Archive for March, 2008
March 27, 2008 at 8:08 pm · Filed under Festivais · Por Leca Perrechil
Depois de me deslocar em Curitiba de ônibus, táxi, correndo, agora foi a vez de pegar uma carona de moto. Sim, nós da Bacante, mesmo quando somos convidados oficialmente prum Festival, nunca negamos nossas origens mais trash. Ontem peguei carona com um jornalista nativo e fomos para lugares mais distantes do centro. Fomos parar no Museu Oscar Niemeyer (pois é, ele é onipresente), que tem um auditório com o palco mais alto do festival. Depois dos vistos em São Paulo no Memorial da América Latina no Festival Ibero-Americano, não sei porque ainda fazem peças nos cartões-postais projetados pelo Oscar.
O destaque do dia do Fringe foi o espetáculo Rubros: Vestido-bandeira-batom, dirigido por Rita Clemente. Ele conta a história de duas amigas de longa data, que vivem um período de solidão e interdependência aos 40 e poucos anos. Enquanto uma vive deprimida por ter perdido o filho, a outra se mantêm de aparências, enquanto por dentro se sente sozinha e tem como porto seguro sua velha amiga. A peça trata da solidão e do envelhecimento, enquanto as personagens revivem momentos do passado. Como cenário, linhas de lã vermelhas demarcam as portas da casa de uma delas.
Vi ainda outras quatro do Fringe – preciso voltar a pedir indicações pras pessoas por aqui. A Obra de Arte, espetáculo adaptado de conto de Anton Tchekhov, mistura teatro de bonecos com encenação convencional. Nele, atores interagem com bonecos para contar a história de um objeto de arte muito precioso, mas que ninguém quer, por ser polêmico. Posso não conhecer muito de teatro de bonecos, mas como a boca do boneco mexia algumas vezes sim e outras não, e já vi um espetáculo muito bom do gênero (O Incrível Ladrão de Calcinhas), esse não era dos melhores. Quem passou essa tarde pela rua XV de Novembro, pôde ver um rapaz vestido de O Máskara – sim, aquele filme com Jim Carrey – interagindo com as pessoas da rua, mas provavelmente tinha a ver com uma loja próxima e não com o Festival. Agora só falta ir para alguma peça de barco – pena que o pessoal do Teatro da Vertigem não ta por aqui.
March 27, 2008 at 7:59 pm · Filed under Sem Categoria · Por Fabrício Muriana
Poucas semanas antes de completarmos um ano de Bacante, recebo a notícia de que temos mais um espaço de diálogo crítico on-line.

A Questão de Crítica, revista eletrônica carioca de periodicidade mensal, editada pela Daniele Ávila, a Dinah Cesare e o Márcio Freitas entrou no ar com a primeira edição na semana passada. Pra quem é ruim de nomes, que nem eu, eles todos estavam no cenacriticacontemporanea, projeto ligado ao riocenacontemporanea, que direta ou indiretamente gerou frutos. Todos ligados ao curso de Teoria Teatral da Unirio, nascem desvinculados da, mas em diálogo constante com a academia. Conheço todos e, apesar de acadêmicos, posso jurar que são legais.
A principal diferença é que eles se levam a sério (nada a ver com a gente) e, sobretudo, levam a sério o diálogo. Layout, navegação e sistema ficaram bem bacanas e pelo primeiro editorial a gente já saca que eles também vieram pra pensar uma outra crítica.
Vai ser mó legal ter quem linkar. Atualmente temos pouquíssimos blogs que escrevam críticas. Revistas então, nem se fala.
Longa vida à Questão de Crítica, como desejaram pra nós quando começamos, há quase um ano.
March 27, 2008 at 2:15 pm · Filed under Essa gente de teatro... · Por Revista Bacante
Manhã de quinta-feira, Praça do Patriarca, centro de São Paulo. Um piso improvisado sustenta algumas dezenas de palhaços.

Ao som da voz de uma atriz da Cia São Jorge de Variedades, todos os palhaços se sentam. Ela informa toda a programação das manifestações que acontecerão ainda hoje em São Paulo e avisa que o movimento é nacional, por isso haverá manifestações em mais 16 estados. Quando ela pausa, os palhaços todos se levantam e fazem forfé no seu quadrado e com algumas pessoas do público. Discurso e festa se intercalam até que todos os informes sejam dados.
