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Archive for September, 2007

Esse monte de mulher palhaça

Seria uma grande mancada com a Palhaçaria feminina e com o Emiliano, assíduo leitor uberlandense da Bacante, se por mais um dia eu não comentasse do que está rolando aqui no Rio de Janeiro. Até domingo, dia 30, é possível conferir no Espaço SESC em Copacabana o II Festival Internacional de Comicidade Feminina, também conhecido por “Esse monte de Mulher Palhaça”.

O nome já diz a que veio, mas não tudo. Apresentações diárias no SESC e algumas na rua, além de palestras e debates constam na programação do festival. Eu, como cheguei no meio, só consegui conferir o Cabaré de Quinta, conduzido pela mestra de crimônia Daniela Piveta.

Merecem destaque nas apresentações desse dia a dupla carioca Dani Barros e Flávia Reis, com o número Duo-Deno em Hay que Pegar la Veia sem perder la Ternura Hamás!, que fizeram um clown sem nariz vermelho, mas de ótimo timing de humor.

Flerte e Dance, da mineira Adriana Morales (aí ao lado), também arrancou gargalhadas com sua imitação de Jennifer Beals, no filme Flash Dance de 1983. Aliás, que preparação corporal foi aquela? Digna de Daiane dos Santos.

Vale lembrar também o trabalho Enne Marx (ao lado, abaixo), do Recife. Ela aparecia entre as cenas, sempre vestida de rainha e falando um texto nonsense hilário. Funcionou como conexão entre as cenas que não se explicava, por isso cheia de sentidos possíveis. O seu espetáculo se chama Pílulas de Teresinha - A dona do Brasil.

No domingo pretendo assistir mais uma apresentação, dessa vez na rua, da peça Sola de Palhaça Vita Intensa. Se gargalhar só a metade do que gargalhei nessa quinta-feira, já estará mais que ótimo. Valeu pela dica, Emiliano.

cenacriticacontemporanea: dia 4

O quarto e último dia de encontros do cenacriticacontemporanea foi com a Cecília Cotrim, cuja foto vou ficar devendo. Uma pena. É sempre uma diversão procurar fotos de quem conduz os encontros.

A Cecília acendeu alguns fósforos, talvez até algumas velas, propôs propor, como ela disse, citando Hélio Oiticica. Veio mais como uma complicadora do que facilitadora de caminhos.

Fez uma apresentação sobre algumas vanguardas da arte do século XX (sem fechar em teatro ou dança). Falou de gente que pra mim é sempre referência libertadora, como Allan Kaprow, John Cage, Marcel Duchamp, Yves Klein, o próprio Hélio Oiticica e mais um monte de maluco. Partiu de textos do livro Escritos de Artistas, que ela própria organizou, os quais eram falas de alguns desses artistas sobre seus próprios trabalhos ou a arte em geral.

Tínhamos desde o princípio a perspectiva de pensar uma crítica que fosse uma escrita poética. Talvez, se der pra pensar grande, uma outra obra de arte feita por alguém que transitou ou dialogou com a obra a ser criticada. A fala da Cecília apontou pra isso e pediu urgência nesse fazer poético.

Não houve uma fala final que direcionasse nada. Como diria capitão planeta, “o poder é de vocês”. A coisa foi tough, mas, parafraseando Fernando Vives, como sou durão, aguentei firme e fui pro bar discutir os temas tratados. Ali sim a coisa fluiu e saiu a idéia de colocar no ar o blog do cenacriticacontemporanea, que talvez seja utilizado como ferramenta. Vai saber, né? Se for, eu aviso aqui.

Ps: Preocupo-me com meu intelecto e muito mais com meu fígado. Continuo bebendo muito mais que leio.

cenacriticacontemporanea: dia 3

O rapaz aqui ao lado é o Roberto Pereira e foi o escolhido pra ministrar a oficina da cenacriticacontemporanea no terceiro dia. O foco agora foi a dança.

Bem pra lá de falar somente de uma arte sobre a qual não tenho o menor domínio, o Roberto (tratarei por Betão daqui pra frente) sugeriu um exercício crítico a partir do tema do festival (Inventário). Conectou a idéia de curadoria com a de crítica, mostrando-as como pontas de um processo do festival. Ou seja, qual é o critério de seleção e alocação dos espetáculos e como podemos avaliar se esse critério foi efetivamente utilizado ao longo do festival.

