Pra ninguém poder dizer que o pessoal da Bacante só procura defeito na Folha, fica chutando cachorro morto ou que não da atenção pra nada mais “descolado” no meio impresso, resolvi botar na roda com mais detalhamento uma discussão que o Fabrício começou na crítica da peça A noite mais fria do ano.
A Revista Sussa publicou uma matéria engraçadíssima e, pra sermos delicados, um pouco iludida, sobre o movimento teatral na Praça Roosevelt – praça que, aliás, continua esperando pela demolição do concretão ou outra solução que acabe com o alagamento que rola embaixo dele.
A reportagem, como bem observou um amigo, traz fotos grandes e bonitas mas – veja só! – nem umazinha das imagens é de uma peça de teatro. Quer piorar? Vamos lá. A onda multimídia levou à produção de um vídeo que elucida muito o que as pessoas vão fazer na praça – elucida tanto que elas nem conseguem explicar muizzzto bzzemzzzz.
Mas a melhor parte não está nesse texto que copio abaixo, está na chamada de capa. Perdão, estou sem a versão impressa para transcrever exatamente, mas a chamada diz, em outras palavras, que a Roosevelt se mostra uma alternativa para o teatro no plano dos negócios, com os botecos substituindo a ajuda do Estado. Opa! Que coisa mais estranha, né? Eu jurava que o Parlapatões tinha conseguido a sede lá na praça com ajuda da Petrobras (Rouanet) E do Fomento (verba municipal). E, olha que coisa!, o Parlapatões acabam de ganhar a décima quarta edição do Fomento! Gente, pra quê escrever projeto pro Fomento? Faz uma promoção de cerveja que tá tudo certo!
A infelicidade de colocar este “modelo de negócios” como alternativa ao incentivo público, além de foder outros grupos que não querem vender nada na frente de suas sedes e dependem destas verbas, ainda é mentirosa. E não é só no caso dos Parlapatões. Studio 184 teve verba pra montar Heleny, Heleny, Doce Colibri (Não me pergunte por que, mas teve). E, por fim, os Satyros, pelo que eu me lembro, se apresentaram, em 2008, no Itau Cultural e no Centro Cultural São Paulo e vão estrear a nova peça no Sesc, tudo bem remunerado. Bem, acho que o equívoco já está bem exemplificado.
Enfim, depois de muito papo de buteco, me senti na obrigação de, além de botar na roda as questões acima, fazer alguns outros comentários mais bobos, só para apontar exatamente onde eu acho que você pode dar boas risadas com a reportagem. Aí vai!
PS: É fundamental que fique claro que eu não sou evangélica, nem tenho nada, nada mesmo, contra o buteco e a cerveja. A gente só toma na rua de trás que é mais barato.
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Por que você freqüenta a Praça Roosevelt?
A praça, em São Paulo, integrou o teatro à vida noturna da cidade. O lugar se tornou ponto de encontro de atores, diretores e aspirantes que a freqüenta pelas mais diferentes razões.
Gabriela Mellão
O bar está lotado, a cerveja é geladíssima e a conversa, animada (oi? Desculpe? Estamos falando de quê mesmo?) . Camisetas de bandas de rock, regatas, minissaias de brechó e coturnos vestem um público predominantemente jovem. Como num pub londrino, perto da meia-noite toca uma sineta. Ao contrário do que ocorre na Inglaterra, o toque não indica o fim da festa, mas o início do espetáculo. Afinal, não estamos num pub, mas no teatro. Mais precisamente no Espaço dos Satyros 1, localizado na praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Regatas, minissaias e coturnos se encaminham para a sala onde terá lugar a estreia de Natureza Morta, peça do premiado dramaturgo Mario Vianna dirigida por Eric Lenate.