Têm início as apresentações de rua que vão até as 16h, quando todos os grupos devem se reunir para uma caminhada da Praça do Patricarca até a frente do teatro municipal. Mas ninguém entra. Hoje é dia de teatro na rua.
Mas de noite, o encontro aqui de São Paulo será no Teatro Fábrica, com Paulo Arantes e Chico de Oliveira.
Esse período inicial, das 10h ao meio-dia, foi morno, com poucos grupos presentes. Tudo bem, porque acordar cedo é um saco mesmo. Em certo momento chegou o grupo de cênicas da USP, cerca de 20 pessoas (não mais que 12, segundo dados da polícia militar). Estavam lá também grupos da ELT e gente desvinculada das escolas. Tudo promete esquentar de tarde. Veremos.
Seguem algumas fotos de celular:


Se estiver perto da praça do Patriarca, vale conferir.
March 26, 2008 at 4:58 pm · Filed under Festivais · Por Leca Perrechil
Depois de seis dias de festival e 22 peças assistidas (sendo uma vista duas vezes), as impressões sobre o Fringe começam a melhorar. Tá certo que agora os jornalistas estão indo para as peças indicadas pelos colegas, sem se arriscarem tanto por aí. Porque, em se tratando do Fringe, qualquer informação adicional pode valer ouro. Destaque para a peça Negrinha, do grupo XIX de São Paulo, que traz um monólogo interpretado por Sara Antunes. O espetáculo só teve três apresentações na cidade e esperemos que seja reapresentado em São Paulo. Mas deste falarei em uma crítica mais tarde.
Na correria para ir de uma peça pra outra, anteontem peguei um táxi às 20h22 em frente ao Teatro Guairá, para chegar ao Paiol às 20h30 e ver a peça Aqueles Dois – que não tinha ingresso. Pela tensão, comecei a conversar com o taxista:
Eu: E aí? Você vai muito ao teatro?
Taxista: Eu até gosto. Mas não dá muito tempo, né. Você tá com o pessoal do festival?
Eu: Sim. Sou de uma revista de São Paulo. Uma revista eletrônica, um site chamado Bacante.
Taxista: Ah. Teve um ano que eu vi algumas peças no festival, quando trabalhava em um hotel onde o pessoal se hospedava. Aí sempre ganhava ingresso. Você sabe mais ou menos quanto tá o preço dos ingressos este ano?
Eu: Acho que varia de R$15,00 a R$30,00, dependendo da peça.
Taxista: Então (ele não deve ter falado “então”, porque essa é uma expressão muito de paulista, mas finjamos que sim), se eu for, tenho que levar a mulher. E a gente não paga meia. Se o ingresso for R$20,00, ai já são R$40,00 em apenas um dia.
Eu: É. É pesado mesmo. (Nessa hora eu imaginei pagar R$ 40,00 para ver algumas peças do Fringe. O pensamento não foi agradável).
Ontem a correria para chegar ao teatro foi diferente. Saí da peça Hitchcock Blonde, no Teatro Novelas Curitibana, às 22h16, para chegar na sessão extra de Farsa, no Teatro da Reitoria, que teria seu início previsto às 22h30. Correndo – já que a van do festival não tava no teatro pra levar – e sem saber muito bem o caminho, porque ainda não conheço as ruas de Curitiba muito bem, consegui chegar às 22h33. Acho que perdi uns quilos e aprendi melhor os caminhos da cidade,… mas nem precisava ter corrido tanto, porque a peça atrasou e só começou às 23h.
Sobre Farsa, já tinha ouvido diversos comentários, desde “Muito bom.”, “Não gostei tanto assim, não é o tipo de comédia que eu goste”… até “Ai, você não vai ver o Sérgio Marone de perto? Ele é lindo!”. Confesso que tinha um preconceito com o fato de que quase todo o elenco fazia parte da velha guarda da Rede Globo (tipassim, velha guarda da Portela). Sabe aqueles atores que você já viu em uma novela quando era criança? Então, Bianca Byington, Cláudia Ohana (ela já sabia cantar)e Marcos Breda te dizem alguma coisa? Mas como tavam comentando, decidi assistir.O espetáculo é dividido em quatro partes, separadas por pequenos números musicais (pra dar tempo da troca de cenário ao fundo). Eu tava na terceira fileira, e já ouvia a voz deles muito baixo, principalmente na parte das músicas. Fiquei imaginando se tivesse sentado na fileira N (meu lugar original), se ouviria alguma coisa.