O Betão falou também de quando começou a história da dança no Brasil. Segundo sua própria tese, partindo do modelo de Antônio Cândido na literatura, a dança só passa a existir com a criação de um sistema e uma tradição nacionais. Isso aconteceu no início do século XX, com o Ballet que chega da europa e vai ser devorado aqui na terra brasilis.

Outro ponto legal que ainda não havia sido abordado é a origem da palavra crítica, que, diz o Betão, vem de krinein. Essa palavra grega quer dizer ao mesmo tempo quebrar e colocar em crise. Olha que coisa louca. Não é à toa que todo mundo desce o pau na gente. Alguém deve sair daqui em crise. Resta saber que tipo de crise é essa.

Sem dúvida, a grande descoberta do dia foi o site idança, um projeto que dialoga muito com o nosso aqui, mas voltado para o mundo da dança e com muuuuito mais conteúdo. Menos sujinhos também, pois contam com patrocínio da Petrobras. Vale a entrada pra conhecer.

Depois da oficina, fui provar a Devassa, na terra natal dela. Pra não desrespeitar. Amanhã é o último dia da oficina e hoje mais bebi que li. Por aí já dá pra sacar o nível da crítica que vai vir. E ninguém venha me dizer que eu não avisei no primeiro post.

Ps: Fui assistir, por sugestão do Emiliano, o II Festival Internacional de Comicidade Feminina hoje, mas estou caindo de sono. Então amanhã comento.

cenacriticacontemporanea: dia 2

O segundo dia de encontros do cenacriticacontemporanea foi com a Tânia Brandão, essa com jeitão de Stevie Wonder na foto ao lado. A foto é do site da Unirio e o link é pra enciclopédia 1.0 de teatro do Itaucultural.

Essa moça tem uma longa história pelos veículos cariocas e partiu da perspectiva da crítica de jornal pra dar um apanhado histórico da crítica brasileira. Resumão mesmo, mas comentado com autoridade de quem viu de dentro.

Uma cois que não vou esquecer é que ela disse que o Sábato Magaldi disse:
“70% da produção do crítico está errada”. Concluí na seqüência que a Bacante tem 30% de margem de erro nessa porcentagem.

Disse ela também que a crítica é essencialmente ocidental, e surge a partir do rompimento ontológico da arte (perda de vínculo com Deus). Ela, a crítica, vem como uma tradução/interpretação/decodificação feita por alguém que é o “mestre dos mestres” (frase do Diderot). Claro que essa definição não serve pra nós, mas tudo bem né gente, é só o começo da história da crítica.

No Brasil, a Tânia disse que a coisa toda começa quase como uma coluna social e um manual de como se portar, ligado ao primeiro teatro e o folhetim. Não tinha mesmo como dar certo. Cita Justiniano José da Rocha como o primeiro crítico.

Passa pela crítica crônica e a polêmica de Artur de Azevedo, depois cita o primeiro crítico moderno, Antônio de Alcântara Machado (já sacou que ritmo foi de aula de body jump né?).

Por fim, ela perdeu mais tempo explicando o surgimento da ABCT (associação brasileira de críticos teatrais) em 1937, para “pleitear leis e sugerir medidas para o progresso do teatro brasileiro” e termina com a crítica moderna e o CICT (Círculo Independente de Crítica Teatral) onde vão aparecer alguns nomes que são a principal referência da crítica brasileira até hoje. São eles:

Décio de Almeida Prado
(o garotão aí ao lado)
Sábato Magaldi
Henrique Oscar
Bábara Heliodora
Carlos Magno
Luiza Barreto Leite
Paulo Francis
Yan Michalski
Claude Vincent Paschoal

Foi legal, como um todo, ver uma certa arqueologia da crítica brasileira. Espero com ansiedade que tratemos de formato em algum momento, já que o resultado das oficinas serão críticas feitas pelos oficineiros, as quais serão veiculadas no site do riocenacontemporânea. Cada coisa a seu tempo. Agora de noite vou ver uma peça que não tem nada a ver com o festival. Espero ver o mar também e tomar cerveja, que teoria demais dá sede.

cenacriticacontemporanea: dia 1

Desde a minha chegada no Rio, só fez frio. É óbvio que eu não ia encontrar sol. O frio é a minha melhor sina. Também nem queria calor, afinal nunca fui de praia.