A praça Roosevelt se beneficiou de uma mudança recente na vida boêmia de São Paulo, que se deslocou para a região da rua Augusta, próxima à praça. Com isso, o teatro passou a disputar a atenção do público jovem com o cinema e o rock — e, por incrível que pareça, levou vantagem (Uau. Que disputa bem contextualizada) . “A praça trouxe mesmo os jovens de volta ao teatro”, afirma o escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva, ele próprio um frequentador do local. Paiva tem uma teoria sobre isso. “A dramaturgia que surgiu com o Teatro de Arena nos anos 60 e apresentou peças em novo formato aproximou muita gente do teatro. Ela ficou esquecida por muito tempo e ressurgiu na praça” (Ó, dúvida cruel, a tática do Arena ou a da Brahma é que traz os jovens ao teatro?) , diz o escritor, que também é dramaturgo e ganhou um novo entusiasmo pela arte teatral graças à Roosevelt.
Quando Os Satyros se estabeleceram na praça, a temporada teatral da cidade se resumia às sessões dos fins de semana. (É mesmo? Quem disse?) “Até a quinta-feira havia sido abolida”, diz o diretor Ivam Cabral (Ah, o Ivan disse. Ufa, uma fonte isenta, imparcial.). Ele foi chamado de louco ao montar uma programação pouco usual, que não demorou a se estender para todos os dias da semana, em horários variados. Foi aí que teve uma ideia que se revelou genial: criar a sessão da meia-noite de sexta e sábado, o atual horário nobre da Roosevelt. Isso integrou o teatro à vida noturna da cidade. Assistir a uma peça no lugar passou a ser algo para fazer depois da happy hour e antes da festa, numa cidade cuja vida noturna começa por volta das duas da manhã. A sineta que lembra os pubs londrinos acabou se tornando uma marca registrada da praça. É ela que marca o sinal que antecede as peças.
São sete os teatros da Roosevelt — incluindo o novo que abre no dia 17 deste mês, batizado de Miniteatro e dirigido pela dramaturga Marília Toledo e pelo diretor Kleber Montanheiro. Mais do que garantir a sobrevivência dos grupos (quais?), atrair os jovens e se integrar à efervescente vida noturna da cidade, a praça Roosevelt é, acima de tudo, um grande ponto de encontro — onde artistas conhecem artistas e todos entram em contato com um público crescente que vai lá não apenas pelas peças, mas também pelo agito (Aqui a Gabriela foi boazinha. Se ela dissesse “vai lá não apenas pelo agito, mas, às vezes, pelas peças” ficaria mais fácil de acreditar). “A partir dos Satyros, a praça passou a reunir teatros e bares próximos uns aos outros, tornando-se um lugar propício ao encontro entre artistas e boêmios“, diz o veterano diretor José Celso Martinez Corrêa.
CONVERSA DE BAR: “quer dirigir? Quero!”
Se existe um mestre-de-cerimônias desse espaço onde atores buscam personagens e autores quem os encene, ele se chama Mário Bortolotto. (Estou me perguntando há dias se o Bortolotto está sabendo dessa frase!) O dramaturgo e diretor, fundador do grupo teatral Cemitério de Automóveis, reclama que a praça anda muito “crowdeada” (gíria anglófila para lotada), mas não sai de lá. (e dessa?) Está sempre em cartaz em seus teatros e bares (como faz pra ficar em cartaz no bar? É aquele palco dos Parlapatões?). Bortolotto faz da Roosevelt uma extensão de sua casa, que fica próxima. Diariamente, ou quase, encontra os amigos no Espaço Parlapatões, conversa e bebe. As noitadas não atrapalham sua produtividade. Considerado o principal herdeiro de Plínio Marcos, Bortolotto acha que a praça é importante até para seu trabalho como dramaturgo. “As pessoas com quem encontro e converso me inspiram”, afirma.
