Não é que a gente só leia a Folha, longe disso… mas tem coisas que não tem como ignorar, né?
O barraco que vc pode acompanhar por estes links (crítica / resposta – se vc não conseguir acessar o conteúdo privilegiado, escreva pra gente – contato@bacante.com.br) gastou uma boa parte de uma pobre árvore para chegar aos pobres compradores de jornal. É um desperdício. Mas, convenhamos, o nível da discussão é tão, tão, tão baixo, que acaba ficando irresistivelmente engraçado. Até a gente publicaria! (mesmo porque publicar aqui não gasta árvore, tinta, …) Aliás, a gente não só publicaria, como vai publicar, logo aí embaixo, porque em certos casos só dar o link não basta.
Neste caso, inclusive, pra você não ficar desolado diante dos argumentos apresentados por um lado e pelo outro, nós grifamos pra você as partes das quais você pode morrer de rir. Divirta-se!
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A CRÍTICA
Sorriso amarelo
Festival de stand-up comedy que lota um teatro de SP é um pacote mal embrulhado de humor de TV e muita redundância; só Angela Dip se salva, com “La Putanesca”
Pedro Molina/Divulgação
Marcela Leal, que está no ruim “Confissões de Acompanhantes”, um dos espetáculos da 1ª Mostra Paulista de Stand-Up Comedy
LUIZ FERNANDO RAMOS
CRÍTICO DA FOLHA
Rir é o melhor remédio e, em tempos de crise, o riso fácil pode valer ouro. Foi o que provou a primeira semana da 1ª Mostra Paulista de Stand-Up Comedy, em que os seis espetáculos programados lotaram o teatro Nair Bello, no shopping Frei Caneca, em São Paulo.
O evento reúne comediantes brasileiros que praticam o gênero consagrado pelos norte-americanos (o que explica o uso da expressão em inglês) em que um comediante solitário, de pé, diante de um microfone, sustenta com uma enxurrada de piadas ininterruptas a atenção do público. A proposta é “formar uma plateia atenta e assídua”, mas o que se vê é um pacote mal embrulhado de humor televisivo com doses alucinantes de redundância.
Durante o século 20, uma legião de comediantes norte-americanos formatou o modelo, alguns deles radicalizando nos temas tratados e ameaçando a ordem pública -caso de Lenny Bruce, que no início dos anos 60 chegou a ser preso por suas performances e foi perseguido até morrer, em 1965.
No Brasil, se ignorarmos os comediantes do Teatro de Revista, que desde o fim do século 19 faziam números solo na frente da cortina fechada para a troca de cenários, o pioneiro no formato foi José Vasconcelos, e comediantes como Chico Anysio e Jô Soares cansaram de lotar teatros com o gênero. Com a internet e o YouTube, uma nova geração lançou-se nessa prática, e hoje vive-se uma febre de consumo desse produto. Foi, provavelmente, pelas oportunidades desse mercado aquecido que se organizou a mostra.
“Confissões”
A estreia foi com “Confissões de Acompanhantes”, espetáculo feito à maneira do stand-up. A partir de criação de Newton Cannito e Roberto D’Avila, quatro atrizes fazem-se de prostitutas, alternando-se em solos diante do microfone.
É uma solução problemática, visto que, das quatro, só uma (Marcela Leal) é praticante do gênero. Curiosamente, seu desempenho é o mais fraco, considerando-se sua dificuldade em fazer o público rir. As outras três (Guta Ruiz, Maíra Dvorek e Rachel Ripani) viram-se como podem, sendo que a mais talentosa, Dvorek, é a que obtém os melhores resultados.
“Nocaute”, de Marcelo Mansfield, é um clássico do stand-up brasileiro. Mansfield vem desenvolvendo essa especialidade desde meados da década de 80. Não deixa de ser melancólico vê-lo abandonando o estilo elegante e sutil, de quando surgiu na cena cult paulistana, para abraçar uma escatologia mais rasgada.
O stand-up pode ser demolidor quando há uma exposição sincera dos próprios demônios e um exame cáustico das misérias humanas. Mansfield chega perto, mas logo descamba para comentários banais sobre “personalidades” baratas da TV.
