A palavra foi objeto de disputa na noite de segunda-feira (29/07), no Espaço Parlapatões, durante a última leitura do Ciclo de Dramaturgia Avesso da Comédia, Comédia do Avesso, que, ao longo de sua realização (quinzenalmente, às segundas-feiras), contou com a participação dos dramaturgos Flávio de Souza, Jandira Martini, Naum Alves de Souza, o próprio Hugo Possolo, Mário Viana, Aimar Labaki e Mário Bortolotto.
Privilegiado do dia, Juca de Oliveira ganhou o direito de usar a palavra por um tempão, porque tinha que ler sua peça O Presidente, um apanhado clichê, mas super atual da realidade do governo brasileiro no que tange ao caos aéreo. Com direito a repetições quase infinitas do tal “top-top”.
Até então, algumas risadas e um ambiente tranqüilo. A palavra era toda dele. O problema começou quando o Possolo abriu o direito a manifestações. Aí fudeu. Explico: estavam lá o Jô, o Aimar Labaki, um biólogo e outros artistas, além de vários pseudo-intelectuais treinados para dizer: “Isso mesmo!” “É!” “Também acho!”.
Na briga por expor opiniões, trajetórias, repertórios, vocabulários desenvolvidíssimos, claro, venceu o Jô. Não é à toa que ele apresenta programa na Globo. O gordinho, que para minha decepção é menos gordo pessoalmente, falou, falou, falou, falou e falou. Conseguiu até falar sobre o Getúlio Vargas! Ele adora falar sobre o GV, porque deve ter estudado o assunto quando escreveu seu aclamado romance O Homem que Matou Getúlio Vargas.
Ok. E as idéias? É, em tese, o debate deveria girar em torno de algumas inquietantes questões colocadas desde o início do projeto, tais como: riso transforma? A comédia é um gênero menor que a tragédia? O humor está a serviço da indústria do entretenimento? Humor faz pensar? O riso é importante? É importante se levar a sério?
Teve de tudo. Além de falar em Getúlio Vargas, Jô afirmou que a divulgação de peças experimentais leva o público para assitir peças para as quais ele não está necessariamente pronto. Hã? E ele não parou por aí: prometeu que vai correr os 100 metros rasos nas próximas Olimpíadas. Isso pra dizer que é ingênuo votar no Lula por ele ser despreparado para o cargo de Presidente da República. “Vocês podem até torcer para que eu ganhe os 100 metros rasos, mas vocês sabem que eu não estou preparado”.
Política, aliás, foi assunto polêmico. Jandira chegou a afirmar que de todos (isso, mesmo, todos!) os espetáculos que estão em cartaz, somente a peça dela e a do Juca, têm coragem de falar em política. “Parece que há um pacto de não falar mal do PT”. Não falar mal do PT é uma coisa, não falar de política é outra. De todo modo, o Marcelo Rubens Paiva até tentou falar da decepção das novas gerações com a política, mas não deixaram e ele logo desistiu. A palavra estava mesmo muito disputada.
Depois, veio a questão do patrocínio e o Juca disse, sabiamente, que o patrocínio está acabando com o teatro. “O patrocínio está acabando com o próprio patrocínio”, emendou Aimar Labaki. Conclusão: o que chamamos de patrocínio é distribuição do dinheiro público por razões/critérios privados. No entanto, as peças de ambos são realizadas com o tal patrocínio, opa, com a tal distribuição de dinheiro público…
Falou-se, ainda, de autocensura. Resquício da ditadura? Questão financeira? Medo? Sinceramente, até agora não entendi qual é a razão da autocensura do Juca. Ele não se explicou muito bem. E, ainda que a dele seja resquício da ditadura, e a das novas gerações, é resquício de que? Neste ponto, o Jô (de novo!) disse que não vê autocensura, que as pessoas falam tudo o que pensam.
Com tal deixa, eis que surge lá do canto, a questão mais relevante abordada e ela vem do sotaque caipira do parlapatão (existe isso?) Raul, que filmava o debate. Raul questionou os presentes sobre a relevância do que fazem, sobre o quanto a arte e, sobretudo, o humor na arte podem mudar realmente alguma coisa. Citou, inclusive, o Angeli, que teria comentado a situação de fazer uma crítica foda e ver o próprio criticado rindo e colando a charge na parede, para usar como “portifólio”. Então, se as charges do Angeli vão pro portifólio, o que é feito das comédias de classe do Juca? Mais do que isso, os artistas querem/podem modificar algo por meio do riso?
