O 17º Festival de Curitiba começa dia 20 de março e vai até o dia 30, com 283 peças, tanto da mostra Contemporânea quanto do Fringe – sendo a grande maioria, 251, do Fringe. No release recebido no kit de imprensa, tem uma página só pra falar dos números – 184.174 lugares disponíveis, 181.623 ingressos à venda, 1067 apresentações, 62 espaços, cerca de 1500 artistas e técnicos envolvidos no evento, entre outros números que lembram aqueles das divulgações de musicais da broadway-wannabe paulistana.
Agora que já passei os dados oficiais, vamos para os bastidores. Pela primeira vez a Bacante é convidada para cobrir um festival com todas as mordomias (porque na cara-de-pau, sempre damos um jeito de viajar por esse brazilzão de meu deus): com direito a passagem de avião, comida e hotel – tá certo que os outros três editores virão de ônibus e pedirão abrigo para parentes distantes, mas a emoção ainda faz parte da revista. Não é porque as coisas começam a ficar chique que vamos renegar as origens, não é mesmo? Com isso, já estou aqui no Paraná desde o dia 18, quando teve uma festinha para convidados – com direito a espumante, cerveja, quitutes (alguns jornalistas vegetarianos sofreram um pouco e foram comer uma pizza depois do evento) e a Orquestra Imperial.
Na quarta-feira, dia 19, começaram as coletivas. Conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que ano passado não teve quase nenhuma, e esse ano é uma das novidades para a mídia. Tá certo que é meio difícil sair do senso comum das perguntas sem antes ter visto o espetáculo, mas algumas peças até deram vontade de ver… outras de cancelar o ingresso.
A primeira coletiva do dia tinha sete jornalistas e foi com o pessoal da peça Volúpia, da Cia. Carona. O grupo de Blumenau contou como foi importante para eles participar do Fringe no ano passado, quando estrearam segunda-feira à meia-noite, e tinha pouquíssimas pessoas na platéia. A sorte deles foi que uma delas era um crítico da Folha, que gostou. (Aê, Folha!). Um jornalista perguntou se eles imaginam que o espetáculo deva chocar a platéia em Curitiba. A resposta do diretor Pépe Sedrez foi: “Pelo título, a peça parece ser mais chocante do que é.” Vamos ver… ou não.
Já a segunda coletiva, a mais pop do dia, com 10 jornalistas na platéia e câmera de vídeo, foi a do diretor do grupo Os Satyros, Rodolfo García Vàzquez, velho conhecido da mídia de Sampa. Ele falou sobre o projeto A Fauna, realizado junto à comunidade Vila Verde, da periferia de Curitiba. O diretor contou que o convite surgiu de um dos organizadores, depois deste ter visto o trabalho que o grupo fez na Roosevelt e no Jardim Pantanal, ambos em São Paulo. Os paulistas já estão cansados de ouvir essa história, mas basicamente o grupo é responsabilizado pela mídia em geral como um dos agentes que revitalizaram a Praça Roosevelt.
Segundo Vàzquez, o projeto na Vila Verde é para mostrar como as pessoas vivem na periferia, sem o estereótipo da polícia/bandido, sem essa espetacularização da violência (citou Tropa de Elite e Cidade de Deus). Também falou que quer parar de fazer teatro pra quem faz dieta e fazer pra quem passa fome. Junto dele na coletiva estavam duas pessoas da comunidade que participarão da encenação – Célia Aparecida Mattos e César Daniel Gustavo. Questionada se tinha medo que depois que Os Satyros fossem embora, eles ficariam de lado, Célia respondeu: “Estamos representando a comunidade. Nós estamos conseguindo abrir caminhos. Nós vamos ser heróis, enfrentamos o medo”. Já César se empolgou com as técnicas que aprendeu de palco e já pensa em montar uma peça sobre o vandalismo, para serem apresentadas para as crianças da comunidade. Idéia muito instrutiva.
Rodolfo ainda perguntou pros jornalistas: “Alguém aqui teve algum parente assassinado? Por favor, levantem a mão quem de vocês, jornalistas, teve um parente assassinado.” Quando dois se manifestaram, o diretor continuou: “Na periferia, 90% levantariam a mão”.
No mesmo dia, ainda teve a coletiva de Júpiter – Conquista da Galáxia, do grupo Condor. A compreensão das respostas do grupo se perdeu um pouco na tradução do português pro inglês, do inglês pro japonês, e depois do japonês/inglês, inglês/português, mas faz parte. O tradutor disse que a tradutora disse que eles falaram (ufa!) que o figurino usado na peça são as roupas mais populares usadas na escola no Japão. O que fazem no espetáculo é o que se pode ver em Tóquio, e que buscam representar a geração contemporânea, porque eles não têm nada a ver com os 100 anos que já se passaram. O tradutor I ainda contou um causo sobre um homem andando normalmente de mini-saia pelo Japão e outro causo (sim, o tradutor era um cara divertido) sobre o fato dos atores japoneses acharem a carne enorme – que outro dia tinha uma alcatra que parecia um tapete. Tudo bem – alguns comem peixe cru e outros, tapetes.
No finzinho da manhã, um pouco antes do almoço, representantes de duas peças do Fringe deram uma rápida palavrinha com os jornalistas sobreviventes – uns quatro, contando comigo. O pessoal da peça Anjo Malaquias, da obra de Mário Quintana, contou como é difícil vir para o Fringe pela primeira vez, sem apoio e sem patrocínio. Já o pessoal do Avental Todo Sujo de Ovo contou que a vontade de mostrar o trabalho era tanta que venderam até avental com o logo da peça para levantar dinheiro, alguns amigos fizeram bazar e até receberam doações de passagens de ida e volta.
Antes de vir para Curitiba, já havia ouvido que pela quantidade de peças, não tem como saber muito bem o que assistir do Fringe. Com 251 espetáculos de diferentes lugares e conhecendo o trabalho de só alguns deles, vai ser mesmo fechar os olhos, apontar em uma direção e tentar encontrar alguma peça com boa proposta ou que traga novas experiências.
Como todas as peças da mostra principal são no mesmo horário, é impossível uma pessoa assistir a todas. Mas nesse caso, a concorrência interna é um pouquinho menor. Então vamos esperar pra ver o que rola no Festival de Curitiba 2008.


Q vida boa!
Festival, festinha e Orquestra Imperial!