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Archive for Festivais

Ciro Gomes em Guaramiranga

Estou de saída pro almoço e descubro que Ciro Gomes está em Guaramiranga, para apoiar a reeleição do atual prefeito da cidade. Por um azar tremendo, quando chego à praça o homi está partindo.

Não deu tempo de perguntar como foi que ele pegou a Patrícia Pillar. Fica pruma próxima.

Segunda à noite, em Guaramiranga

Na segunda-feira, perdi todos os espetáculos da tarde em Guaramiranga, por achar obrigatório reler O Alienista pra poder escrever sobre a adaptação do Dimenti. Ainda não consegui acompanhar nenhuma peça na Tenda que foi montada para a Mostra Sesc Menino Cariri.

Mesmo assim, à noite, revi o Muito Barulho por Quase Nada, dos Clowns de Shakespeare e conferi alguns pontos-chave pra compreender a recepção do público em Guaramiranga.

1 - Conte com os morcegos. Em O Alienista eles apareceram somente duas vezes, tornando-se não mais que figurantes. Em Muito Barulho por Quase Nada eles já eram personagens secundários, buscando o seu monólogo, quase como o distanciamento crítico da natureza. Até o final do Festival, quero ver um grupo que explore mais esses atores sem cachê.

2 - A acústica é uma guerra. O teatro Raquel de Queiroz tem acústica tão boa quanto a Catedral da Sé em dia de missa. Tudo ecoa e reverbera pra qualquer lugar, inclusive os ouvidos do público, mas essa não é a regra. Acho que os Clowns de Shakespeare venceram essa batalha. Já o espetáculo do Dimenti teve muitos trechos incompreensíveis. Todos os grupos do festival e a própria organização sabem que será necessário fazer reformas nesse teatro. O que sugiro que se faça também fissuras. Maneiras dessa caixa escura se abrir. O teatro, em Guaramiranga, ocupa posição mais central do que a das igrejas, sendo que a cidade tem pouco mais de 5 mil habitantes e menos de 3 mil na área urbana. É praticamente a mini-meca do teatro. Portanto esse prédio tem que dialogar mais com questões da cidade e sua arquitetura não pode querer copiar o que se vê nos circuitos comerciais das grandes capitais. Não indico nenhum caminho, mas não escolheria o do palco italiano.

3 - Cadeiras, daquelas que você tem na sua casa, em lugar de poltronas. É muito melhor, deve-se dizer. Todo o rangido de poltronas vai embora, fora que a Coelce consegue mais um espaço de divulgação em coberturas inúteis para as cadeiras, portanto mostra-se a contrapartida ao patrocinador e deve ser super fácil de guardá-las.

Aprovado.

4 - Peças com apelo popular têm uma receptividade que não se encontra em qualquer festival internacional. Ao fim da apresentação dos Clowns teve grito, choro, fotos e muitos, mas muitos aplausos verdadeiros, em que as pessoas se levantam porque querem bater palmas mais forte e mais alto que o da frente.

Ainda o primeiro dia

Já está em destaque a crítica (será que é uma crítica?) do espetáculo O Alienista, que vi no primeiro dia do FNT de Guaramiranga. No entanto, houve ainda mais 4 espetáculos no mesmo dia, dos quais acompanhei apenas três. Mando abaixo um breve relato destes, sem qualquer pretensão de criticar.

Falsa Testemunha - Grupo Sincronia
Excepcional expressão do teatro amador (novamente no clichê de quem ama o teatro), ficava claro que ninguém daquele grupo se preocupava com uma forma mercadoria. Não há, nesse espetáculo, uma vontade de rodar pelo país, um ímpeto de profissionalização e esse é o contraponto necessário na programação do festival.

Roubou a atenção uma senhora que parecia ter no seu gestual e nos seus traços todo nordeste encarnado. Ela conseguiu não respeitar nenhuma marcação. Parecia que zanzava pelo espaço cênico, enquanto outros atores se esforçavam absurdamente para fazer um exercício de verossimilhança.

Ela falava consigo mesma, repetia falas, fazia uma faxineira que era extremamente indomável. Na criatividade e na leveza do estar no palco, lembrei do muito que se perde quando se quer fazer parte do “circuito”, ou, pra dizer nas palavras mais certeiras, pra fazer parte do mercado.

Um drama mal ajambrado que interessava muito mais pela presença dos atores do que por qualquer tentativa de interpretação. Legítimo teatro amador.