Ninguém respondeu nenhuma das duas questões com profundidade. Nem discutiu, na verdade. O Juca até chegou a dizer que, para ele, a comédia é “mobilizadora” e que no dia seguinte o cara vai pensar: “puxa, eu ri daquilo tudo mas é uma merda!” (como assim? O país ou a peça do Juca?) Aimar acompanhou e disse ter certeza de que a comédia faz diferença, mas não foi além.
Mas o pior ainda estava por vir. O Juca voltou, sei lá eu por que, à época em que fazia o cientista que criava o clone do Murilo Benício, na novela de nome super criativo O Clone. Só por ter clonado o Murilo Benício, o Juca já me dava medo, mas senti ainda mais medo quando ele começou a contar suas descobertas sobre genética e citou uma pesquisa que afirma que os criminosos que praticam crimes hediondos têm uma característica genética idêntica entre eles e diferente dos demais seres humanos. Assim, segundo ele, “essas pessoas não tem jeito, ou mata, elimina ou faz uma intervenção genética”. Ai, Jesus! Ainda bem que tinha um biólogo lá pra, discretamente, chamar o Juca Cientista Maluco de Oliveira de determinista neo-nazista.
Com todas estas preciosas informações, você, leitor deste blog, me pergunta: mas e a função do riso na arte? E a função da arte na sociedade? E eu te respondo: pois é! Não é que eu também saí me perguntando isso?
será q até os parlapatões foram vendidos???
O Posolo vai dirigir novela das 7?
O Raul vai participar da casa dos artistas?
Vão lançar um filme pela Globo filme com direção do Daniel filho?
Comment by Anonymous — August 2, 2007 @ 2:54 pm
rsssssssssss Vai se chamar “As Confusões dos Parlapaões”! Feito exclusivamente para a Sessão da Tarde! Afff… que medo, não?
Mas acho que não é pra tanto… o Hugo, pelo menos, estava com uma cara “pouco feliz” durante essa discussão toda. Bom sinal, né?
Comment by Juli =) — August 2, 2007 @ 5:42 pm
´seria cômico se não fosse trágico´ :p muito bom texto o seu juli. beijo.
Comment by Maria Clara — August 3, 2007 @ 11:02 am
Sim. Acabou sendo muito cômico, mas acho que só pra mim. A galera estava muito séria! rsssss
Muito obrigada pelo elogio, Maria Clara! (Aliás, já que vc já é íntima da Bacante, não tem um nome mais curto pra te chamar?)
Beijos,
Juli =)
Comment by Juli =) — August 3, 2007 @ 11:13 am
pode escolher, juli.
Comment by Maria Clara — August 3, 2007 @ 11:48 am
também queria dizer que acho legal e importante essa análise que vocês da ´bacante´ fazem sobre a cena teatral paulistana (brasileira!?). esse olhar. essa paixão pelo Teatro. e esse capricho e generosidade em compartilhar com mais pessoas que também sentem a paixão. e não podem estar presentes aí. como eu. (parece que estou puxando saco, mas não tô não, tá!?). que bom que vocês estão aqui. obrigada.
Comment by Maria Clara — August 3, 2007 @ 12:06 pm
De nada. Acho legal você relacionar nossa “análise” com paixão. Porque é isso. É vontade, não é intelectualóidismo, sabe? E muita gente deve pensar isso, que queremos ser “intelectuais prodígios”!
Mas sussa, o importante é falar do que a gente gosta. E aí, lê quem gosta. Fique sempre por aqui, ok?
Beijos.
PS: Onde vc está que não pode estar aqui?
Comment by Juli =) — August 3, 2007 @ 12:16 pm
costumo chamar de ´dogville´. mas o nome oficial é assis-sp. agora estou procurando um grupo de teatro em londrina-pr, para participar. já que em assis não tem grupo de teatro e eu já fiz um monólogo. embora eu adore o teatro essencial da denise, quero ter a experiência de grupo. que já tive durante alguns anos com dança-teatro. conhece alguém em londrina pra me indicar? beijo e abraço.