A encenação até que começou bem, com uma primeira parte divertida, sobre um marido que contrata um fugitivo da lei tagarela para fazer uma espécie de terapia de choque na mulher, também faladeira, para fazê-la se calar. Com humor leve e boas sacadas, essa primeira parte se sustenta bem. Contudo, a peça começa a declinar a cada parte, até que a última história vira uma comédia rasgada, com vários tiques e trejeitos dos atores. Se a peça tivesse mantido o mesmo tom do começo, o espetáculo inteiro seria uma comédia leve e divertida. Tive a impressão de que Bianca Byington não envelheceu nem um pouquinho desde que a vi na novela Quatro por Quatro.
Da mostra oficial (ou contemporâneo, como foi denominado), o grande destaque até então é a peça Aqueles Dois, da Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, sobre a amizade de dois colegas de uma repartição pública. Como o texto do Caio Fernando Abreu deixa em aberto se eles tiveram uma relação homossexual ou não, e o grupo manteve a opção de também não tirar uma conclusão, isso gerou uma discussão nos bastidores. Teve gente que achou que a relação entre os dois era claramente homossexual e que o grupo deveria deixar isso explícito. Outros já defenderam que a grande sacada era deixar em aberto mesmo, senão seria mais uma peça gay. Eu já acho que a peça e o texto são tão bacanas, que há muito mais o que ser discutido do que se os caras são ou não gays. Mas deixemos os pontos que valem a pena da peça para serem falados em uma crítica (é, to escrevendo muito isso. Mas com a falta de um laptop – aceitamos doações – peça das 12h às 24h, e com os jornalistas se matando na sala de imprensa por um computador, proporção aproximada de 4:10, não tá tão fácil a conexão Curitiba/São Paulo. Mas estamos com fé!).
Com o fluxo de visitas na cidade, os boatos por aqui são de que tá tendo muitos assaltos. De um jornalista, levaram R$ 200,00 - que o jornal ao qual o tal moço trabalha deu pra ele gastar na cidade - e um celular (ainda bem que a Bacante é pobre e não tem 200 pra roubarem). E também teve o caso de um semi-roubo, em que uma moça do receptivo (pessoal que leva jornalistas e artistas pros lugares) saiu correndo gritando, depois que um cara disse pra ela passar tudo, porque ele tinha uma arma no bolso. Nada que não tenha em São Paulo, né?
March 25, 2008 at 4:36 pm · Filed under Festivais · Por Fabrício Muriana
Muitas das peças que fazem parte da programação do Festival de Curitiba já foram criticadas por aqui. Confira abaixo, clicando nos links, mas cuidado: podemos ter mudado de opinião!
Mostra de Teatro Contemporâneo
Júpiter: Conquista da Galáxia
Metegol
Rainha Mentira e Terra em Trânsito
Natimorto - Um Musical Silencioso
Salmo 91
Vestido de Noiva
Mostra Novos Repertórios
Henfil, já!
Fringe
Alguns Leões Falam
Ay, Carmela
Coçando o Saccro
Do Claustro
Êxodo
Faces da Loucura
A Invenção de Loren
Nunca ninguém me disse eu te amo
São Paulo e Corinthians: A Comédia
Residência das Artes
A Fauna
Lembrando que nessa semana, todos os destaques da home são do Fringe, Novos Repertórios e Residência das Artes. Portanto, se você ainda estiver procurando o que assistir nas vitrines de Curitiba, aproveite.
March 25, 2008 at 3:46 pm · Filed under Essa gente de teatro... · Por Fabrício Muriana
CONVITE PARA O ATO DE 27 DE MARÇO
O Redemoinho é um movimento que une coletivos teatrais de 11 estados do Brasil. Em seu último encontro, em dezembro de 2007, na cidade de Porto Alegre, os grupos se reuniram com a necessidade de afirmar a criação de condições sociais, políticas e econômicas para a construção de uma sociedade na qual a arte e a cultura sejam compreendidas como um direito universal.