Quem matou Zefinha - Trupe Caba de Chegar de Teatro
Um espetáculo de rua que tem 18 anos, Quem matou Zefinha lembra a Comédia do Trabalho da Cia. do Latão. Altamente crítico, fala do cotidiano de um casal pobre na luta para conseguir e manter a sua casa própria.

Primeira peça de rua que vi do festival, explorou muito a pulsação do público que, como esperava, responde com muito calor a todas as peças do festival.

Impagável a cena em que o proletário se encontra com a morte, e essa diz que veio buscar algumas crianças de Guaramiranga. Nunca vi um grupo ser tão cruelmente verdadeiro com a criançada.

A Filha do Pai - Cia Fabril de Guaramiranga
Mais um espetáculo amador que chega ao público pelas vias mais despretensiosas. Encenado no teatrinho (é esse realmente o nome no programa), o trabalho é um drama familiar de uma menina sem mãe, com seu pai durão e suas amigas fúteis. Novamente, a historinha encanta muito menos do que a presença absolutamente imatura, portanto rejuvenescedora, dos atores no espaço cênico.

Esses grupos de Guaramiranga têm que tomar as ruas. Essa cidade merece que sua tradição teatral não fique enfurnada em caixas escuras para atrair a atenção. Vejo um ímpeto de participação que não vejo em muitos grupos amadores e não acho que isso combine com essa forma burguesa de fazer teatro.

Chegando ao Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga

Foi nesse domingo ressaquento, 14, que saí de uma São Paulo chuvosa e cheguei numa Fortaleza redundantemente quente.

Na van em que fui até Guaramiranga, encontrei integrantes do grupo Bagaceira. Pra quem não lembra, é o povo do Lesados, que vai estrear uma nova peça aqui no Festival Nacional - isso não costuma dar muito certo, mas vamos conferir.

O caminho entre Fortaleza e Guaramiranga é um retrato daquele nordeste de que a gente ouve falar, mas que aqui não é clichê. Tudo muito seco - será que estou na Caatinga? Não lembro mais nada das minhas aulas de geografia - e muito “politizado”. A imensa maioria dos muros que davam para a estrada estavam cobertos de infinitos números de candidatos à vereador e à prefeito de cada um das cidades por que passamos. Mesmo nas casas mais humildes e em estado de deterioração, lá estavam as inscrições. Os políticos dessas cidades parecem não saber nada de marketing. Precisam ver fotos do Cingapura.

Até que começamos subir a serra. Eu também achei estranho quando li que a cidade ficava na serra cearense. Mas lás estávamos num serra verde e nada seca, subindo, subindo, subindo…

Chegando em Guaramiranga descubro que a bóia é completa: café, almoço e janta. Lembro dos amigos que me perguntavam “só no come, dorme?”. Num só dia de cobertura já vi que a coisa não vai ser bem assim.

Assentado no que parece ser um antigo mosteiro da cidade, encontro com a jornalista do O Povo, jornal cearense apoiador do festival, Angélica Feitosa, que relatou como foi a apresentação de Por Elise do Espanca no dia anterior.

Acabou-se a luz no meio da apresentação e os atores tiveram de repetir uma cena. Achei um interessante distanciamento crítico, tendo em vista que a Coelce, Companhia Elétrica do Ceará, é uma das patrocinadoras do festival. É o teatro mostrando que todos somos falíveis.

O segundo fato inusitado do dia foi verificar que, por mais que a Oi seja a segunda patrocinadora do evento, nenhum dos três telefones públicos que utilizei pra ligar a São Paulo efetuou a conexão. Deve ser porque eu usei o 15 e o 21 - espero.

E vamos ao que interessa, que quem pensou que havia poucas peças (eu) se enganou. São mais de 40 espetáculos, entre amadores e profissionais. Hoje tem crítica e durante a semana, bem, deve ter muito mais.

Ps: Aqui eles bebem vinho. Muito chique. A conferir.

Depois de Coçando o Saccro

A nova esquete do Olaria Grandes Bosta foi apresentada na Palhaçada Geral dos Parlapatões.
Altamente recomendável.

O surdo e os gestos universais

Direto da 14ª MOSTRA ESTADUAL DE TEATRO E DANÇA DA PARAÍBA

O monólogo, quase performance Dona Dora foi depois do Bar do Teatro . Bom, começou, até que as piadas estavam legais, no tempo certo. Mas mesmo nas coisas mais sem graça tipo, “gente eu estou na idade do condor… com dor aqui, com dor ali”, tinha um cabinha que só faltava se virar na cadeira de tanto rir. Era cada gaitada.

