Sobre processo criativo em família, teatro de rua, cultura popular e aquisição de carneiros
A primeira apresentação de Pavão Misterioso no FIT Rio Preto 2008 foi na praça Carmen de Oliveira Santos, a praça da maior seringueira de Rio Preto (repare nas fotos do espetáculo, a árvore está em todas) e encheu o local de gente, de risada de criança e de cheiro de pipoca.
A peça, que na verdade foi planejada para ser realizada no palco, acabou experimentada na rua por conselhos de profissionais que acompanharam o processo e que perceberam o bom relacionamento que o grupo Forrobodó tem com a rua. A temática também tem tudo a ver. Baseado em técnicas de contação de história e com a ajuda de bonecos artesanais e figurinos coloridos, o grupo tem como foco as manifestações da cultura popular, tais como o cordel, que origina essa peça.
Sem dois reais pra pipoca, o jeito foi tirar o sapato, sentar no cocô de pomba e comer bolacha de maisena enquanto os dois palhaços chegavam numa charrete. “Eles são um casal e sustentam a família só trabalhando com teatro”, contou meu novo-amigo-riopretense, apontando a filha dos dois atores, posicionada no que seria a primeira fileira, se houvesse fileiras no chão da praça.
Ao fim da peça, ficamos um bom tempo agendando uma entrevista com o Marcelo, que se dividia entre a arrumação das coisas, a abordagem dos “fãs” e o filho mais novo que queria, de todo jeito, quebrar o violão do pai – com todo carinho, claro. Saímos de lá com o contato e a possibilidade de rever a peça e o casal no dia seguinte. No caminho, no entanto… “Era com você que eu tinha que falar?” Era comigo. Conversamos, então, no lugar mais apropriado e cênico na ocasião: o chão da praça.
Juliene: Vocês apresentam o Pavão no palco e na rua. E isso muda muito. São necessárias mudanças estruturais?
Aline Alencar: Muda. O que mais muda é a questão da iluminação. Por exemplo, para o palco, a gente tem um projeto de luz.
Fabrício: Por isso o “luz” (trecho da peça em que a personagem de Aline pede luz, de maneira frustrada)?
Aline Alencar: Então, foi um improviso hoje por ser na rua. No palco tem todo um recurso de luz que ajuda bastante. E a acústica também é outra, né? A gente não chega de carroça, a gente chega junto com a vinheta do Festival. Vai estar rolando a vinheta, e a gente já vai estar uma discussão com a voz em cima. Esse espetáculo foi projetado para o palco, porém a trajetória da companhia é de rua. A gente estava com uma cobrança de fazer alguma no palco. Vamos fazer então o Pavão Misterioso, um infantil, literatura de cordel. Porque a gente tem outro que é a Chegada de Lampião no Inferno, na rua, que também é cordel. E aí quando a gente montou o Pavão pra palco, a gente estava se sentido ainda preso no palco. E foi por isso que gente decidiu fazer um experimento dele na rua. E a gente viu que deu certo. Essa foi a terceira vez que nós apresentamos o Pavão na rua.
Juliene: Vocês participam do festival pelo Aldeia FIT? Como foi a inscrição?
Aline Alencar: Nós inscrevemos três pra palco, só que na semana da inscrição a gente já ligou e falou “Não, uma na rua”. Porque a gente tava tendo um acompanhamento e, nesse acompanhamento, os profissionais foram alertando pra gente tentar fazer na rua. Principalmente o Ednaldo Freire, que tem um trabalho com a cultura popular também. Foi por isso que a gente levou ele pra rua. Agora, a gente devia ter feito duas na rua, ao invés do Sesc, mas a gente vai fazer lá com a mesma garra que a gente fez aqui.
Juliene: E sobre a seleção do Aldeia FIT que acabou ficando na mão dos próprios diretores. Vocês votaram também?
