, vou chegar aí e o bicho vai pegar pro seu lado” [fingindo ser uma amante falando com o marido]. História tem de monte, o que você imaginar de história nesse meio da gente tem.
Saindo daqui você lembra de alguma história específica?
Particularmente, comigo não. Tem uns passageiros que dá vontade de mandar descer do carro, que pega você aqui e pede pra deixar ele no Terraço Itália… Aí, depois que você virou a esquina, você vai voltar de ré? Não vai, né?!
(Atende o rádio)
Positivo, tô dando uma entrevista, depois eu ligo pra você. Vou aparecer na Grobo. Você tá onde? Tá miado aqui, viu, só 50 pessoas. É assim o tempo todo comigo. Eu sou meio anjo da guarda do pessoal…
Vocês parecem todos muito amigos. Não rola uma concorrência?
Ah, rola. Rola sim… fora daqui… assim, a gente tá aqui… o mesmo pessoal que tá aqui, daqui a pouco estoura outra peça, lá do teatro Raul Cortez, da Fecomercio, quer dizer, a gente sai daqui, vai pra lá. Tem show lá no Credicard Hall… sempre o mesmo pessoalzinho. Joga um baralho hoje, joga uma conversa fora amanhã e assim a gente… um sabe da vida do outro, outro sabe da vida do um.
Brigam?
Briga, briga, briga, briga… não tem. Tem concorrência, lógico. Não vamos ser hipócritas… os colegas estão na fila dupla ali, enquanto eles não saírem, nós, que tamo parado no meio-fio, não saímos. Aí, vamos supor, são dez da noite agora, eu cheguei aqui às nove. O cara que chegou ali às onze e parou, levou passageiro e eu que cheguei aqui às nove me ferrei.
(Atende o rádio)
Você vê como é que é comigo? Carrego todo dia o Nextel, mano.
Você atende várias portas de teatros?
Vamos colocar o meu dia de trabalho. Eu acordo seis horas da manhã.
Quem é que pega táxi às seis da manhã?
Não, não é isso. Eu trago meu filho e minha mulher, que eu moro longe do centro, eu moro lá na Raposo Tavares, do outro lado da cidade. Aí, assim, ele entra às sete horas na escola, deixo ele na escola, minha mulher vai trabalhar e eu vou pro meu ponto. Meu ponto é ali no fórum João Mendes. Meu ponto oficial, só que é o que eu te falei: aqui não é ponto oficial. A gente faz assim, a gente corre onde tá o passageiro, senão a gente não ganha dinheiro. Não é que nem lá no meu ponto, que o passageiro vai ao táxi. À noite, aqui, já é diferente, a gente que vai ao passageiro. Então, fico de dia lá no meu ponto, carrego juiz, advogado, daí pra lá… meu serviço de dia. E à noite eu venho pra cá. O meu estilo de trabalhar é esse. Cada um tem o seu. Você tem que ir, pra ganhar dinheiro, onde tá o passageiro e se virar aqui no rádio. A gente vai se ajudando um ao outro dessa forma.
Como funciona essa história de alvará?
Assim… alvará é a licença que permite a gente trabalhar com seu veículo na categoria aluguel. Você não pode simplesmente ter uma Meriva branca, botar um taxímetro e manda a ver, entendeu? A placa vermelha, pra gente, é considerada o alvará, que é o que dá direito de usar o veículo na categoria táxi, aluguel. Só que um alvarazinho desse hj… Então existe táxi frota. Esse branco aqui é do Testa.
O seu é de frota?
O meu é.
O Testa é o único que tem alvará aqui?
Não, tem mais colega aí que tem, mas a gente se vira do jeito que dá.
Quem é o dono da sua frota?
Ah, ele não é uma pessoa assim, conhecida. No meio ele é conhecido…
Quantos carros ele tem?
Só 180! (risos) Pobrezinho o menino. Fora uns cem carrinhos de locação que ele tem por aí. Quando tira o carro do táxi, ele põe pra alugar.
Há quanto tempo você é taxista?
Já fazem oito anos. Já rodei bastante.
Só de sexta, sábado e domingo você trabalha à noite?
Geralmente, de segunda a quarta, como tem pouco evento à noite, nesse horário eu já tô em casa.
Pra conseguir parar aqui no meio-fio é muito disputado?
Nós estamos no meio-fio hoje porque como tá fraca a peça, os carros populares – não táxi – tem pouco. Normalmente, como o coordenador do teatro não vai muito com a gente, coloca os carros particulares deles aqui e a gente fica lá na fila dupla. Mas sempre tem táxi aqui, sempre tem.
Estranho ele “não ir muito com vocês”. Na verdade, é uma espécie de parceria, não?
