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Sobre o Oficina e o Soleil

Assistir o ensaio aberto de Les Éphémères do Théâtre du Soleil e a apresentação carioca de Os Sertões do Teatro Oficina em dois dias consecutivos foi uma coincidência feliz. Não queria falar muito da peça da Ariane Mnouchkine antes de publicar a crítica, só depois de terminar de ver o espetáculo na íntegra, mas tem algumas coisas que queria comentar já.

O Soleil veio da França com seus contêineres que continham não apenas um espetáculo, mas também um teatro que comportasse este espetáculo. Desde as arquibancadas super bem-planejadas, que lembram um pouco o formato dos tribunais que vemos nos filmes e que trazem milhares de lampadinhas que acendem e apagam durante a peça revelando o rosto dos espectadores, até os utensílios de cozinha em que são servidos quitutes à platéia, tudo vem de fora. É de impressionar a estrutura que transformou um grande terreno plano no SESC Belenzinho em um teatro completo, em tão pouco tempo.

Aqui no Rio de Janeiro, dentro do galpão do Centro da Ação e Cidadania, foi montado o Teatro Oficina tal como ele é em São Paulo, na rua Jaceguai. A estrutura geral do espetáculo é a mesma, com o grande corredor central e sua galeria subterrânea, mais os palcos sobre as duas extremidades do espaço. Na verdade, tudo foi montado na medida para o espetáculo, e em alguns pontos - mais especificamente visibilidade e capacidade - o Oficina carioca conseguiu ficar até melhor que o paulistano.

Dois teatros com platéia acondicionada dos dois lados de um corredor, frente a frente com a própria platéia. Duas produções caríssimas em “terras estrangeiras”, com toneladas de equipamentos na bagagem, ambas encabeçadas por diretores consagrados, mas com linguagens totalmente diferentes. Dois grupos fundados na mesma época (o Oficina é de 1958, e o Soleil, de 1964) por (então jovens) artistas que queriam propor uma nova forma de se fazer teatro. E hoje, ambos colhem os frutos das lutas do passado. Impressionante como dois teatros podem dialogar tanto e, ao mesmo tempo, serem tão diferentes.

Os Efêmeros têm uma estética radicalmente naturalista e uma produção minuciosa ao extremo. Ariane não parece querer romper barreiras - talvez estas barreiras ela já tenha rompido no passado, na fundação do Soleil - mas Les Éphémères se utiliza de uma linguagem mais que consagrada e nada inovadora. Sua preocupação parece estar muito mais em emocionar do que brincar com linguagens novas e dialogar com a doideira do mundo pós-moderno em que até mesmo o Soleil está inserido, apesar do espetáculo não demonstrar isso. A peça, que tem um elenco fabuloso, parece uma mistura dos roteiros de cinema argentinos, mas com a estética do cinema francês. Dá pra levar a família pra assistir, e todo mundo vai sair tocado, de alguma maneira.

Os Sertões tem como maior trunfo a porra-louquice de Zé Celso, que transforma tudo em, como ele mesmo define, tragicomediorgya. Em vez das pequenas histórias carregadas de delicadeza e sutilezas, aqui há samba, macumbinhas e uma porção de gente pelada em uma aventura visceral pela história da guerra de Canudos. Interpretado por um elenco cheio de altos e baixos,é orquestrado por um diretor que parece querer, a todo momento, romper barreiras. Não leve a vovó pra assistir, Bárbara Heliodora não recomenda: as chances de todo mundo sair tocado - fisicamente falando - são bem grandes.

Para ilustrar o que estou dizendo, as duas imagens acima são de janelas. A primeira, cheia de firulas, plantinhas e detalhes, é de Ariane Mnouchkine. A segunda, interpretada por Camila Mota, é de Zé Celso. Igualzinho, né?

1 Comment »

  1. [...] finalizar, gostaria de fazer uma retratação. No post do blog em que fiz alguns paralelos entre o Soleil e o Oficina (e que complementa este texto), comentei que o Soleil não radicalizava em nada, o que não é [...]

    Pingback by Revista Bacante » Les Éphémères — April 4, 2008 @ 1:20 pm

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