Aline Alencar: Foi. A escolha do Aldeia foi assim: as produções de teatro de Rio Preto tinham que votar em dez peças. A gente tava concorrendo com duas, que eram essa e o É poesia popular. Nosso resultado ficou meio dividido. E aí o Pavão teve mais votos. Mas na verdade a gente ficou meio contando com o critério de cada companhia. Tem gente que não gosta de cultura popular e a gente tem que respeitar. Como tem gente que não gosta de outros tipos de linguagem e tem que respeitar. Entendeu? A gente não pode criticar esse critério, porque a gente aceitou desde o início. O jogo tava bem claro pra gente: “Ó, vocês querem fazer parte, só que o jogo é esse”.
Fabrício: Teve grupos que não quiseram?
A. A: Não, teve grupos assim… Claro, né? Sempre rola uma… uma mesquinharia. Sempre rola alguma coisa no meio do caminho, né? E quatro grupos não entraram, por conta de autorização. E quatro substituíram, então tem quatro que estão participando que subiram no lugar dos quatro que desceram. Porque o prazo de entrega do material para o Festival esgotou e o autor não deu a… Luz!
(Todos esperamos que o poste ao nosso lado acenda a luz, no alvorecer. Depois de alguns segundos ela acende).
A. A: Tarda mas não falha!
(risos)
Juliene: E pra vocês também deve ter sido complicado, porque vocês tiveram que votar nas outras, né? E, muitas vezes, em linguagens diferentes das de vocês. Como foi isso?
A. A: É, às vezes até por falta de identifica… não identificação… Mas é difícil escolher só dez trabalhos, gente, é muito difícil. Mas eu entendo. A gente tem que pesar tudo. Rio Preto é uma cidade que sedia um festival como este e existem várias companhias que – só no Aldeia FIT a gente foi saber quantas companhias existem nessa cidade. Grande parte dessas companhias, durante o ano, não tem outra saída a não ser ficar dentro do próprio mundinho, né? Essa é a grande realidade. Não culpo o lugar, mas eu acho que também vai de pessoa pra pessoa, de grupo pra grupo. Eu não tenho dinheiro pra sair pelo Brasil pesquisando cultura popular. Sabe? Eu adoraria que o governo desse esse tipo de lei de incentivo pra grupos. “Pesquisa cultura popular? Então vou te dar um pacote de viagens pra você ir lá pro Recife, pesquisar o maracatu. Vou te levar lá pro Espírito Santo, pesquisar as congadas”. Eu ia adorar, mas que é que a gente faz? A gente fica nessa busca urbana da cultura popular, através do que a gente tem na nossa mão. Aqui tem muita manifestação de Folia de Reis, isso pra gente ajuda. Mas assim de outras manifestações, fica difícil a gente ter acesso.
Juliene: A outras peças de vocês também são…
A. A: São todas voltadas a esse universo. A gente vai querer montar uma que não tenha mais esse universo. (risos) Porque daqui a pouco vão achar que não sou atriz. (risos gerais) Sei lá o que podem pensar.
Fabrício: E a Companhia [Forrobodó] são só vocês dois?
A. A: É. Eu, ele e a gente tem a ajuda de outras pessoas que fazem parte no momento da companhia. Por exemplo, a maquiagem foi feita pelo Martin, que também agora no momento é da companhia. A nossa luz é do Aílton, que também no momento faz parte.
Juliene: São pessoas que vão passando pela companhia a cada trabalho.
A. A: São amigas que vão ajudando. Só que a gente decidiu outra coisa: fazer um novo trabalho e aumentar o elenco, porque aumenta o coro e pra rua isso é muito importante. (risos gerais) Porque bem… hoje o microfone não deu certo, porque deu interferência de rádio. Então teve que ser na hora e no gogó. Então, vamo lá! E a voz lá em cima. E eu com a égua lá em cima, já gritando. Fazendo o teste né? “Vaaaamo, Guabira [não temos idéia do nome original dessa égua] já gritando lá de cima. Ah, o irmão Pedro, que é charreteiro, são pessoas que a gente sempre tem que estar caminhando junto pra gente aprender com eles e eles nos ensinarem também, né? A gente trabalha muito pro povão. A gente gosta do povo. E praticamente a gente acaba sendo o único grupo aqui de Rio Preto que faz teatro pra rua. Aqui não tem um outro grupo assim, pelo que eu vejo.