É, mas ele não é muito de parceria, não. Ele é meio carrancudão. Wilsão, tô dando entrevista pra Globo, Wilsão.
Wilson: Pegaram o cara certo. Esse é foda.
Élcio: Vou pegar alvará!
Outro taxista: Alvará de quê? Você tem que pegar é alvará de soltura pra gente ir na boate.
É muito diferente transportar os advogados lá no João Mendes e a galera aqui do teatro?
É outro tipo de passageiro.
Por quê?
Vamos colocar assim: de dia, o advogado em si, o juiz, o desembargador, não é tanto. Agora, você carregar estagiário se achando: “liga o ar aí”. O cara já chega querendo te botar em pânico. E você sabe que chega no fim da corrida o cara pega o recibão pra prestar conta. Aqui é diferente, é um público que vem pra se divertir.
Tá menos estressado?
Menos estressado… o cara sai daqui vai pra um restaurante ou então vai pra casa com a sua senhora…
Falando em vai pro restaurante, em qual você mais leva o pessoal?
Não tem assim… na nossa profissão é difícil você falar: “eu levo mais pra tal lugar!”.
Nenhum dos restaurantes é mais comum?
Ah, tem a Famiglia Mancini aqui embaixo, que a gente nem leva, né?! Fala: “Ô, dá volta no quarteirão, amigo! Vai embora, vai a pé!”. Mas não tem como dizer qual mais, a gente não tem uma referência.
Tem alguma coisa que a galera mais fala depois da peça?
Geralmente, 90% das pessoas que você pega saem falando da peça em si. Depende do que aconteceu. Agora, o Paulo Autran tá doente, então não tá tendo a peça dele, só tá tendo essa Família Muda-se, tanto que hoje tá fraco aí, quem segura aqui esse teatro é o Paulo Autran. O pessoal sai falando da peça, às vezes saem criticando. Que nem tem uma peça do Jô (Às Favas com os Escrúpulos) que tá em cartaz. Muita gente sai falando que é uma peça política, dos dias atuais e tal, só que não tem núcleo, não tem direção, não tem nada… você vê, tá criticando o Jô. Aí fala: “não, mas você viu a Bibi Ferreira, mano!” Então, tá falando bem do ator e mal da peça. Aqui é a mesma coisa.
Wilson: As peças que estão hoje, você ouve o comentário. Então tem pessoas que têm um bom discernimento, eles até entendem e gostam, mas tem gente que não entende nada. Tipo, Fantasma da Ópera, peguei um casal uma vez com um garoto, a mulher virou e falou assim pro marido: “que vergonha, você dormindo no meio da peça” e ele: “Ah, eu não agüento esse negócio de ópera” ai ele virou pro moleque e falou assim: “e se você tirar nota ruim, mês que vem eu te trago de novo” e o moleque: “o pai, que mancada!” Quem gostou foi a mulher, a mulher adorou, mas o cara não veio porque quis, ele veio pra acompanhar a mulher dele. O Paulo Autran é super elogiado.
Vocês já viram? Deu vontade de ver?
Wilson: Não, não vi. Vontade dá.
Élcio: Eu já vi o Fantasma da Ópera. Várias vezes.
Wilson: As pessoas comentam, a gente até já sabe da história, eles vão falando, você mais ou menos monta a peça na cabeça.
Élcio: A gente tava falando do Fantasma da Ópera, o Fatasma da Ópera eu vi. Fui eu e o….
Como é? Você fala com o segurança, ele deixa você entrar?
Geralmente é assim. Aqui nunca aconteceu, mas lá no Teatro Abril era direto. Aqui não porque o coordenador aqui, já falei né…. Lá assisti várias vezes, perdi a conta já. Tinha nada pra fazer, entrava lá…
Você gostou da peça?
Élcio: Ah…
Wilson: Ela é cansativa…
Élcio: É, isso que eu ia falar. Ela enche o saco. Vamos falar a verdade?
Wilson: Enche o saco. Pra quem gosta é um prato cheio, agora pra quem não gosta…
(Vários taxistas começam a participar da conversa, mas logo Élcio põe ordem na casa)
Élcio: Ô, deixa eu conversar com as meninas aqui?
Fabrício: Eu, você fala?
Élcio: [aos outros taxistas] Eu não vou dividir o prêmio com ninguém, não.
E quando chega taxista desconhecido?
