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Espaços fechados da subjetividade do indivíduo

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 24 July 2009

Além das peças, do já conhecido Não-Lugar e do debate sobre as peças selecionadas para o Aldeia FIT, a edição 2009 trouxe como novidade outro formato de encontro: os Open Space. A proposta é que a coisa funcione mais ou menos como relatamos que funcionou o Próximo Ato, com a diferença de que o Próximo Ato só podia gente “de teatro”, no FIT era pra ser aberto ao púbico. Quarta-feira, dia 22, aconteceu o primeiro deles, Subjetividade nos processos coletivos de criação, embora sem a presença de nenhum grupo que fizesse realmente um trabalho coletivo de criação. Logo mais, começará o segundo, Fruição subjetiva e leitura crítica, com os jornalistas e críticos hospedados no Hotel Michelangelo.

Então, vamos tratar do primeiro. O espaço reservado no Senac era formado por cadeiras em dois círculos, um dentro do outro. No círculo de dentro sentaram-se os participantes-artistas, a saber: Georgette Fadel e Isabel Teixeira (Rainhas [(s)], duas atrizes em busca de um coração); Susana Ribeiro (Esta propriedade está condenada); Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Simone Mazzer, Simone Vianna, Thales Coutinho, Verônica Rocha (Inveja dos Anjos); Eduardo Okamoto (Eldorado), e Enrique Diaz; o mediador Cassiano Quilici; e dois jornalistas.

Começamos poucos. Os artistas na roda de dentro, os demais na roda de fora. O mediador explica, então, o funcionamento do open space – definiríamos temas, nos dividiríamos e discutiríamos em grupos para depois reunir novamente as questões discutidas. Já começam as pérolas. Luis Fernando Ramos sugere: “também podemos decidir ficar todos juntos aqui, em vez de dividir em grupos, afinal as questões não são tão abrangentes”. Oi? Quais questões? Achei que a gente ainda nem tinha decidido quais eram as questões.

Muito bem. Define-se, então, já que ninguém se opôs, uma mesa-redonda sobre a subjetividade do ator-criador. Os dos círculos de fora assistem, os do círculo de dentro conversam. E nesse tema ficamos por horas. É preciso deixar claro que a conversa fluiu muito bem (muito melhor do que na maioria das mesas-redondas) e que não houve qualquer impedimento formal para que alguém dos círculos de fora falasse também. Era apenas um impedimento subjetivo mesmo.

Enrique Diaz começa retomando um tema: o teatro é narcísico ao partir da própria experiência nas peças? Cansado de ouvir essa pergunta, ele já tem um discurso meio padronizado, já que agora a moda é dizer que o jeito auto-referente da Cia dos Atores de fazer teatro está “se esgotando”. (Sempre que ouço essa expressão, imagino a tal coisa escorrendo num ralo) Sobre isso, ele diz que o teatro é a experiência prática que aqueles profissionais têm e que se querem falar de algo, têm que falar de sua experiência, “ainda que façamos isso mal e porcamente”, brinca. “Qual a diferença de uma leitura que parte da minha experiência de uma leitura baseada em um texto supostamente original, mas que é sempre a partir de algum ‘cânone’?” [por conta das traduções, principalmente].

A partir disso, vem à tona uma discussão sobre os processos criativos de cada uma das montagens ali representadas. Isabel Teixeira é a que mais explicita as angústias da criação de Rainhas e, felizmente, seu discurso bastante auto-centrado é quebrado pela fala espontânea de Georgette e pelas piadas de Enrique Diaz, em tiradas clownescas do tipo “ah, relaxa, Bel, um analista resolve isso”. E, falando em analista, ficamos sabendo ainda que a terapeuta da Georgette é uma índia chamada Socorro e que foi no consultório da Socorro que se definiu a personagem Elizabeth. Subjetivo, né?