O outro grande agregador de gente da classe artística no local é o escritor Marcelo Rubens Paiva. No início, ele ia apenas para encontrar os amigos. Não demorou a ser fisgado pelo teatro. “Sou daqueles que vão e assistem”, afirma Paiva. Por causa da Roosevelt, ele se tornou diretor. “Encomendaram um texto a mim. Precisavam de um diretor. Aí, um dia, eu estava ali, no bar, olharam para minha cara e disseram: “Quer dirigir?” (taí uma história que tem tudo pra dar certo, não? Não?), conta ele, que atualmente está em cartaz no Sesc Avenida Paulista com A Noite mais Fria do Ano, peça da qual assina texto e direção, ao lado de Fernanda D’Umbra, outra assídua da praça. O elenco reúne vários de seus companheiros de bar: além de Bortolotto e Hugo Possolo, dos Parlapatões, os atores Paula Cohen e Alex Gruli. Ou seja, um típico caso de interação entre boemia e teatro. (hahahahahahahahaha)
Está longe de ser o único. A presença constante de Bortolotto, Paiva e vários outros diretores e dramaturgos atrai artistas que vão à praça para fazer networking (e, não perca, logo a frente, ela explica o que é networking), ou seja, conhecer gente e encontrar trabalho. Segundo a atriz Giovanna Velasco, da Cia. Satéllite, o burburinho do local rende contratos sobretudo para os que não estão procurando. “Ator mais novo, que se arruma todo para vir à Roosevelt na maior expectativa, geralmente volta para casa frustrado”, diz ela, que, graças às noitadas passadas na praça, conheceu a produtora de Os Descolados, uma nova série da MTV, e se integrou ao elenco. A atriz, que morou três anos na Espanha, compara a ebulição intelectual da Roosevelt à do bar Marsella, da Barcelona dos anos 50 do século 20, que era frequentado por Pablo Picasso, Salvador Dalí e outros artistas revolucionários. “Como na Roosevelt, ali nasceram inúmeros projetos. A boemia é um palco para a criação.”
O diretor Regis Trovão já admirava a arte feita pelos Satyros muito antes de começar a trabalhar com teatro. Ele se mudou para os arredores da praça no ano 2000 e acompanhou todo o renascimento da Roosevelt. A região que concentra o mercado financeiro, a chamada “City paulistana”, fica perto da praça — e Trovão, que trabalhava lá, ia quase que diariamente ao teatro depois do expediente. Um dia, encontrou Mário Bortolotto na calçada do La Barca, um dos bares da região, e expôs seu desejo de se tornar diretor de teatro. Ganhou a chance de sua vida: um convite para fazer assistência de direção de um texto de Bortolotto, A Frente Fria que a Chuva Traz (mais uma história com tudo pra dar certo, não?). “Frequentar a Roosevelt ajuda a carreira porque aqui você está num foco disseminador de trabalho”, diz ele, que por fim largou o emocionante mundo das finanças e mergulhou no teatro (tchibum).
Constantemente, as calçadas da Roosevelt exibem cenas surpreendentes, que poderiam estar dentro de suas salas de espetáculo. Como a ocorrida numa noite quente de março. Jovens, gente de meia-idade, senhoras e senhores dividem as mesas dos bares, com seus cabelos médios, curtos, compridos, pomposos, cheirosos, ensebados, raspados, espetados, de cores e texturas variadas (um oferecimento “Loreal, porque eu mereço!”). De repente, irrompem artistas vestidos de mendigos. Eles chamam atenção enquanto correm pela rua, com suas roupas esfarrapadas, balbuciando sons desconexos. Um deles para e se ajoelha no chão, obstruindo a passagem de um jovem tatuado, sem camisa. Atrás dele, uma família de negros é obrigada a diminuir o passo e contornar o performer. Por pouco não é atropelada por duas garotas emperiquitadas, que gargalham, concentradas na própria conversa. Até que um grito vindo do coração da praça rouba os olhares de todos: garotos são revistados pela Polícia Militar, corporação conhecida pela maneira pouco espalhafatosa com que faz esse tipo de coisa (grifo maldoso, não resisti: “dizendo nada em quatro palavras”).