O fato é que na manhã de ontem já rolou o primeiro encontro do cenacríticacontemporânea (pelo que vi até aqui, o pessoal do riocenacontemporânea não curte muito dar espaço entre as palavras. O que tem lá seu charme. Fiquei com vontade de escrever uma resenha inteira sem espaços, só pra fuder a programação do blog). Segundo as palavras da Thereza Rocha (espero que seja com TH), uma das condutoras da parada, formou-se um grupo muito “heterogêneo” de 15 pessoas que vão criticar os espetáculos por aqui e pensar no papel de uma nova crítica, a qual parte de novos paradigmas pra analisar o teatro contemporâneo.

O tema geral do festival será Inventário e todas as implicações que essa palavra traz. Ontem mesmo queria comentar que a iniciativa é ao mesmo tempo muito corajosa e irresponsável. Veja você, sujinho leitor, que até eu vim parar aqui. Ou seja, relembremos Erasmo Carlos, que já esteve num editorial.

“Filosofia, poesia, é o que dizia minha vó, antes mal acompanhada do que só.
Você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu”

O resumo do dia 1 poderia parar por aqui, não fosse necessário dizer que a Net me impediu de postar. Divido a conexão com a Daniele Avila, nossa distinta colaboradora carioca, que carinhosamente vai receber três companheiros de Bacante. Por isso, nada mais natural que role um router pra distribuir o sinalda internet, isso, claro, em países cujo serviço de banda larga seja minimamente bem feito. Não é o caso do Brasil, muito menos da Net, que, ressalva seja feita, é muito melhor que a Telefônica, mas que ainda está muuuuito distante de fornecer um serviço completo. Prefiro nem falar dos atendentes de telemarketing que tentaram me ajudar. Aproveito pra postar sobre o dia 2.

Até tu, SESC?

Às vezes até o SESC cai no nosso conceito. Tudo bem, num dá pra ser perfeito sempre…

MAMMY VAI À LUA
Comédia onde uma mãe de família, igual a todas as “mammys” do mundo, resolve participar de um sorteio que tem como prêmio uma passagem para a lua tratando-se assim da primeira dona-de-casa a tocar o solo lunar. Com uma cozinha bastante equipada e moderna como cenário, a personagem percorre, sempre com muito humor, oito diferentes situações corriqueiras da vida de uma mulher alucinada. Texto de Mira Haar. Direção: Elias Andreato. Com Mira Haar. Teatro. R$ 10,00; R$ 5,00 (usuário matriculado e dependentes). R$ 2,50 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). R$ 5,00 (+60 anos e estudantes c/ carteirinha).
De 26/10 a 23/11. Sextas, às 15h e 21h.
SESC Santana

Nâo sacou o porquê da decepção? É porque você ainda não leu o que achamos dessa peça.

Obscenidades d’além-mar


Obscena é o nome de uma revista virtual portuguesa de artes cênicas que acabei de descobrir no site do riocenacontemporânea (que aliás, está com uma coleção de links bem caprichada).

A revista é bastante bonita e está na quinta edição (a sexta deve sair na semana que vem). Os textos são caretas mas parecem estar livres de uma opressão editorial rígida, e traz um panorama interessante para a cena européia.

Só tem uma coisa que eu não consigo entender, e que vejo muito por aí. O camarada inventa de fazer uma revista virtual, para ser acessada via internet… e a fecha em formato PDF? Afinal é virtual só porque não tem grana pra imprimir e distribuir? Chega ao cúmulo de ter diagramação com página dupla! Ei, isso aqui num é pra ler no computador não, ora pois? Isso sem contar a interatividade que o PDF simplesmente mutila…

Mas ainda assim, recomendo muito, muito mesmo. Bom saber que tem mais gente se dedicando a escrever sobre teatro lá fora. Dá vontade de conhecer mais e mais iniciativas como essa. Interessou? Clica aqui.

Aproveitando, recomendo também os West End Whingers, de Londres. Esses sim, graças ao formato de blog, bem mais interativos e conectados com a linguagem web. E bem mais cáusticos também.

Digno de Nota

Venho aqui pessoalmente agradecer ao pessoal do Óis Nóis Aqui Traveiz por nos terem dado a oportunidade de colocar a palavra “peludos” no resenha da Julie, pra Kassandra in Process.
Por conta dessa palavra, tivemos três visitas procurando “ensaio de filmes gay homens peludos”.
Tem coisas que só o Google faz pra você.