“Hã?!” trouxe o curitibano Diogo Portugal, criador do Clube da Comédia e um dos mais renomados entre os humoristas que surfam na atual onda. De uma geração intermediária, entre Mansfield e os mais jovens, seu sítio na internet (diogoportugal.com.br) é um campeão de visitas. Mesmo respeitando o princípio da autoironia, ele opta pela mediocridade na busca do riso farto. Sustenta-se com velhos truques de provocação do público e piadas sujas de homossexuais que soam anacrônicas. O máximo de transgressão que consegue é trair o gênero e tocar no violão, ao final, uma canção jocosa sobre o amor gay.
“Papo Furado” traz Fernando Caruso, um dos praticantes mais jovens que, na combinação com aparições em humorísticos de TV, vem atraindo público aos teatros para vê-lo ao vivo. Ator premiado no Rio e integrante do grupo carioca Comédia em Pé, decepciona. Aparentemente despretensioso, centra sua apresentação num desfiar de maledicências sobre nomes da MPB, o que soa arrogante e oportunista. Não que o humor do gênero não tenha que ser corrosivo, mas, de preferência, a partir das próprias mazelas. Seu espezinhar de celebridades soa como um chutar cachorros mortos.
“Fora do Normal” dá sequência à exibição dos jovens atores que combinam TV e teatro para popularizar o stand-up. Fábio Porchat é um talento histriônico. Sanguíneo e quase histérico, usa mais o corpo que o colega do Comédia em Pé. Seu desempenho é mais interessante porque trabalha pouco com baixarias escatológicas e muito com experiências no cotidiano, de que se serve com inteligência. De modo geral, encarna o espírito do stand-up, ou seja, um olhar aguçado que transforma tudo o que toca em piada, ainda que aos berros.
Estranha no ninho
“La Putanesca”, de Angela Dip, traz uma atriz experiente em espetáculos solo, que evoca a tradição de performers americanas, como Karen Finley, Peggy Shaw e Penny Arcade. Partindo da autoexposição desabrida para ir além da pura piada, transgride os padrões do gênero e os transborda. Concede à temática sexual os trocadilhos habituais, mas o faz de um ponto de vista feminino particular, quase lírico. O público chega a estranhar, mas acaba se entregando ao riso, cativado pela autenticidade do que se apresenta. Permitindo encenar para além dos estreitos limites formais da stand-up comedy, com marcações de luz e de som, Dip é quem melhor atualiza o espírito deste formato.
De fato, a 1ª Mostra Paulista de Stand-Up Comedy alterna diferentes estilos de incitar risadas de modo rasteiro e despertar os piores instintos das plateias. Mais honesto seria admitir que, a despeito do sucesso de bilheteria, ela deforma públicos para o teatro.
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Contagem final da Bacante:
- Pelo menos 5 vezes a palavra “praticante”.
- Pelo menos 10 expressões muito comumente usadas pela minha avó, sem o atenuante de usar junto a nenhuma delas, uma frase sincera do tipo “como diria minha avó…”
- Pelo menos 5 adjetivos esquisitos, impossíveis de relacionar ao contexto ou impossíveis de relacionar a qualquer contexto.
- Alguém me explica a expressão: “atualizar o espírito”? Seria um evento religioso?
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A RÉPLICA
Teatro/réplica
Deformar o público é tarefa nobre para uma peça de vanguarda
Em resposta a Luiz Fernando Ramos, o autor Newton Cannito defende stand-up e diz que crítico trata plateia “como criança”
NEWTON CANNITO
ESPECIAL PARA A FOLHA
A matéria de capa do caderno Ilustrada de 27 de janeiro, com o título “Sorriso amarelo”, é um alerta para os leitores do jornal: “A 1ª Mostra de Stand-Up Comedy, apesar do sucesso de público, deforma o público de teatro”. Os leitores do jornal imaginam que um festival na capa da Ilustrada é sinal de vitalidade e sucesso. Não me lembro de ver stand-up na capa da Ilustrada, ou de ver teatro na capa para ser criticado! É claro que o crítico pode não gostar das peças. É seu direito. Assim como é direito de qualquer leitor não gostar de um crítico. Por coincidência, não gosto nada das coisas que Luiz Fernando Ramos escreve. Suas aulas e críticas me parecem valorizar a “vanguarda parada no tempo”, a vanguarda que ficou na retaguarda.
