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A crítica da crítica 2: reloaded

A edição deste domingo da Ilustrada da Folha de São Paulo teve uma puta sacada, que deve ter sido odiada pelos leitores do jornal. Alguém lá de dentro teve a idéia genial de mandar os críticos trocarem de áreas. Como diriam os meus amigos mais mudernos, “desterritorializar” a galera, tirar as autoridades constituídas, ver no que dá. O resultado é uma exposição exacerbada de preconceitos, às vezes até camuflados, mas quase sempre explícitos. O efeito, é claro, é de comicidade e dá até vontade de não enrolar o peixe com essa edição.

Enviar a crítica de dança para um concerto do Iron Maiden foi algo com requintes de crueldade. O relato da indicação de roupas pretas, os corpos que se acumulam e o comentário sobre o “teatrinho” que “funciona muito bem”, demonstram que a crítica Adriana Pavlova se entregou à experiência, mas não foi “despida de preconceitos”, como afirma no início. E que bom que não foi.

Sérgio Sálvia Coelho compara a autoridade de um maestro com a de um diretor de teatro e expõe os seus preconceitos com relação ao que encontra no teatro, que é sua área de especialização: “e todos levantam à chegada de um maestro (que inveja que um diretor de teatro sente disso!)”. Será? Só com experiências como essa pra revelar de onde parte um crítico para fazer o seu trabalho.

Thiago Ney, provavelmente o mais mala de todos os críticos dessa edição especial, foi enviado para assistir uma peça com a Nicete Bruno e o Paulo Goulart. Usou quase a metade do texto para comentar do atraso do público, demonstrando que o limite de caracteres costuma ser mais uma auto-censura do que uma censura real. E é óbvio que, assistindo o que provavelmente é uma das peças mais naturalistas em cartaz, ele ia terminar o texto reforçando a tese do Casseta e Planeta: “por isso não vou ao teatro”. Se fosse só isso, eu também não iria.

Irineu Franco Perpetuo sai pela tangente e dá um jeito de colocar a opinião de um crítico de cinema, amigo seu, no meio do seu texto. Mas explora a metalinguagem nos poucos caracteres de que dispõe, pra questionar a própria crítica especializada. Ali era O LOCAL pra se fazer isso. Esse papel, explícito no título, de uma crítica especializada que “nos diz o que pensar” morreu há muito tempo. Só que é impossível não se deixar influenciar pelas estrelinhas, então que papel elas têm? No cinema, essa relação direta de “cotação”, pura, pobre e simples, fica mais explícita, pela avalanche semanal de filmes que entram em cartaz. E, novamente, servem a quê?

Sérgio Rizzo também rouba no jogo e vai criticar uma exposição de artes plásticas que faz paralelos com o cinema. Sem dúvida, o texto com a menor quantidade de juízo de valores por sílaba. Por conta disso, Sérgio Rizzo está na mira da Bacante pra escrever sobre teatro. Ai da Folha quando tivermos salários exorbitantes a oferecer.

O crítico de gastronomia, Josimar Melo, ficou perdidinho, perdidinho, coitado. Foi mandado para um espetáculo de Sandro Borelli, adaptação de Kafka para a dança. Evoca uma experiência pessoal com a obra de Kafka que ocupa cerca de 30% do seu texto, e não faz sequer um paralelo entre sua experiência e o que assistiu no palco. Chama o pessoal da dança de “pessoal do teatro” e conclui que a adaptação da Cia Borelli “deve ser uma daquelas obras que, como é freqüente na arte, a crítica adora, e o público detesta”. Ele é qual dos dois?

Agora, a pérola dos textos ficou realmente com Fabio Cypriano, que foi sincero em todos os pontos. Relata no início que já é freguês do restaurante e se exime de qualquer imparcialidade crítica. Comenta do mau humor dos funcionários como ponto positivo, quebrando a lógica do juízo de valor. E de lambuja ainda tira com a cara dos críticos de gastronomia - certamente a profissão mais fácil que já foi criada na humanidade.

