Era para eu rever Terra em Trânsito e Rainha Mentira (aqui, o “pacote” ganhou o nome de Mundo Gerald Thomas - uma coisa, tipassim, meio Beto Carrero World). Depois de muito imaginar como seria um parque temático do Gerald, descubro que Rainha Mentira (o espetáculo que eu mais queria rever) não seria exibido, e que o teatro onde seria apresentado era mais afastado. Decisão: desisti de rever Fabiana Gugli batendo um papinho com um pato e decidi dar foco para o Fringe (ai, Cristo). Afinal, não é possível que em meio a tantas coisas não haja pequenas pérolas, né?
A primeira peça foi a montagem pernambucana de Dr. Qorpo, sobre a vida do dramaturgo gaúcho Qorpo Santo. Minha intenção era, além de conhecer o trabalho de um grupo que vem de longe para participar da vitrine que é o Fringe, conhecer um pouco sobre a obra desse malucão. O problema é que o espetáculo se preocupou mais em contar didaticamente - até demais - a história do escritor, do que apresentar efetivamente sua obra. Que a história do cara é bacana, eu já sabia. A pergunta que a montagem não responde é: e sua obra? Pouco vi sobre ela. Será que ela faz sentido nos dias de hoje? Essa resposta talvez ajudasse a montagem ser mais pertinente.
Curiosidade: Qorpo Santo foi considerado louco e internado em um sanatório por criticar a burguesia gaúcha do século XIX com infâmias - a mesma burguesia que comeu as lingüiças humanas apresentadas no espetáculo Como Carne. O espetáculo paranaense mencionava Qorpo Santo, e o espetáculo pernambucano menciona o ilustre açougueiro gaúcho. Coincidências assim poderiam ser aproveitadas de alguma forma pela organização do festival. Ou não, sei lá.
O segundo espetáculo foi Bolacha Maria, um punhado de neve que restou da tempestade. Critério: indicação de quem já viu (e depois descobri ser do mesmo grupo curitibano que havia apresentado em Sampa Os Leões, montagem de que gostei bastante). Segundo a sinopse, o espetáculo é baseado em fragmentos de textos de Manuel Carlos Karam (será irmão do Guilherme Karan, o baixo-astral??). Mas bem que poderia ter sido inspirado em experiências e pirações coletivas do grupo. Sobre o que fala? Não sei definir ao certo - nem a sinopse do roteiro conseguiu. Mas é um espetáculo ousado, em que 5 jovens atores demonstram não ter medo de brincar com a linguagem teatral, mas sem a pretensão(ao menos aparente) de revolucionar coisa alguma. Gente que parece levar a pesquisa teatral a sério, mas não o suficiente para que a peça fique séria e chata.
A terceira peça foi Não Assim Tão Longe, criação dos atores Daniel Siwek, Adriana Seiffert e Maureen Miranda, interpretado pelos dois primeiros e dirigido pela última. Critério: quase aleatório. Um espetáculo que fala sobre suicídio e dirigido por uma pessoa cujo trabalho, como atriz, só conhecia nos espetáculos da Sutil Companhia de Teatro, em Avenida Dropsie e Educação Sentimental do Vampiro. Decisão quase clichê de criar uma dramaturgia quase que totalmente baseada em cartas de suicídio, mas funciona muito bem com o trabalho de ambos os atores e com uma direção que apesar de bastante sóbria, foge de obviedades. Diferente de Psicose 4h48, de Sarah Kane, aqui o foco não está nas motivações para alguém decidir saltar para o beleléu, mas sim nos pensamentos e relações com as pessoas e objetos que ficam.
Para terminar a noite, Sobre Amor e Liberdade, montagem paulistana de um grupo de Circo-teatro. Critério: horário relativamente livre (se eu não fosse ver a peça, voltaria ao hotel para dormir), e vontade de ver textos curtos de Tennessee Williams. Os três textos apresentados acabam se perdendo um pouco na interpretação naturalista e nada inventiva - aquela velha história do respeito excessivo, com encenação que tenta servir ao texto, e não o contrário.
Na média, o dia foi muito bom. Nenhum dos espetáculos me fez questionar a existência de meu anjo da guarda (apesar de em alguns momentos eu achar que ele decidiu dar um rolê em vez de assistir as peças). Mas agora, com licença que vou ver minha segunda peça do meu terceiro - e último - dia de festival. Desejem-me sorte.
E depois falamos mais sobre o Festival de Curitiba.