Comment by Maria Clara — August 3, 2007 @ 12:33 pm
O que me incomoda,e sempre incomodou, são duas coisas:
Uma é o fato das pessoas não terem noção do que fazem.
O Juca de Oliveira é, historicamente, um babaca. Quando ele trabalhou com o Antunes Filho, o próprio Antunes nem ligava para ele. E ele era o ator principal e tudo… (faz MUITO tempo). Pô, se nem o Antunes que na época ainda tinha uma certa paciência aguentava o cara (e o cara estava pagando!) ligava para ele… Porque eu vou ligar?
Outra coisa é o fato das pessoas saberem que o que fazem é ruim e não ligar!
Como as pessoas que trabalham com o Juca (Pô, o nome do cara é Juca!! - “Seu Juca” não dá, né?).
Comment by Ronaldo Ventura — August 3, 2007 @ 1:01 pm
Sem preconceitos com o nome, até porque deve haver algum Seu Juca muito gente boa, também acho (e achei nesta circunstância especialmente) esse Juca um babaca. No entanto, o que mais me incomoda são as boas intenções. Ele faz cara de sério e tudo! Acho que ele acredita mesmo no que fala e faz. Isso é que é realmente triste.
Comment by Juli =) — August 3, 2007 @ 1:29 pm
Uma das coisas q mais me chamou a atenção foi a visão muito primária de achar que a relação entre arte e política se dá através de um discurso partidário. O prórpio fazer artístico é um ato político na medida em que se organiza para cavar um lugar no mundo. A necessidade mesma de se comunicar com o outro através de metáforas, alegorias, gestos apenas, ou o que for, tem um teor essencialmente político. Na medida em que a arte reconfigura espaços, embaça valores, muda algum mundo, distorce convenções, etc., ela é seriamente política, pq intervém muito mais no mundo real do que falar mal de qualquer partido. O ato político é muito mais um gesto do que um discurso. Forma, mais que conteúdo.
E uma mobilização pra falar de um assunto tão importante(afinal a formação do teatro brasileiro é muito firmada na comédia e esse riso com certeza nos forma, né Beti Rabetti?)descambou pra esses assuntos velhos, abordados de forma tão caquética? Que pena…
Esse pessoal nunca ouviu falar na Hannah Arendt? No Rancière? Falar de política sem parar pra pensar o que é política…
Enfim… valeu Juli!
Bjs
Daniele
Comment by Daniele Avila — August 6, 2007 @ 10:04 pm
Adoro a Bacante… Juli, arrasou. Agora, comédia faz pensar? Porque o Juca ser um babaca e defender as pecinhas dele, bom, todo mundo sabe…
Comment by Valmir Junior — August 6, 2007 @ 11:41 pm
Na minha modesta opinião (quem sou eu pra brigar com o Jô, né?! E olha que eu tentei): sim, Valmir, comédia PODE fazer pensar. Como outros gêneros podem. Depende do que se faz.
O problema mesmo, o grande problema que me afetou, mora extamente onde a Daniele se focou: discussão partidária da política! E aí até o Rubens Paiva entrou na onda dos velhões e ignorou a questão da micropolítica que tantas vezes é mais relevante que esse fuá de macropolítica.
Ai de nós se política na arte fosse só escrever peças zuando o PT e o Lulalá!
Comment by Juli =) — August 7, 2007 @ 12:56 am
também acho q comédia faz pensar. mas existem comédias e comédias. é um pouco como a diferença entre pornografia e erotismo. pornografia pode até broxar. assim como tem comédia pobre de espírito, tem comédia q cutuca o cérebro. um dos nossos dramaturgos mais engajados politicamente foi um dos maiores autores de teatro ligeiro (e musicado): arthur azevedo. ele escrevia revistas, comédias, operetas e a crítica caía de pau em cima dele por causa disso. mas ele fazia isso com muita seriedade, tinha um grande zelo pelo teatro nacional (falava-se nestes termos na época dele). mas tem também uma idéia rala de comédia, q quer fazer a platéia rir igual porco, rir só fisicamente ou fisiologicamente. o riso que move é aquele que a gente ri e entra em sintonia com quem a gente é, um riso que nos desloca e mexe com o nosso mundo. ah, sei lá
Comment by Daniele Avila — August 7, 2007 @ 11:54 pm