Juliene: E público, tem?
A. A: Opa! O público riopretense é um público muito preparado pra teatro. Tanto é que a venda de ingressos em Rio Preto… nossa, no primeiro dia já esgota.
Juliene: Pro FIT a gente sabe que rola bastante. Mas, por exemplo, em Londrina os grupos dizem que durante festival tudo lota, mas ao longo do ano é normal ter seis ou sete pessoas na platéia. Eu te pergunto se aqui o público se concentra no festival ou se no resto do ano também tem?
A. A: Janeiro brasileiro pra Comédia que tem aqui também tem público, bastante. Quando a gente faz as nossas apresentações pra rua também tem. A gente faz bastante lá na Rui Barbosa, no calçadão. Lá reúne duzentas, trezentas pessoas fiéis assistindo, do começo ao fim. Quer dizer, é um público preparado.
Guilherme Nullius (leitor da Bacante fazendo parte do quadro “Repórter por uma pergunta”): O FIT é importante pra formar o público?
A. A: Claaaaaaro…. Por isso que a gente aqui, riopretense, bem, a gente tem que beijar esse chão aqui ó, e falar “brigado” porque dá de mão beijada pra gente. Divulgar o nosso trabalho e gente pra assistir. Só que eu acho que aqui em Rio Preto a gente devia ter uma concentração maior de um movimento de rua. Por que o movimento de rua também é um movimento de formação de público.
Juliene: De quantas edições do FIT vocês já participaram?
A. A: Olha, eu sempre trabalhei como produtora do festival. É a primeira vez que eu faço um espetáculo. Eu sempre fiz produção. Então esse ano, não estar na produção…
Juliene: Já dá pra dormir mais, né?
(risos)
A. A: Dá pra dormir mais. E é diferente de você estar fazendo o que você pode pro grupo. Porque é legal quando você trabalha na produção, porque você sabe as necessidades de cada grupo. Que nem o ano passado eu fiquei o festival inteiro com o Ói nóis… do Kassandra. Eu encontrei com eles um mês antes do festival. Eram duas toneladas de cenário.
Juliene: Foi você quem comprou carneiros?
A. A: Comprei. Eu fui atrás dos carneiros. Tavam no meu nome os caneiros! Quase me levaram pra Porto Alegre, eu que não quis ir. A Tânia queria me levar. Eu falei “Não, gente, pára… eu não sou vegetariana”. No momento não, né… mas eu fui… eu fui atrás de matadouros na divisa com o Mato Grosso pra achar esses carneiros. Eu adoro produção. Eu gosto de servir aos outros.
Juliene: E esse ano, você foi bem servida?
A. A: Esse ano, o Douglas é parceiro meu de produção – o magrinho que tava aqui – Ele, nossa, muito bacana, o Durval também. Não tem do que reclamar. Eu acho que o festival internaciona… a gente participa de outros festivais muito bacanas. Mas o FIT ele tem esse cuidado com os grupos que falta em outros festivais, sabe? Têm muito cuidado. Grupo aqui não tem o que reclamar do festival. Eu sei disso porque eu já trabalhei muito como produtora. O grupo pede uma agulha de um lado, e do outro lado já aparece a agulha.
Fabrício: Tem uma coisa com relação à linguagem, que vocês se aproximam muito do palhaço. Vocês já têm “palhaços definidos”?