Momento Mônica Bergamo

Sabe a Patrícia Aguille, aquela atriz que passou pelo Satyros e pelo Oficina, e que andou cavalgando pelada por aí em seu cavalo branco, maculando a inocência da frágil população das imediações da praça Roosevelt? Pois bem, ela tá partindo com sua companhia Chevaux-Legers pros EUA, pra fazer uma residência de inverno no Watermill Center, com o Bob Wilson.

O projeto é a peça Juliette de Sade, que inicialmente havia sido concebida para fechar a trilogia do Marquês de Sade, dos Satyros, iniciada por A Filosofia na Alcova (em que Patrícia atuou) e Os 120 Dias de Sodoma. Assisti a uma primeira leitura do texto ano passado, no Centro Cultural São Paulo e quero só ver como é que essa libertina (a Juliette, não a Patrícia) vai voltar pro Brasil… Bem que podia ser em forma de teatro de rua e encenado na praça Roosevelt, né? Tenho certeza de que os vizinhos iriam adorar…

Porto Alegre: meu post derradeiro

Esse texto eu escrevi no aeroporto, enquanto esperava meu vôo (que atrasou). Posto agora.

Neste post, nada de teatro: quero compartilhar com todos minhas impressões sobre a cidade. Quem me conhece sabe que o que mais me atrai nos lugares são as coisas improváveis, e sim, a capital gaúcha é muito legal.

Onde mais vocês acham que, em uma caminhada pela “orla” eu chegaria a um parque onde há um acampamento, em que os gaúchos, apegados às suas tradições, montam piquetes, se vestem a caráter e ficam lá, dia e noite, assando churrasco e tomando chimarrão? Juro por deus que não tem nenhum exagero aqui! É como se em São Paulo, nós nos vestíssemos de bandeirantes, construíssemos barcaças e as levássemos ao Tietê! Além disso, é possível vermos a bandeira do Rio Grande do Sul por todos os lados, em vários momentos tive a impressão de estar em outro país. E nem precisa dizer que as pessoas andam pelas ruas com suas garrafas térmicas e chimarrões…

E o sotaque? Ontem eu conversava com o Sidney, rapaz gente-fina do SESC que conhecemos por lá (valeu pelas caronas!), e ele fez um comentário que me deixou aliviado. Ele disse “fazem poucos dias que estou aqui e já estou falando cantado”. Isso realmente era irritante, e fiquei feliz de saber que eu não era o único. Ainda bem que estou voltando pra São Paulo pra recuperar meu sotaque de paulista (que os paulistas insistem em dizer que não têm). Aliás, na saída do hotel, havia um gaúcho fanho. Era simplesmente impossível entender o que ele dizia.

Ainda tenho uma retratação a fazer, o taxi em Porto Alegre é barato sim. Escrevi o contrário porque na primeira noite, entre aeroporto, hotel e teatro na puta que pariu, gastei 90 reais. Deu medo de ser assim o tempo todo, mas felizmente não foi. E por falar nos táxis, achei engraçado que os carros trazem a foto do motorista, mas vários dos que eu peguei não eram dirigidos pelo moço da fotografia…

E uma informação de relevância pública: todos me disseram que a cidade era muito perigosa. Não achei nada de absurdo, a não ser no primeiro dia, em que eu caminhava pelas ruas e encontrei várias crianças armadas até os dentes.


Talvez essse perigo da terra só não fosse maior do que o que vem do céu. No último dia, caminhando pela rua Riachuelo - onde eu estava hospedado - quase fui atingido por um objeto que caiu de um dos edifícios. Fui ver, era um teclado de computador, e despencou a uns cinco metros de mim. Será que era alguém que lia a Bacante no exato momento em que eu passava, me reconheceu e decidiu se vingar?

Mas não apenas de perigos são feitas as ruas de Porto Alegre. Há vários prédios históricos preservados, os museus são todos gratuitos e parece haver uma preocupação de se preservar os edifícios (enquanto em São Paulo a cidade é devorada pela própria cidade). Além dos ipês cor-de-rosa floridos que víamos pela cidade toda, também é impossível não comentar que nas ruas há pessoas vestidas com muito garbo e elegância. Sandrinha Souto iria adorar tudo isso aqui.


E tem ainda algumas coisas estranhas que vi por aí. Vejam com seus próprios olhos.

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