Por isso o Movimento Redemoinho gostaria de convidá-los para participar de um grande ato público a ser realizado no dia 27 de março de 2008, dia do teatro, no qual estarão reunidos muitos setores de nossa sociedade, entendendo e afirmando a arte como campo de pensamento e de atuação pública, fundamental para o exercício da cidadania. A idéia é que nesse dia o teatro aconteça no ato público, e não nas salas de espetáculos.
A programação do dia 27 de março prevê, também, a participação do filósofo Paulo Arantes. No mesmo ato será lido um manifesto e será proposto o Prêmio Teatro Brasileiro (para todo o país) e a retomada do Fundo Estadual de Arte e Cultura (para o Estado de São Paulo), como exemplos possíveis de política de Estado para a cultura.
Prêmio Teatro Brasileiro é um programa público a ser estabelecido em lei que destina recursos para: produção de espetáculos teatrais com relevância artística, circulação de espetáculos e/ou atividades teatrais com relevância artística e manutenção de núcleos artísticos com trabalho contínuo. Os recursos são descentralizados por região bem como o julgamento se dá também por região. Prêmio Teatro Brasileiro é um projeto de lei que atende artistas independentes, produtores teatrais e grupos de teatro.
O Fundo Estadual de Arte e Cultura se destina a nove áreas: Artes Visuais, Áudio-visual, Circo, Cultura Popular, Dança, Hip-Hop, Literatura, Música e Teatro. Destina recursos distribuídos de forma descentralizada e proporcional, para todas as Regiões Administrativas pelo interior do estado através de editais públicos.
Dia 27 de março – ato público:
10h00: Overdose Teatral – início das apresentações de vários grupos do Movimento de Teatro de Rua na Praça da Patriarca, centro de São Paulo.
16h00: concentração para a saída da marcha, da Praça do Patriarca até o TUSP, Rua Maria Antonia.
19h00: início da programação no TUSP /Participação de Chico de Oliveira/Leitura do manifesto
Ps: Estaremos lá!
Ps2: Leia mais aqui, aqui e aqui.
March 25, 2008 at 3:34 am · Filed under Festivais · Por Marco Albuquerque
A Bacante possui uma legítima preocupação com o “Social”. Em decorrência disso, fica aqui uma dica de programação para você “socializar” em Curitiba: o Café Teatro, lugar onde o povo do teatro se encontra todas as noites para falar dos seus assuntos favoritos: Bebida e Paquera!! Quer dizer… Teatro e Política!!
Nesta última madrugada, uma hora da manhã de uma segunda feira, estavam por lá o pessoal do Luna Lunera, das Tatuíras Mutantes, a Daniele Suzuki, a Lenise Pinheiro, entre muitos e muitos outros… Uma variedade enorme de gêneros, números e graus.
Além das bebidas, o Café Teatro também tem várias comidinhas à base de frango (que estava esgotado), filé mignon (que também estava esgotado) ou carne seca (esta ainda não estava esgotada). O atendimento é super diferenciado, pois os garçons parecem estar bêbados (alguns realmente estavam…), o que torna a experiência inesquecível. O importante é que ninguém vai lá para comer mesmo…
Apareça por lá, faça sua pose e, quem sabe, com um pouquinho de sorte, você ainda ganha uma notinha na coluna da Mônica Bérgamo.
March 23, 2008 at 5:01 pm · Filed under Diário de uma revista, Festivais · Por Maurício Alcântara
Era para eu rever Terra em Trânsito e Rainha Mentira (aqui, o “pacote” ganhou o nome de Mundo Gerald Thomas - uma coisa, tipassim, meio Beto Carrero World). Depois de muito imaginar como seria um parque temático do Gerald, descubro que Rainha Mentira (o espetáculo que eu mais queria rever) não seria exibido, e que o teatro onde seria apresentado era mais afastado. Decisão: desisti de rever Fabiana Gugli batendo um papinho com um pato e decidi dar foco para o Fringe (ai, Cristo). Afinal, não é possível que em meio a tantas coisas não haja pequenas pérolas, né?
A primeira peça foi a montagem pernambucana de Dr. Qorpo, sobre a vida do dramaturgo gaúcho Qorpo Santo. Minha intenção era, além de conhecer o trabalho de um grupo que vem de longe para participar da vitrine que é o Fringe, conhecer um pouco sobre a obra desse malucão. O problema é que o espetáculo se preocupou mais em contar didaticamente - até demais - a história do escritor, do que apresentar efetivamente sua obra. Que a história do cara é bacana, eu já sabia. A pergunta que a montagem não responde é: e sua obra? Pouco vi sobre ela. Será que ela faz sentido nos dias de hoje? Essa resposta talvez ajudasse a montagem ser mais pertinente.