O ponto lamentável, como quase sempre, é o limite de caracteres - sendo que alguns dos críticos usaram muito mal os poucos caracteres de que dispunham. Mas dava pra haver textos mais longos publicados no site da Folha Online. O ponto altíssimo fica por conta da demonstração corajosa e na prática de que todos somos críticos. Se tirarmos uma média entre os textos, ela vai se aproximar de trabalhos de faculdade em que os alunos são forçados a comentar sobre um tema de que não têm idéia. Contudo, se houver potência no encontro com uma obra, seja ela qual for, por que não criticá-la? Colocá-la em crise, voltando à origem da palavra crítica. Mesmo que o meu repertório não seja amplo sobre a linguagem, sempre sobra a minha vivência pessoal. E pergunte aos atores de teatro infantil se existe ou não um puta potencial crítico nas palavras mais ingênuas das crianças que os assistem.

Continuo não lendo jornais porque são caros, difíceis de manusear, sujam os dedos e chegam depois do horário em que saio de casa. Digo isso, pois, se você for como eu, acesse os textos on-line e confira também as considerações do Marcelo Coelho sobre a idéia e os resultados. Vale também ler o que ele comentou no blog. Não concordo que uma crítica deve propor caminhos distintos pra obra criticada. Pra mim, crítica é só uma desculpa pra dialogar com o artista e, por isso, pode ser feita por qualquer um. Não nego a erudição, pelo contrário, com ela temos mais chances de encontrar pontos de chegada nas obras. Mas utilizar a palavra “especializada”, depois da palavra crítica, é quase um contra-senso, se voltarmos às origens das duas palavras.

Ps1: Se você não tiver a senha para acessar os textos do uol - sério mesmo que você ainda não arranjou uma genérica? - mande um e-mail pra naotenhoasenhadouol@bacante.com.br que enviamos os textos pra você.

Ps2: Abrimos aqui a campanha por um final de semana igual a este na edição de O Globo, em que vamos enviar a Bárbara Heliodora prum show de Death Metal.

4 Comments »

  1. leio jornal porque meus chefes assinam - e não lêem.

    achei bacana a idéia, talvez seria interessante eles fazerem um rodízio dos críticos em todas as áreas. gosto de críticas, inclusive de gente que não tem nada a ver com o assunto, porque os ‘especialistas’ muitas vezes são viciados em alguns clichês e isso é um saco. não os clichês. clichês são legais, às vezes, mas percebo que, em muitos casos, os caras só mudam o nome da peça, do filme, sei lá, mas acabam escrevendo sempre as mesmas coisas.

    Comment by .lucas guedes — March 11, 2008 @ 11:22 am

  2. Oi pontoLucas
    Que existe um formato a que se pode recorrer, não tenho dúvida. Mas acho que o mais difícil é conseguir revelar de onde se parte para fazer uma crítica, com tão pouca qtdade de caracteres. Além disso, ainda existe uma certa “obrigatoriedade informacional”, como se o leitor só tivesse aqueles 500 toques pra saber absolutamente tudo da peça, ou de qualquer outra obra de arte.
    Enfim, curti muito a idéia pq os textos saíram todos revirados.

    Comment by Fabrício — March 11, 2008 @ 12:15 pm

  3. muito, muito bom. sejam as críticas, ou a crítica.

    beijo. :)

    Comment by Maria Clara Spinelli — March 11, 2008 @ 12:24 pm

  4. eu gostei da idéia. acho que, ao contrário do marcelo coelho, minha expectativa seria beeem baixa, imaginando como resultado algo mais ou menos ao estilo do que aconteceu: gente dando suas opiniões pessoais sem embasamento algum. mesmo porque embasamento demais é chato.

    Comment by Elder — March 11, 2008 @ 10:32 pm

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