Aquilo não era normal. “Meu filho tem o quê, hein?”. O cara era surdo. Mas ele tava sacando tudo – como é que eu não sei. Teve uma hora que a dona Dora começou a dizer: “aí eu sou muito caridosa. Os menino da minha rua tudo fazia fila lá em casa, de 14, até 16 anos”. O surdo começou a dar a gaitada dele e a fazer o mesmo gesto que o Jair Rodrigues faz quando canta “que diga que pense que fale, deixa isso pra lá…”.

Mambembão muito louco

Direto da 14ª MOSTRA ESTADUAL DE TEATRO E DANÇA DA PARAÍBA

“Pô, muito maneiro isso. Mambembão muito do louco”.

Era um tiozinho. Tava melado, melaaaaado. (Bacantes, entenderam né? Melado, alto, queimado, cheio de Bardal, pau d’água, sem poder dirigir o carro…).

Ele se colocou do meu lado. Estava com outro tio, melado igualmente.

Víamos “Quem Casa Quer Lona”, da Cia Lua Crescente, direção de Duílio Cunha, na chamada Praça da Gala (alô, Clowns de Shakespeare) em frente ao teatro Santa Rosa, em João Pessoa.

Festivais e Crítica

Festival não é apenas um monte de peça junta, já alertava minha avó. Mais do que apenas promover maratonas malucas de peças malucas em horários malucos, é preciso que haja algum tipo de sistematização de trocas de informações e, sobretudo, de experiências e vivências (não da minha avó, dos participantes mesmo).

Nesse sentido, em minha primeira participação do FIT Rio Preto, logo de cara me chamou a atenção o fato de que (quase) todo mundo fica no mesmo hotel, afastado de tudo (quase porque tem uma turma que fica num hotel menor, porque haja quarto pra tanta gente), numa espécie de distanciamento (brechtiano?) do cotidiano da cidade com o mundo do teatro.

À medida em que os dias são menos produtivos (porque é preciso sair mais cedo, e chegar mais tarde em função dos muitos ônibus escolares à disposição do festival), o contato forçado com grupos, críticos, jornalistas e equipe técnica estabelece relações mínimas entre o “povinho” do teatro. Café da manhã, almoço, jantar e esperas na recepção são sempre bons momentos pra jogar conversa fora.

Mas não é só de clima de country club que vive um festival, e nisso outra coisa no FIT me chamou a atenção: há uma turma de acadêmicos de diversas regiões do país acompanhando todas as peças e escrevendo ensaios críticos para o Textura, o jornalzinho do festival, que diariamente é distribuído em todos os locais do festival - e as pessoas lêem! E comentam! Poderia ser escrito por mais gente, não precisava ser apenas de acadêmicos e poderia haver mais páginas. Mas até aí as leis de incentivo à cultura desse país também poderiam ser mais sérias e dispor de mais grana, mas como diria mais uma vez a vovó (a minha, não a Barbara), não dá pra querer tudo na vida, né meu filho?

Há ainda aquilo que acho uma das coisas mais bacanas e mais sub-aproveitadas do FIT: os debates da Aldeia FIT. Todos os 10 espetáculos locais de Rio Preto têm um espaço na grade do festival para que haja debates abertos sobre as produções. Debate é forma de dizer, porque nos 45 minutos destinados a cada espetáculo, mal dá tempo do grupo se apresentar, Marici Salomão e Francisco Medeiros fazerem suas considerações críticas e o grupo fazer um breve comentário, e já é hora de mandar beijinho pra mamãe, pro papai e pra Sasha. Há quase nada de debate, e a troca é mínima, quase professoral. Ideal mesmo seria se tivesse tempo para maior debate entre  os envolvidos e, principalmente, trazendo e estimulando a participação do público.

E uma pergunta: por quê apenas os grupos da Aldeia FIT têm esse tipo de atividade? Pra trazer pra aldeia uma visão externa do que é fazer teatro? Por quê não encontros de discussão crítica para que público, críticos e artistas não discutam, por exemplo, se o fato do personagem do infantil Mimo limpar a bunda com uma página arrancada de um livro é ou não anti-pedagógico, ou se o Kavka do Lume não se comunica com a platéia de propósito ou porque a platéia não entende de contorcionismo e teatro físico?

