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Archive for September, 2008

Sexta e sábado - deixando as máscaras

É muito difícil abrir o jogo quando a coisa funciona. O leitor desavisado vai relatar que eu só postei críticas ao festival de Guaramiranga e estará certo. Mas posso garantir que foi do mais profundo caralho fazer a cobertura de um festival em que a cidade toda entra na engrenagem do teatro. Precisei ir até a Serra do Baturité, duas horas de Fortaleza, pra descobrir que isso é possível.

Os dois trabalhos de grupo apresentados entre a sexta e o sábado foram Cantil, que está criticada nessa semana e estará em São Paulo na programação do Centro Cultural São Paulo (não me lembro o mês, mas o grupo pode postar nos comentários); e Curral Grande, espetáculo que nasceu de um trabalho de conclusão de curso, cuja temática me surpreendeu demais: os centros de concentração para os flagelados da seca no Ceará na década de 30. Espero ter memória e tempo para criticar a peça, que deve entrar na semana que vem. Se não conseguir, não deixe de conferir a dramaturgia de Marcos Barbosa, que, segundo me informou o jornalista e pesquisador Magela Lima, foi o projeto de mestrado do dramaturgo.

Os últimos debates foram em outro tom. Ricardo Guilherme deixou de ser o cara mal-humorado que eu desenhei na primeira crítica (mas, dizem, continuava indo aos debates com muito sono). Sérgio Faria fez considerações técnicas que achei muito coerentes à Cênicas Cia. de Repertório. Tânia Brandão continuou a melhor contadora de histórias dos debates. Uma pena para o Dimenti não estar entre os últimos grupos que se apresentaram e efetivamente dialogaram com a crítica.

Drica Moraes apareceu na última noite do Festival de Guaramiranga apresentando um monólogo que me pareceu, como disse Sábato Magaldi na última edição da Piauí, um grande exercício para o ego. Enquanto grupos de lá apresentaram trabalhos interessantíssimos de pesquisa de linguagem, o festival traz, para um momento tão especial como a última noite, uma peça que não dialoga em nada com as escolhas curatoriais do resto da semana. A todo momento que via aquelas marcações tão explícitas de Aderbal Freire Filho, ficava lembrando de como Aldeotas, do também cearense Gero Camilo, poderia fazer esse papel de peça final e custaria muito menos ao festival. Fica a dica pro próximo ano.

O cortejo final tinha três ritmos distintos na fila. Muita cor, muita dança e música. Aquilo é o teatro. Não por acaso, o Grupo Garajau veio fazendo números ao longo de toda a trajetória. Ao som de MPB, a noite de sábado terminou na praça central e os Clowns de Shakespeare levaram 1º e 2º lugar na votação popular. Respectivamente com Fábulas e Muito Barulho por Quase Nada. O novo infantil do Bagaceira ficou em terceiro lugar.

Arrumar malas, seguir para Fortaleza no domingo logo cedo, voltar para o mar de concreto. Todo carnaval tem seu fim.

Quinta-feira

A semana vai chegando ao fim e o ímpeto de acompanhar quatro montagens por dia já não é mais o mesmo. Conferi apenas os dois espetáculos da Mostra Nordeste e foi o suficiente pra sair com a cabeça cheia. Meire Love, do grupo Bagaceira, estará entre as críticas da segunda-feira. Já o espetáculo Que Muito Amou, inspirado na obra de Caio Fernando Abreu, sofreu muito com as dificuldades do Teatro Raquel de Queiroz. Não falo do espetáculo pra me aprofundar no tema do espaço.

A que vem um teatro tão monumental numa cidade tão pequena? No dia seguinte, presenciei a chegada dos ocupantes de final de semana. O povo do resort. As lojas de turistas abrem. Os bares lotam e você deixa de conhecer todos os rostos. A fileira reservada aos convidados para o teatro é ocupada até a metade.

Interessante reparar que um dos convidados foi quem puxou o ronco na apresentação de Cantil. Enfim, a monumentalidade sonífera do Raquel de Queiroz. Fica aqui um apelo à curadoria: tragam espetáculos de rua. Alterem o fluxo do próprio festival. Subvertam a lógica turística da cidade e façam mais apresentações sem distinção de quem tem ou não ingressos.