Curiosidade: Qorpo Santo foi considerado louco e internado em um sanatório por criticar a burguesia gaúcha do século XIX com infâmias - a mesma burguesia que comeu as lingüiças humanas apresentadas no espetáculo Como Carne. O espetáculo paranaense mencionava Qorpo Santo, e o espetáculo pernambucano menciona o ilustre açougueiro gaúcho. Coincidências assim poderiam ser aproveitadas de alguma forma pela organização do festival. Ou não, sei lá.
O segundo espetáculo foi Bolacha Maria, um punhado de neve que restou da tempestade. Critério: indicação de quem já viu (e depois descobri ser do mesmo grupo curitibano que havia apresentado em Sampa Os Leões, montagem de que gostei bastante). Segundo a sinopse, o espetáculo é baseado em fragmentos de textos de Manuel Carlos Karam (será irmão do Guilherme Karan, o baixo-astral??). Mas bem que poderia ter sido inspirado em experiências e pirações coletivas do grupo. Sobre o que fala? Não sei definir ao certo - nem a sinopse do roteiro conseguiu. Mas é um espetáculo ousado, em que 5 jovens atores demonstram não ter medo de brincar com a linguagem teatral, mas sem a pretensão(ao menos aparente) de revolucionar coisa alguma. Gente que parece levar a pesquisa teatral a sério, mas não o suficiente para que a peça fique séria e chata.
A terceira peça foi Não Assim Tão Longe, criação dos atores Daniel Siwek, Adriana Seiffert e Maureen Miranda, interpretado pelos dois primeiros e dirigido pela última. Critério: quase aleatório. Um espetáculo que fala sobre suicídio e dirigido por uma pessoa cujo trabalho, como atriz, só conhecia nos espetáculos da Sutil Companhia de Teatro, em Avenida Dropsie e Educação Sentimental do Vampiro. Decisão quase clichê de criar uma dramaturgia quase que totalmente baseada em cartas de suicídio, mas funciona muito bem com o trabalho de ambos os atores e com uma direção que apesar de bastante sóbria, foge de obviedades. Diferente de Psicose 4h48, de Sarah Kane, aqui o foco não está nas motivações para alguém decidir saltar para o beleléu, mas sim nos pensamentos e relações com as pessoas e objetos que ficam.
Para terminar a noite, Sobre Amor e Liberdade, montagem paulistana de um grupo de Circo-teatro. Critério: horário relativamente livre (se eu não fosse ver a peça, voltaria ao hotel para dormir), e vontade de ver textos curtos de Tennessee Williams. Os três textos apresentados acabam se perdendo um pouco na interpretação naturalista e nada inventiva - aquela velha história do respeito excessivo, com encenação que tenta servir ao texto, e não o contrário.
Na média, o dia foi muito bom. Nenhum dos espetáculos me fez questionar a existência de meu anjo da guarda (apesar de em alguns momentos eu achar que ele decidiu dar um rolê em vez de assistir as peças). Mas agora, com licença que vou ver minha segunda peça do meu terceiro - e último - dia de festival. Desejem-me sorte.
E depois falamos mais sobre o Festival de Curitiba.
March 22, 2008 at 4:23 pm · Filed under Festivais · Por Maurício Alcântara
- Partindo do pressuposto que não há curadoria, seja tolerante (ou tente ser) se você deparar com algo muito ruim.
- Leve em conta que a origem dos espetáculos não diz muito. Ou melhor, não diz nada.
- O nome dos espetáculos diz muito sobre eles. Mas sempre recomenda-se dar uma olhadinha na sinopse pra garantir que uma coisa corresponda à outra.
- Sinopses não são confiáveis.
- Preste sempre atenção na duração dos espetáculos. Quanto mais longo for, maior será o risco de enfarte dentro da sala.
- Espetáculos cômicos sobre assuntos conjugais, familiares ou sexuais (maioria na programação) têm poucas chances de serem surpresas positivas.