A. A: Então, assim, a gente precisava de uma referência poética pro nosso trabalho, de linguagem. Então a gente busca no teatro-circo, que é a nossa maior referência, que são as gags, os dramas, as comédias circenses que eram feitos pelos próprios circenses muito mais no passado do que hoje em dia. Apesar de hoje existir mais um resgate do que uma celebração real do circo. Mas em 1975, existia o teatro-circo e ele era muito presente: os dramalhões, feito pelos atores, as farsas, o melodrama. E é aí que a gente se espelha. O nosso trabalho é totalmente inspirado no melodrama, na parte circense. Então, a questão de surgir o palhaço, primeiro surgiu a história do brincante e do brincante que vieram surgindo os estereótipos desses dois palhaços.
Juliene: Mas Pipoca é sua e o Marmita é dele… em qualquer ocasião…
A. A: …pra qualquer ocasião e situação. Mas são palhaços urbanos, estressados. Marmita cansa de ser palhaço. Ele assume isso e fala ó “Se hoje me ligar pra ir em porta de loja, eu não vou, cara!”. É desse tipo palhaço bem humano. E a Pipoca é estressadona, ela não tem paciência mais com as coisas. A gente utiliza como subtexto que a gente foi abandonado por um circo e que não tínhamos onde trabalhar. Fomos deixados no meio da rua e não tínhamos o que fazer. “Ah! Vamos fazer alguma coisa”, sabe, pra ganhar o pão? Por isso o chapéu é muito importante. Que é a filosofia, né? Pra comer o pão. E é isso a referência, é teatro-circo, criançada. Nossos dois filhos nos apóiam bastante, a Luara, minha filha, foi parte integrante do Pavão, na construção do Pavão.
Juliene: Nos cenários ou da criação de textos mesmo?
A. A: Na criação. A gente criava e ela fica assistindo. O que ela dava risada era porque funcionava. Que pena que às vezes ela falava “mãe, não faz mais isso”. Ô Luara, nossa, mas foi a criatividade. “Tá horrível”.
Juliene: E ela é muito sincera?
A. A: É, ela é muito sincera. Aí às vezes ela fala em casa “mãe, eu preciso te falar sobre direção”. Aí o Marcelo não tem paciência e fala “Luara, vai”. Depois eu pergunto pra ela. Porque eu sei que isso me ajuda. Até dos trejeitos dela mesmo eu sei que eu puxei muita coisa pra Pipoca. (pausa para a moto que passou) Agora cultura popular é isso mesmo, sabe? O Ednaldo contou pra gente uma história que eu acho que a gente podia até encerrar e eu contar essa história. Ele disse que a cultura popular é um polvo, que dentro de um restaurante fica dentro de um aquário. E de tanto a gente se esquecer de alimentar aquele polvo, ele começa a se comer. Ele vai se comendo, comendo, comendo, até desaparecer. Só que ele está lá. As pessoas passam por ele, não enxergam, mas ele está ali. Todo mundo passa, mas ninguém vê, assume e ninguém dá a real importância. Pra muita gente, o que a gente faz é arte menor. Teatro de rua já é uma arte menor. A cultura popular, pior ainda. Tem muita gente que fala “Vocês fazem teatrinho, né?” Diz que eu faço qualquer coisa, menos teatro.




Sabe, eu acho que isso é que é importante no fim das contas, quando esses festivais formam público. O grande problema que temos pelo interior é que tem muita gente montando MUITA coisa bacana MESMO, mas não tem ninguém pra assistir. E quando tem, é um público que não está preparado pra isso (leia-se parentes, amigos e desavisados).
Rio Preto dá inveja, de verdade, quando uma praça lota de pessoas pra assistir teatro. E se fora do festival isso também acontece, poxa…
A melhor frase do dia: “Vocês fazem teatrinho, né?”
Tipo assim, será que um arquiteto faz um projetinho, um médico uma operaçãozinha, um jornalista uma reportagenzinha, ou um crítico uma crítiquinha?
Ou melhor ainda: que lindo o palhacinho!!!!
Pra esses momentos são feitos os sorrisos amarelos!