Com tantos atrativos e emoções, a Roosevelt ganhou frequentadores habituais, que não são necessariamente os mesmos que vão ao teatro em outros lugares da cidade. Um deles é o jornalista Jacques da Costa Carvalho, que vai ao local diariamente — e, de tanto frequentá-lo, comprou um imóvel próximo dali. “Aqui convivo com todo tipo de gente, dos bairros chiques e humildes, passando por celebridades como o governador José Serra (depois que as pessoas elegem o Kassab e o Sarney, ninguém entende… celebridade é foda), a apresentadora Adriane Galisteu e a jornalista Marília Gabriela”, diz ele. A comerciária Graciela Monteserrat vai lá em busca de teatro e do ambiente festivo. Ela acha que há três tipos de público, os que só bebem, os que só vão ao teatro e os que fazem os dois programas (existe um quarto tipo: o que vai com a intenção de assistir a uma peça, toma a primeira, a segunda, a terceira e… “o que era mesmo que eu tinha vindo fazer aqui?”). (uau! Esses parênteses, sem dúvida, são a melhor parte da reportagem)
O logradouro paulistano, como a Ipanema carioca dos anos 60, já começa a inspirar músicas. O compositor Luiz Pinheiro, que já compôs para Cássia Eller, resolveu tornar a praça sua musa. Eis alguns dos versos de Na Praça Roosevelt, escrita em parceria com Edu Castanho e Vanessa Bumagny:
Na praça Roosevelt
transexual fica grávida
e menino chora
na barriga da mãe.
Na praça Roosevelt
coisas lindas passam com graça
na calçada dessa praça
que não é de Ipanema
mas devassa.
Na praça Roosevelt
tem cults, tem kilts.
Casais se beijam
sob a chuva
e nos teatros
atores jovens dados e maduros
atuam orgias
orgasmos e amores impuros.


BacanteS,
Depois dessa, descobri que amo vocês! Juli, porra, quero mais parênteses em outras notícias! Fabrício, porra, crítica lúcida demais a da peça.
Abrassssss
Meu sonho de consumo é uma auditoria na Praça Roosevelt… Mais precisamente no Satyros. E tb uma visita da vigilância sanitária e do corpo de bombeiros, especialmente no Satyros 2 (a missão?)…
Eu, como a Regina Duarte, tenho medo da tal revitalização da praça, ouvi dizer que os mendigos estão entrando com ação na Prefeitura de São Paulo para fechar os botecos-teatros da Roosevelt, o lugar anda muito mal frequentado e é ruim para os negócios da mendigagem!
HAUHAUHAUAH
É por isso que eu ODEIO ator.
falando em sujeira, relação estranha entre arte e política, desvio de foco, manipulação da opinião, marketing de ocasião, histeria e “interação entre boemia e teatro”, que tal celebrarmos a roosevelt assistindo Justine qq dia? apropriado.
texto foda, julie.
bjos
hhahahahaa.
Quanto à auditoria, morri de rir… Mas, sinceramente, não estou aqui “denunciando” ninguém da Roosevelt, nem me colocando contra o “movimento da boemia rooseveltiana”, nem chamando ninguém de desonesto, porque nem conheço as contas deles. Minhas críticas são bem objetivas à supervalozição do que acontece ali menosprezando movimentos mais incríveis em outras partes da cidade (grande parte deles graças ao fomento) e, sobretudo, a equívocos como dizer que eles a Roosevelt não precisa de verba públia e, portanto, é modelo de negócio inovador. Aí não dá. Mas, a propósito, você tem alguma quizumba particular ali nos Satyros 2 ou é só uma impressão, digamos, pela imagem?
Eu, sinceramente, acho que pros mendigos faz pouca diferença, já que o “movimento” nem é na praça em si, que, como eu disse, está freqüentemente alagada.
Ah. Compartilho contigo o medo de qualquer “revitalização”. Eu, hein.
E, falando em medo… Lucas, tenho medo dessa peça, hein! Será? rs Vamos marcar.
Bjos.
Juli =)
Boçais seus comentários, propagandistazinho.
Oi, Gabi, tudo bem? Vc queria falar com quem, hein? Será que foi linha cruzada?
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