De qualquer forma, percebe-se a Aldeia FIT como uma das grandes apostas do FIT, e ao mesmo tempo um desafio: como, nas próximas edições, encontrar maneiras de potencializar estes encontros e trocas, sem correr o risco de, aos poucos, se assemelhar ao Fringe de Curitiba (bate na madeira)?

(Leia também o especial de Juliene Codognotto sobre o FIT 2008)

Conversa de Imprensa

- Vocês vão ao teatro desse jeito?

- Vamos sim, qual o problema?

- Mulambentos desse jeito?

- Ah, verdade. Espera que vou subir e colocar meu longo.

No último dia

Foram dois dias intensos de Festival Internacional de São José do Rio Preto. Esse ano não fomos tão travessos quanto no ano passado, como vocês poderão ver na matéria que será publicada logo mais.

No entanto, depois de um ano de cobertura de festivais, fica uma sensação de que é hora de propor mais provocações. Colocar mais estruturas em crise. Criticar e fazer humor, que é pra isso que existimos.

Ao final dessas 48 horas, uma única mácula precisa ser registrada. Não pelo fato em si, mas para se pensar de maneira mais ampla a que ou a quem servem os festivais.

Na noite de domingo, dia 13 de julho, esperávamos, eu e Juliene, na porta do Teatro Seta, que todas as pessoas entrassem para assistir a peça Habeas Corpus, pra que pudéssemos ver se sobravam lugares vagos. Na nossa frente, pelo menos seis pessoas faziam o mesmo.

Entra todo o público que já tinha lugar garantido, hora da peça, e uma moça de cabelos cacheados nos diz que há lugares vagos, mas que foi instruída pela organização do festival para não deixar ninguém que não tivesse ingressos nem convites entrar. A instrução, aliás, teria sido reforçada em reunião naquele mesmo dia. Ou seja, a peça foi apresentada sem que a sala tivesse a capacidade máxima ocupada por conta de uma burocracia imposta pelo festival?

Acho impossível que ela tenha recebido tal orientação da organização do festival. Não era o que acontecia na porta de todos os outros teatros. E fica claro que a moça que estava na porta do Seta não tem idéia de que o que ela faz ali é um serviço público. Ela atende uma demanda pública.

As verbas dos festivais, sobretudo os internacionais, são captadas por meio de Lei Rouanet e parcerias. É necessário relembrar que essa lei é uma aberração, que dá poderes aos bocós do “marketing cultural” de algumas empresas para escolher que evento cultural merece verba, óbvio, não por seu abnegado amor à arte, mas pelo critério do retorno midiático. Essa lei é uma omissão do governo brasileiro de se comprometer efetivamente com políticas públicas que incentivem a pluralidade e que ajudem a construir, desenvolver e preservar a cultura do nosso país e sua diversidade intrínseca, que, muitas vezes, não é vendável ou mercadológica, nem dá ao patrocinador espaço nos principais jornais. Claro que projetos incríveis, lindos e maravilhosos só se realizam submetendo-se a essa lei, mas isso por si só não a justifica, já que não estamos falando de deixar de destinar verba para a cultura, mas de planejar a destinação. Voltando aos cachinhos dourados, a moça tem que saber que a verba que bancava o seu trabalho ali naquele lugar é pública, para atender uma demanda pública da qual, aliás, o festival não consegue dar conta, o que é, isso sim, absolutamente compreensível. Também deveria saber disso o público que vai ao teatro e é obrigado a ouvir que não pode nem pagar por um lugar que está vazio.

Não acho exagero dizer que, ao negar lugares vagos dentro do teatro, a moça fez o mesmo que, como médica, não vacinar crianças que não tivessem carteira de vacinação. Fez o mesmo que, como policial, ver um crime acontecendo e não fazer nada por não ter ordem da central de polícia. A peça que ali se apresentava é um bem público, o ônibus utilizado na peça - ao que nos consta - é público, a demanda atendida pelo festival é pública, com dinheiro público, portanto há que se pensar em como atender ao público da maneira mais plena e efetiva.

Em dois anos de festival, como convidados ou como intrusos, essa foi a primeira peça que não conseguimos assistir. Por sorte, Maurício já tinha um convite de imprensa e não esbarrou nos cachinhos dourados, mas as seis pessoas que estavam na nossa frente e tinham inclusive mais direito que o Maurício de assistir a peça, não tiveram a mesma sorte. A crítica da peça está publicada aqui.

(Leia também o especial de Juliene Codognotto sobre o FIT 2008) 

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