Para falar de gente como ele, me vem a frase: “Tudo muda, menos a vanguarda!”. Mas, mesmo não gostando de seu trabalho, jamais diria que ele “deforma” o leitor. Deforma em relação a quê? Imagino que ele queira dizer que as peças de stand-up exibidas na mostra deformam o público para o teatro “de verdade”, o teatro chato e pretensioso, que ele costuma elogiar. Aquele teatro que tem afastado o público há anos! O crítico deveria saber que deformar o público é uma tarefa nobre para uma peça de vanguarda. A arte existe para transformar o público.
A 1ª Mostra Paulista de Stand-Up Comedy mostra que teatro pode ser outra coisa. Que teatro também tem alegria. Que teatro é algo simples, que pode ser feito só com um banquinho e sem efeitos de luz. Que teatro pode ser despretensioso. E isso tem feito grande sucesso. Como isso pode deformar o público? Parece-me que Ramos tem medo é de que o público, deformado pela alegria, deixe de ver as peças soturnas e entediantes que ele tanto ama. É… Tudo muda, menos a vanguarda! O que essa mostra e o pessoal de stand-up estão fazendo é trazer gente nova ao teatro.
Um público mais jovem e que percebe que não existe separação entre alegria, crítica e pensamento. E vem trazendo também novos atores e criadores. Gente que circula pela televisão, sem deixar de ser alternativa. Gente que superou essa falsa dicotomia entre indústria cultural e contracultura. Que consegue atuar para grandes públicos e também fazer coisas underground. O pessoal de stand-up está fazendo um teatro que vai conquistar o público e abrir novas frentes. Até as críticas do Ramos vão perder importância.
Até a Folha vai ter que renovar seus críticos. Uma nova era está chegando.
Considero a crítica uma atividade fundamental, pois ajuda o público a escolher um espetáculo e a se aprofundar em seu entendimento. Mas a boa crítica, em vez de fazer julgamentos moralistas, dialoga com o espetáculo e com o público. A crítica de Ramos não faz nada disso. Ele julga o stand-up a partir do padrão do monólogo teatral. Não tem nada a ver. Ramos compara pera com maçã e trata o público como uma criança que pode ser deformada por artistas que querem “despertar seus piores instintos”. É uma pena que seja assim. Pois quando a crítica ignora o público, o público também começa a ignorar a crítica. É o que tem acontecido na mostra, que, mesmo após a “denúncia” de Ramos na capa da Ilustrada, continua lotando o teatro em horários alternativos, mostrando que há um público ansioso por ser “deformado”.
NEWTON CANNITO é, ao lado de Roberto D’Avila, criador e diretor-geral do espetáculo “Confissões de Acompanhantes”. É também criador e roteirista-chefe do seriado “9 MM: São Paulo“, exibido no canal Fox.
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Contagem final da Bacante:
- pelo menos 5 vezes a palavra “gosto”, no sentido de preferências pessoais, num contexto, no mínimo, equivocado
- pelo menos 7 profecias
- pelo menos 10 premissas totalmente furadas sobre arte, teatro, alegria, crítica, importância da Folha, etc.
- muita mágoa no coração.
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Pois é. E meu pai ainda me pergunta por que eu não escrevo pra um jornal…



Nossa, o que viria a ser um ator/comediante “sanguíneo”? Um Vampiro?
E esse dupla identidade de “gente que circula pela televisão, sem deixar de ser alternativa”, algo como o complexo biômio Batman, Bruce Wayne?
É, querido Aston, também não sei… aliás, sugiro que façamos uma listinha das nossas muitas perguntas e enviemos à Folha para que encaminhe aos autores, que tal? Inclusive, os pedidos de esclarecimento podem começar com: “por favor, dicorra com mais detalhes sobre _____________________”. rssss
O post matou a pau. E eu digo isso principalmente porque escrevo para jornal.
Abs!
Oi, Lucas…
Foi por pressão do teu pai?
Bjos.
Juli =)
As árveres somos nozes?