Não tem problema. Normal. Não tem discriminação. Tem assim, na rua, eu tenho meu ponto, que é legalizado pela prefeitura, lá no fórum João Mendes, mas o mineiro ali não tem, o Vagner ali não tem, o Wilson tem o p.a., que é o ponto de apoio na nossa lingua, né? Uma gíria nossa. Então, assim, o Wilson tem o p.a. dele. Ele e meu amigo aqui, mas eu não vou puxar passageiro dele lá, no p.a. dele. O Wagner tem o p.a. ali na Augusta. Então, assim, um acaba respeitando o outro. Só que aqui, no chamado mangueirão, cada um é cada um.
Mangueirão por quê?
Imagina um mangueirão… é uma fila de táxi, vai sair o primeiro lá da frente, você não vai sair do meio. Mas não é assim necessariamente. Que nem hoje aqui. Não tem ordem pra sair. ainda mais que tá fraco. Aí não interessa se eu cheguei por último, se eu cheguei primeiro, eu vou jogar dentro do meu carro e fui. O magueirão em si, em si assim, tem que ser o primeiro. Que nem, tem uma feira no Anhembi, com cem carros, aí vai saindo de um em um. Não é que nem aqui.
E aeroporto é assim também?
Não, lá é ponto, ponto. Aí já é outra coisa. Aqui o passageiro vai, não gostou do meu carro, gostou do dele (aponta para o taxi do companheiro), eu não vou brigar com o cara e falar que eu cheguei primeiro que você. Um cara que pegou o carro hoje quiser vir aqui e parar aqui com a gente, pode parar. Ué, vou proibir? Tá certo que rola aquela sacanagem, você não deixa a vaga pro cara parar…
Você já pegou celebridade aqui saindo?
Na época do Fagundes eu carreguei o Fagundes. Eu carreguei, ele tem uma F250, aí deu pau. Você vê que os meninos, vocês perguntaram e eles já logo me indicaram. Aí o Cleber, um deles, virou pra mim e falou assim: “Vai com o carro lá dentro do estacionamento lá que pifou o carro do Fagundes. Aqui como meu carro é filmadinho, eu levei ele. Na boa… já carreguei a Fernanda Lima – não daqui – já carreguei a Cláudia Raia, a Débora Secco, O Vesgo… mas ele não é aquele palhaço todo, não.
Você puxou assunto?
Não, com esse pessoal não precisa puxar assunto, o assunto rola. Tem gente que você não precisa falar assim: “nossa, faz tempo que não chove, né?”. Passa assim um cara que caiu da bicicleta do lado, um moleque que roubou uma tiazinha no farol e o assunto acontece. Que nem, o pessoal fala negócio de ser tipo psicólogo, tal, acho que isso é mentira, acho que isso é meio do brasileiro assim… [apontando pra cada um] você se apresentou, você se apresentou, você se apresentou, e a gente tá aqui conversando, só que assim, a gente tá aqui porque a gente é amigo de táxi… só que o brasileiro em si, pega o metrô na estacão Tucuruvi desce na Jabaquara, sabe a vida inteirinha do outro, depois pergunta “como é seu nome mesmo?”. Não sabe nem o nome do outro. Mas acho que isso aí é do brasileiro. Então com a gente aqui dentro do táxi não é diferente. A mulher fala, “ai, porque meu marido é isso, que ele é aquilo, que ele é filha da puta”, “qual é seu nome mesmo dona?” Ou então, já aconteceu também do cara desabafar, fazer coisa errada no táxi. Tipo, o cara me dar dinheiro e falar: “Ô, meu, só pra gente ir na Marginal pra eu usar cocaína” Ele tem vergonha. O cara me deu 50 paus outro dia na Vila Madalena, à noite, o cara me pegou pra eu dar uma volta com ele um quarteirão, ele entrou no carro, deu cinquentão, deu a volta no quarteirão, porque os amigos dele não sabiam que ele era usuário de drogas, nem nada… já peguei uma mulher uma vez lá no Obelisco, a mulher chorava, chorava, chorava, fumava um cigarro atrás do outro, a mulher de camisola, uma pantufa de cachorrinho, pegou o marido com outro na cama.
Outro?
Outro. Vizinho deles, do mesmo prédio. Tipo assim, se fosse com outra… pegou o marido com outro.
Retomando, o que o Antônio Fagundes falou pra você?
Geralmente, essas pessoas conversam coisas que pra nós são do dia-a-dia: “puxa, vocês agüentarem o trânsito é complicado, hein?”. “O carro é seu ou de frota?” É coisa que pra nós tanto faz, ouve umas cinqüenta vezes por dia. Eu também não vou chegar nele e falar: “ô, qual vai ser sua próxima novela?”. Como tava na época de carga pesada, eu já parti pra zoeira. Eu falei: “pô, se meteram numa fria semana passada, hein?!”. Ele “É, né, já vi que você assiste”. Levei ele pro flat lá na Avenida das Nações Unidas, perto da Globo mesmo.
