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Sem graça

A gente não gosta de perder a graça. Até os mais chatos que passaram por aqui não nos fizeram perder a graça. Tinha que ser o Paulo Autran pra conseguir essa façanha.

Vai a graça e fica a lembrança do escritor carrancudo que era encenado com Cecil Tirré em Variações Enigmáticas, um dos textos mais inteligentes que vi no palco, com um dos atores de melhor timing e preparação que pude assistir. Era uma semi-final de Santos e São Paulo que não pude ouvir com meu pai até o final por conta da peça. Esquecemos até pra quem torcíamos naquela noite.

Depois foi a vez de Cássio Scapin fazer par com ele. Paulo Autran se questionava através dos palcos, interpretando um judeu de 92 anos em Visitando Sr. Green. Tomava a platéia com um subir de degraus. Nunca vou esquecer aquele degrau.

Depois ainda o vi com Cláudio Fontana num teatro na Augusta. E nesse intervalo encontrei-o na Paulista, com sua mulher, atravessando a rua na frente da faculdade que cursei. Ia puxar assunto, fiquei sem palavras. O que dizer? “Cara, como foi filmar com Glauber Rocha?”, “me conta mais da era de ouro do TBC”, “como é que é essa história de que a TV é a arte do anunciante?”. Era muito pra ser respondido atravessando a Paulista.

Ainda em O Avarento, pude assistir duas vezes quanto o cara tinha pra ensinar com humor. Ficava mais uma pergunta. “Comé que é trabalhar com um diretor que nasceu mais de quarenta anos depois de você?”. Neste momento ficam muitas perguntas.

Hoje ficamos sem graça de ter brincado com a sua figura nos nossos slogans. De termos feito uma comunidade pedindo um cigarrinho pra ele. A maldição do humor é que de vez em quando ele é certeiro. Fechamos então a comunidade. Ficamos só com a lembrança, e pelo menos com ela, de alguém que tomava cerveja ali do lado, na Praça Roosevelt e que perguntou “Será que dá pra fumar na ambulância?”. Isso é ser artista. É não se levar a sério demais. Isso é Paulo Autran, a quem aplaudiremos de pé agora e sempre.

(foto de Priscila Prade)

2 Comments »

  1. Acabei de saber. Passei no blog do Ivan (O Paulo foi padrinho dele) e vim aqui… QUe horas foi? Eu vim aqui perguntar o que acham de fazer uma “edição” em homenagem. Eu só assisti o Sr. Green… e NUNCA vou esquecer aquele degrau.

    Comment by Ronaldo Ventura — October 13, 2007 @ 4:10 am

  2. Oi Ronaldo

    Que idéia legal, mas acho que não temos possibilidade. Das 90 montagens, acompanhamos somente as últimas. E mesmo que pudéssemos, acho que a coisa vai pra além disso. Vira referência, saca?
    Pra nós nunca vai deixar de ser muito bom lembrar do “teatro nos tempos de Paulo Autran”, “o avarento de Paulo Autran” e a “cuspida no Paulo Francis, do Paulo Autran”. Mas não deixa de ser uma idéia legal.

    Comment by Fabrício Muriana — October 13, 2007 @ 1:17 pm

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