Patuscada

Na quarta à noite, aconteceu a tradicional Patuscada, festa debaixo da Tenda do Sesc e que trouxe calor e muitos saculejos aos corpos do festival. O repertório brega foi o ponto alto da noite, junto com o desfile iniciado pela atriz Samya de Lavor e radicalizado pelos rapazes garbosos de diversos grupos. A inveja da noite ficou por conta dos malditos dançarinos da Lia Rodrigues, que, sem o menor esforço, roubavam a atenção de todo o povo na tenda. O ponto baixo foi o término na festa exatamente quando ela estava em seu melhor momento. Não, eu não vou fazer colunismo social. Não mais.

Lia Rodrigues II (eu fui)

A segunda apresentação da Cia Lia Rodrigues de Danças foi o espetáculo Encarnado. Não há mais o impacto de Aquilo de que somos feitos - mal de festivais que apresentam repertório, bom pra quem gosta de acompanhar trajetórias. Mas dali, vislumbramos algumas referências claras pro grupo, como a imagem da obra de Lígia Clark reproduzida no palco, animais famintos numa selva humana, ketchup, o corpo nu, uma placenta, um nascimento… Uma obra de dança articulada como uma seqüência de quadros. Assim como na primeira apresentação, levo comigo mais as imagens e menos as palavras, sons e movimentos.

Um gesto por outro

Sabe aquele seu amigo que é fissurado em Buñuel, mas odeia teatro? (ok… forcei a barra). Pois é, se ele existir, leve-o pra ver Um Gesto por Outro, do grupo Cênicas Cia. de Repertório. Na montagem, o grupo pede ao público que saia, quando esse ainda está se acomodando. As convenções são colocadas em cheque (de verdade, tudo funciona como um jogo de xadrez) numa peça que trouxe um ar de estranheza ao festival.

Foto: Divulgação

Mostra “Oi” de Esquetes

Um pouco da mostra “oi, tudo bem? Como vai? Visse que os telefones não funcionam?” de esquetes:

Enjaule toda a liberdade do formato esquete numa jaula bem grande. A maior que você encontrar. Coloque público longe e ouvindo mal. Se mesmo assim houver fruição e recepção, então a esquete é realmente um fenômeno.
Dentre as que são, listo a esquete que coloca o ponto de vista de três personagens: o garçom, o marido e a mulher. Os atores reviram a cena a partir de todas as perspectivas, tornando o distanciamento em regra e a cena em exceção. O resultado é um germem de espetáculo, não uma esquete. Espero que o grupo tenha sacado isso.
O Bagaceira apresentou duas: uma nonsense e uma de bonecos. Ambas precisavam de proximidade, mesmo assim pegaram o público pela mão e conseguimos descobrir um pouco mais da linguagem e ireeverência dessa trupe cearense.

Dos malefícios do álcool

Não seria justo com os leitores dessas páginas mal visitadas que eu ficasse sete dias completos aqui em Guaramiranga sem nem sequer um dia de postagens ébrias. Portanto, deixemos de lado o senso crítico e vamos ao que interessa, ou seja, o que ninguém diz sóbrio.

O final da semana chega e revela a característica de resort que a cidade tem. Não por acaso, chamam Guaramiranga de a suíça cenarense. De 25 a 30 graus durante o dia e não menos que 14 graus durante a noite. Quase dá pra usar duas blusas nos dias mais frios. Então é prato cheio pra todo povo que quer mostrar a indumentária de inverno e não tem chance em Fortaleza. Só faltam as estações de esqui.

Guaramiranga quer dizer pássaro vermelho. Eu sei que você não precisava dessa informação, mas eu me sentia impelido a publicá-la em algum lugar. Como não houve contexto pra ela, crio um parágrafo só pra isso.

Pra exemplificar a desconexão entre os parágrafos, falo agora do espetáculo Clowns, do grupo Garajau. Clowns mesmo têm poucos, a coisa vai mais é pro lado de contar histórias. Novamente a “característica inerente ao ser humano” volta à cena e o que vemos é uma peça de rua bastante domada (apesar da cachaça servida a um coitado da platéia). Os integrantes revelam empatia e também vemos que as histórias espelham realidades próximas do universo do público. Mas parece pouco. Quando os grupos amadores vão sacar que o teatro é bem mais e menos do que revelar uma ordem de fatos que se concatenam?

Fim da postagem ébria.

Pequenos Milagres em Guaramiranga

A última montagem do Galpão já tinha sido criticada na Bacante, mas foi interessante assistir novamente em Guaramiranga. Primeiro pra verificar que o grupo é mortal, ou seja, a acústica era péssima pra eles também; os morcegos não pararam de entrar em cena por conta das décadas de história do grupo; o cenário teve de ser adaptado ao tamanho do teatro; e o público não pegou leve nos comentários que se seguiram à peça.