Teve uma história do Fagundes ter dito que as pessoas não se perfumam mais pra vir ao teatro. O que você acha?
Isso é um negócio que eu nunca reparei, nunca parei pra pensar.
Mas tem uma coisa que por mais que você não tenha parado pra pensar pode ter te incomodado: pum dentro do carro, rola ou não?
Não… rola uns bafão da vida… agora punzão mesmo… pum, pum, pum, pum… eu já segurei um monte de vez, mas… (risos)… Às vezes você até percebe um negocinho mal cheiroso assim, mas você deixa passar, né?
E você deixa fumar no táxi?
Não.
Você sabe que o Paulo Autran fuma, né? Se ele pedisse, rolava?
Não. O carro é meu, é meu espaço. Nem se fosse o Lula aí dentro: “companheiro…” (imita voz rouca). Não.
(risos)
E a mulher de camisola não fumava?
Essa aí chegou fumando já. E tem coisas que você deixa passar. Tem coisas que você releva. Se a pessoa chegar pra mim, assim: “posso fumar no seu carro?”. Eu falo: “não”. Tem uns mal educados que já vão acendendo o cigarro. Eu falo: “pode apagar o cigarro, por favor?”.
Fala mesmo?
Falo, já perdi corrida por causa disso. Mas, no caso dessa mulher aí, ela chegou que nem um dragão fumaceando lá e falou “vamo, vamo, vamo, moço”. Nem tchum! Você acaba nem percebendo. Aí você vê a situação da pessoa. Dei mó rolê com ela. “A senhora quer ir pra onde?” Não tinha destino. Aí eu parava várias vezes: “a senhora quer alguma coisa?”. “Pára no posto ali e compra uma água pra mim”. Parei no posto, ela deu o dinheiro, comprei a água. Ela tava com dinheiro, não me deu chapéu, nada. Ela tava consciente de tudo, sabia onde ela tava. Eu não falei nada. Ela chegou assim: “moço, você não sabe o que aconteceu!”. “Deve ter acontecido algo de muito ruim mesmo. Onde a senhora quer que eu vá?” E ela: “Ah, moço, vai andando, vai pra qualquer lugar”. Aí, peguei a Avenida Brasil, fui, fui, fui, cheguei perto da Avenida Sumaré. Pensei: “puta, aonde que eu vou com essa mulher?”. E ela sabia onde ela tava andando, falou: “pega aqui a Sumaré, vamo lá pros lados do Palmeiras, vamo andando aí”. Quer dizer, ela tava consciente. Tava ligada. Deu mais de 150 conto. Ela pegou e pagou. Eu falei: “vamos negociar”. Ela falou: “Não, você fez seu serviço, você tá trabalhando, eu que tô com meus problemas”. Ela já tava mais calma… tinha dado 147 reais, ela me deu três notas de cinqüenta, bateu a porta do carro e tchau. No mesmo lugar que eu peguei ela, eu deixei, no Obelisco.
Você gosta de teatro?
Não tenho paciência. Não tenho paciência pra ler livro…
Cinema?
Não tenho saco. Também.
Do que você gosta?
De qualquer coisa. Eu me adapto em qualquer coisa. Se eu for obrigado a ver uma peça pra fazer um trabalho, por exemplo, eu vou ver a peça. Pensando em outra coisa, mas vou ver a peça.
Mas não é diversão?
Não.
Por que você assistiu tantas vezes o Fantasma da Ópera, se você não gosta de teatro?
Pra não ficar lá fora escutando groselha de taxista.
Rapidinha:
Tipo Vídeo Show?
Um ator: Ator? Ator, ator, ator, ator, ator… já gaguejei pra falar a primeira coisa… Marcos Paulo… acho aquele tiozão legal.
Uma atriz: Fernanda Montenegro, a velhinha é perversa pra trabalhar.
Uma mulher bonita: Tem tantas… Adriane Galisteu.
Um homem bonito: (risos) Eu! (risos)
Uma multa: uma merda!
Melhor buzinar ou xingar: no meu caso, xingar, que buzinar não vai adiantar nada.
Teatro: uma forma de sobrevivência, pra mim, né?!
Um posto de gasolina: tem que escolher, viu! Do jeito que tá adulterado pra cá, adulterado pra lá. A gente que roda no dia-a-dia aí, a gente percebe onde é bom onde é ruim, a gente sente a diferença no carro.
Um amor da sua infância: minha mãe, que morreu quando eu era jovem.
Uma marca de carro: Chevrolet.
Com emoção ou sem emoção? O quê? Chevrolet? (risos) ah! (risos) Com emoção, opa! (com cara de malemolente) Com emoção, com emoção!