- Aprenda: Não é porque é uma comédia que você vai rir. Às vezes, você chora.
- Em tempos de Fringe, indicações dos amigos valem ouro (mas recomenda-se conhecer bem os gostos dos amigos).
- Antes de entrar em uma sala de espetáculo, faça uma oração para seu anjo da guarda. Mas é bom sentar perto da porta caso ele não esteja por perto.
- Se tudo isso não ajudar e você assistir a uma bomba, volte para a dica número 1.
March 22, 2008 at 3:45 pm · Filed under Diário de uma revista, Festivais · Por Maurício Alcântara
Não apenas os aeroportos brasileiros padecem do terrível mal dos atrasos: o ônibus para Curitiba saiu com 1h40 de atraso e, no caminho, descobri o porquê da Régis Bittencourt ser considerada a rodovia da morte. Resultado: uma madrugada inteira muito mal-dormida. Mas foi o tempo de chegar, tomar um café da manhã e já partir para o teatro.
Ao pegar o guia do festival, rapidamente fiz um roteiro dos espetáculos que veria no Fringe, mostra “paralela” (que de paralela não tem nada, uma vez que tudo é organizdo pela mesma turma).

Logo de cara, primeira sessão lotada: Como Carne, daqui de Curitiba mesmo. A história é a de um açougueiro que supostamente teria vivido em Porto Alegre no século XIX e vendido à alta sociedade gaúcha suas vítimas na forma de lingüiças. O “contar histórias” ganha muito com a proposta teatral do grupo, embora eu tenha saído com a sensação de que a encenação tivesse um tanto de cara de “peça de colégio”. A diferença é que, neste caso, os atores eram bons e tudo era muito bem feito - algumas soluções são ingênuas mas não há nada que seja apontado como grandes problemas na montagem. Saí do teatro com a sensação de que a programação do Fringe esquentaria mais e mais.

Segundo espetáculo foi no Solar do Barão: Aquilo Que Não Se Move. O livrinho da programação indicava que a categoria do espetáculo carioca era “contemporâneo”, o que já me deixou apreensivo. Ao entrar no espaço, uma surpresa boa: o cenário era composto por milhares de pedras de dominó e trazia, ao centro, um ator com uma mala de viagem e brincando com um ioiô. Uma imagem bonita de se ver, tão bonita quanto as outras imagens que seguiriam. Mas imagem não é nada, já dizia aquela propaganda. As personagens de Tchekhov e as imagens se perdiam na verborragia poética que levava o espetáculo do nada ao lugar algum. A impressão que ficou foi uma tentativa de fazer algo no mesmo formato das performances de Michel Melamed, mas sem o mesmo sucesso e principalmente sem o mesmo carisma na hora de interagir com a platéia. Um jornalista não resistiu e foi embora antes do término, ao ouvir algo tentador como “Eu, se fosse você, ia embora sem olhar pra trás”. E ele foi, assim como eu também queria ter ido. Não sei ao certo o porquê, lembrei-me de dois espetáculos de teatro-dança que vi em Porto Alegre: La Divina e Jandira. Mas ambos eram muito mais bem-resolvidos, menos pretensiosos e traziam um trabalho corporal mais bem-definido.

A terceira do dia foi Andarilhos, de São Paulo. De longe, a montagem mais irregular do dia. O grupo optou por falar dos moradores de rua e sobre relações entre eles e, segundo a sinopse, inspirados também em O Andarilho, de Nietzsche. Na cena, apenas os atores com pouquíssimos adereços e brincando de teatro de sombra. Proposta bacana, abordagem diferente do que já estamos acostumados a pensar sobre moradores de rua. O tempo todo, tudo parece ter sido incorporado quase que de forma descriteriosa e ingênua. Tive a sensação de que não acabaria nunca aquela narração toda em terceira pessoa que, somada à falta de unidade no elenco, dispersava a narrativa e enfraquecia os personagens. Enfim, são riscos que se corre ao assumir uma direção coletiva.
Para terminar, a única peça realmente marcante vista no dia: Mãe Coragem e seus Filhos, do grupo Armazém. Desta vez, não no Fringe, mas na mostra oficial. Mas dessa, falaremos depois, em uma crítica mais elaborada.
E a noite termina como deveria terminar: em um bar alemão, entornando enormes e pesadas canecas de chope. E o festival continua…
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