O Galpão já esteve aqui outra vezes e, ao que me consta, na última, trouxe Um Moliére Imaginário (que aliás está excursionando pelo nordeste). Há uma espera, uma pulsação - como disse Sérgio Farias - que não vêm em Pequenos Milagres.

Acrescento que, com o material que eles recolheram, a escolha pela narrativa das quatro histórias me pareceu pouco pretensiosa. Era possível fazer mais e menos narrativo. Mesmo assim é inegável que a peça tem um apuro em todos os detalhes técnicos.

Se alguém viu a conversa com o grupo hoje de manhã, mande comentários. Hoje não acordei nem a pau. Estava com ressaca de Lia Rodrigues, Aquilo de que somos feitos, que aliás será minha primeira critica de dança, na semana que vem.

Resumo de segunda e terça

Como o tempo passa rápido em festivais. Já é quarta-feira à tarde e ainda não relatei como foram os dois últimos dias. Na segunda à noite, o público cansou de aplaudir os Clowns e saiu às pressas em direção ao teatrinho.

Às 21h43, começava o espetáculo Bárbaro, vencedor do festival de Acopiara. (Toda vez que um grupo é vencedor de um festival e não contesta sua própria premiação, fique com um pé atrás. Festivais que premiam “os melhores” promovem a disputa e não o encontro. Portanto, uma premiação é o mesmo que “ganhou dinheiro e destaque no Festival de Acopiara, em detrimento de outros grupos que provavelmente ganharam só ajuda de custo pra se apresentarem lá”).

Uma certa injustiça, há que se dizer, na programação. Você sai de um dos espetáculos mais “quentes” do festival, com apelo popular e aclamação geral, aí ruma pra um espetáculo quase beckettiano, com corpos de estranheza pura.

A peça me pareceu tratar das relações humanas no tempo da internet e do mundo digital. Os atores entram com máscaras e se caracterizam em personagens quase como bonecos. Ao mesmo tempo que  enxerguei aí uma pesquisa radicalizada na forma, também conferi uma certa desconexão com o público, dada pelo clima do dia e pela quase ausência do jogo com a platéia.

Para poder criticar efetivamente, precisaria ler o texto apresentado. Fica pra próxima vez que encontrar com o espetáculo.

Day-After Clowns

Novamente nos reunimos naquela sala do mosteiro para ouvir as críticas de Muito Barulho por Quase Nada. Tânia brandão relata que Shakespeare viveu até um pouco antes de Descartes e que suas peças dão conta da formação do indivíduo na história do ocidente. Diz que a montagem soube revelar essa característica e, em suma, foi toda elogios.

Sérgio Farias tentou teorizar, entre a pulsação e expansão dos atores, qual foi sua recepção da peça. Disse também que não é uma conquista pequena essa da conexão direta com o público e que por meio de um universo mais lúdico - essa abertura que o grupo consegue na platéia - é possível discutir muitas questões.

Ricardo Guilherme concordou com ambos que se sentiu maravilhado com o espetáculo. Mas apontou que a peça não desestabiliza o público em nenhum ponto. Disse que, como artista, ele procura puxar o tapete do público de alguma maneira para fazê-lo pensar sobre seu tempo e sua realidade.

Houve também uma discussão sobre o antagonismo na peça, se ele se faz presente como deveria. De tão inútil, me recuso a relatar.

No mais, devo dizer que a forma desse debate tendeu a ser um debate. Depois das críticas, César Ferrario, dos Clowns, colocou que politicamente esse espetáculo foi importantíssimo ao grupo. Tanto nos fluxos internos, já que a partir dele o grupo passou a poder viver de teatro, quanto na cidade onde estavam, Natal, pois foi possível manter temporadas de mais de três meses, o que era inédito até então.

Ainda acho que falta propor associações, mais do que julgamentos, nesses debates. Uma crítica de espetáculo, sobretudo de peças de repertório, ganha pouco sentido e acaba caindo no julgamento como única maneira de discussão. Daí pro gosto pessoal é um pulo e de que serve o gosto dos críticos?

Ps: Quem estava lá, se puder relatar mais detalhes, os comentários estão aí, minha gente.

Ciro Gomes em Guaramiranga

Estou de saída pro almoço e descubro que Ciro Gomes está em Guaramiranga, para apoiar a reeleição do atual prefeito da cidade. Por um azar tremendo, quando chego à praça o homi está partindo.

Não deu tempo de perguntar como foi que ele pegou a Patrícia Pillar. Fica pruma próxima.

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