O incrível menino do MP3
Já reclamei anteriormente nesta revista da precariedade do meu instrumento de trabalho – meu MP3 que serve como gravador. Na ocasião em que dei queixa dele, estava difícil entender o que declarava Régis “Dona Odete”, nosso primeiro entrevistado. Hoje, no entanto, não posso mais falar mal do pobrezinho: informo, oficialmente, que o meu MP3 faleceu na última segunda-feira, dia 10 de setembro de 2007, e comunico ainda que já solicitei sua canonização no Vaticano. (Afinal, depois de morto, até o ACM vira santo…)
Quanto à morte, tudo bem, já era esperada. O maior problema é que o Fernando ficou preso lá dentro. Explico: Fernando de Oliveira Santos, de 32 anos, trabalha há dois no espaço do grupo Ventoforte (atualmente em cartaz com A Casa do Gaspar ou Kaspar Hauser o Órfão da Europa) fazendo tudo e nada (nada definido, quero dizer), e, no domingo, dia 9 de setembro, havia concedido uma entrevista sobre suas atividades no espaço e sua relação com o teatro.
Foi assim que, pela primeira vez na minha vida, prendi um entrevistado num aparelho eletrônico. Uma tristeza. Mas, pra não deixar você, leitor, sem saber quem é ele e sem conhecer esta história interessante, peço a licença para usar minha limitada memória e transformar, em regime de exceção, uma entrevista em um perfil. Senhoras e senhores, com vocês: “Fernando: o incrível menino preso no MP3″.
*
Fernando não é bem um menino. Mas parece. Bermuda, chinelo, boné. Um jeito tranqüilo de andar, com molejo de moleque e um rosto fechado – não bravo, só fechado mesmo – de homem que sempre lutou bastante na vida. Calado, poucas e boas palavras, poucos sorrisos. Simples, em muitos sentidos, principalmente no jeito de falar, sem inventar complexidades, indo direto aos assuntos.
Antes do Ventoforte, Fernando nunca havia trabalhado com teatro. Foi trazido pelo Ilo Krugli, um cara que segundo ele, esse sim, “é fera!”. Desde então, ele é o que poderíamos chamar de “zelador” do teatro. “Tudo o que tem aqui dentro do espaço a gente faz: cenário, elétrica, hidráulica, limpeza…”. Pra complementar a jornada, enquanto conversávamos, ele também fazia as vezes de segurança do estacionamento improvisado. Na verdade, Fernando fica ali só pra que o público fique despreocupado, mas nem precisaria. “Aqui é tranqüilo, não é perigoso, não”.
O local tem três galpões para espetáculos, além de um coreto, outras saletas e muito jardim. Fernando cuida de tudo isso, realizando a manutenção diária e ajudando no que for preciso, quando for preciso. Veio dele, por exemplo, a solução provisória para o problema das goteiras em um dos galpões, que já chegou a cancelar uma apresentação de Gaspar: cobrir com uma lona. “A peça é muito bonita, mas isso quando não chove, né?”. Já que a verba do fomento que o Ventoforte recebe não é direcionada a obras no espaço, não dá pra fazer uma boa reforma, então, por enquanto, o jeito é improvisar. E dá-lhe criatividade fora de cena.
Este trabalho mudou a visão de Fernando sobre o teatro. “Antes eu não gostava, não, agora acho até bom”. Mesmo inexperiente no meio, ele tem uma bela idéia do que é o trabalho de grupo em teatro. Perguntado sobre o fomento e as incertezas de receber ou não apoio na próxima edição, disse que sabe desta possibilidade e que está sempre prevenido para o caso de não ter mais. “Todo mundo tem que estar preparado, mas sempre tem um ou outro que não se prepara e é pego de surpresa, aí a gente tem que estar pronto também pra ajudar. Essa é minha visão, é um conjunto, todo mundo se ajuda”.
Sabemos, porém, que trabalho é trabalho, e não poderia ser um mar de rosas, não é mesmo? O mais desagradável pra ele é que não tem como definir o horário da labuta, já que o trabalho compreende a manutenção durante o dia e, claro, uma mãozinha durante os espetáculos, que, em geral, acontecem à noite. “Você nunca tem um horário preciso, entendeu? Às vezes, você acha que tá tranqüilo e acaba não estando… alguém chama, enfim… isso acontece muito”. No entanto, o ofício tem lá suas vantagens e benefícios. Fernando não recebe Vale Alimentação, nem Vale Refeição. Em vez disso, é como se recebesse uma espécie de Vale Educação Artística e Diversão pros filhos, que além de assistirem as peças infantis do grupo – muito conhecidas sobretudo pelo histórico de Ilo Krugli -, participam das oficinas e ainda podem acompanhar os bastidores. O filho mais velho, por exemplo, levou essa história a sério e está aprendendo a tocar piano. Quem está te ensinando? “O maestro”, responde orgulhoso, referindo-se a um dos atores do grupo, que também é músico.
A música, aliás, virou cotidiano das crianças, já que qualquer encontro no Ventoforte, ainda que não seja ensaio, é motivo para o elenco reproduzir a trilha feita especialmente para o espetáculo (e que eu poderia colocar aqui uma gravação, se ela não estivesse presa junto com o Fernando). Não só as músicas, mas a peça como um todo é tão presente na família de Fernando que a filha do moço já reproduz algumas cenas sem nem notar. Em um dado momento da peça, em que está aprendendo a reconhecer sua própria identidade, Gaspar (Ilo) pergunta os nomes das pessoas da platéia e afirma que também se chama como elas. A pequenina aprendeu a imitar o órfão da Europa quase com perfeição: “Como é seu nome? Juliene, e o seu? Eu também Juliene.”
Sempre presente, envolvido nos assuntos do grupo, disposto e, claro, com algumas divergências, Fernando já é da família. É, por assim dizer, o primeiro caso que eu conheço de zelador de teatro. Que haja mais espaços teatrais dignos de zeladores como o Fernando! E que os MP3 sejam mais resistentes! Amém!


Fiquei emocionadíssimo lendo essa resenha. Trabalho no Ventoforte e Fernando é o cara!As3 crianças são um pouco nossas tb. São meio do elenco!Luã, o mais velho já toca algumas musicas simples ao piano, Raisa , que mal sabe falar, canta as músicas da Casa do Gaspar! Trabalho no Ventoforte há 4 anos e, desde que cheguei, as crianças da comunidade sempre fizeram parte da vida do grupo.Eram mais de 20 assistindo ao Bodas de Sangue TODAS AS NOITES!Infelizmente, nesta ultima Segunda Feira, foram todas obrigadas a deixar o Parque do Povo e suas casa foram derrubadas.
Estamos de luto!O Vento continua , mas um pouco mais triste!
Corrigindo, lendo essa entrevista!
Se vc ficou emocionado com essa pseudo-entrevista, imagine eu com seu comentário! Puts… mto foda essa história da comunidade… Se quiser escrever um texto mais detalhado sobre isso, manda pra gente publicar! Acho uma questão importantíssima. Quanto ao Fernando, confesso que ele me deu medo no começo (rssss não medo no sentido convencional, medo de entrevistadora, sabe? Achei que ele nem ia querer falar comigo, enfim). E ele é ótimo, sem dúvida. Quanto à Raisa, dá vontade de morder ela! rsss
Mando os pêsames da Bacante ao luto de vcs e, já que vcs têm o privilegio de continuarem tendo a casinha de vcs: bom trabalho!!!!
Beijos e obrigada por passar por aqui!
Juli =)