Ouvimos bastante tempo os artistas contando como é expor sua subjetividade, virar-se do avesso no palco e se doar à cena, etc. Mas o conflito vem, na minha percepção em dois pontos principais: o primeiro é o colocar essa tal subjetividade em relação – em relação com o grupo, com o autor da peça, com o público, a mídia, as influências divinas e o mundo lá fora da sala de ensaio. O segundo ponto é a tendência de tudo se tornar proibitivo: “não posso falar da subjetividade porque se não vai achar que eu estou desconectado do resto”; “não posso falar da minha conexão com Dionísio, se não vão dizer que é macumba”.

O primeiro ponto é extremamente relevante para não confundirmos, conforme alertou Cassiano, subjetividade com identidade e, conforme percebi, subjetividade com individualidade. A subjetividade, sobretudo no teatro, está também no coletivo e sempre colocada em relação a muitos outros, desde a criação até a apresentação. Ficamos muito tempo ouvindo sobre as subjetividades dos atores durante o processo e suas dificuldades de criação e, por outro lado, falamos pouco do conjunto que se construiu a partir da subjetividade do grupo colocado em relação com a subjetividade do público. E fica claro que, para aqueles artistas ali presentes, a estreia é, na maioria das vezes, o primeiro contato com o público sobre aquele objeto de pesquisa artística. Então, a subjetividade do público assusta. E o público também é pego de surpresa. Isso acontece porque se descolou palco de plateia e os processos subjetivos dessa dita “criação coletiva” são realizados, experimentados, pensados a anos-luz de distância de quem irá “fruí-los subjetivamente”, quase que em outro universo mesmo: o universo da arte, meio que pairando sobre a sociedade.

Patrícia, do Armazém, conta, por exemplo, que houve cenas na estreia da montagem de Toda nudez será castigada em que ela se surpreendeu com o riso do público em um momento que ela, imersa na criação, não achava divertido. Georgette, por outro lado, viveu outra experiência interessante, a peça da Companhia São Jorge, Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está, precisa se mexer, teve as recepções mais variadas possível. Segundo Georgette era impossível definir um perfil de pessoas que gostavam ou que não gostavam da peça. A atriz se vê, no momento, fazendo teatro para camadas, fatias, mas sem saber exatamente com que público as montagens vão se comunicar, porque não há critérios objetivos para definir esse perfil.

Em dado momento, Enrique Diaz sugere que talvez o teatro esteja num momento de exagero da subjetivação do ator (exposta nas brincadeiras típicas de entrar e sair do personagem em cena, por exemplo) que seria parte de um processo futuro que ele chama de construção da desidentidade, em que os atores se livrariam da identidade e, inclusive, não haveria de fato diferença entre estar ou não interpretando. Outra pessoa sugere uma relação com a ideia de dessubjetivação, que consiste em considerar que há algo coletivo que está além do indivíduo, por mais que ele afirme sua subjetividade. Cassiano, o mediador, cita Deleuze pra dizer que o ser humano tem uma necessidade periódica de “rações de subjetividade”. Penso: será que nossa dose dessa ração está em medida razoável?

O fato é que o bate-papo se restringe bastante às salas de ensaio e aos processos de criação fechados no próprio grupo, ou seja, uma subjetividade colocada em relação, sim, mas em relação com outros artistas somente. E, então, na estreia, oferecida ao público. E, depois, resta apenas ficar “atento” às reações do público. Cibele Forjaz, por exemplo, faz questão de ficar em meio à plateia pra olhar efusivamente para quem assiste. Mas nesse ponto, é irresistível citar Enrique Diz, que afirma que não faz teatro a partir de uma demanda do público: “Quem vir assistir, venha, mas não enche o saco”. E, com relação a por quem e pra quem o teatro é feito historicamente, vale a pena ler o que pensam Iná Camargo Costa e Moreira nesse post aqui.

Para finalizar, em grande estilo, depois de ter dito no meio do debate: “Estou enviando uma mensagem pra uma pessoa dizendo: A Bel não pára de falar, o que eu faço com ela?”, e ainda ter explicado que ele também precisa pensar em ter um carrinho e um plano de saúde, Enrique Diaz, eleito o mais bem humorado do debate, encerra: “Não agüento mais falar em subjetividade! Puta que pariu!”.

E você, o que acha?

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