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Meu primeiro dia em Curitiba

por Maurício Alcântara

1 Comentário 22 March 2008

Não apenas os aeroportos brasileiros padecem do terrível mal dos atrasos: o ônibus para Curitiba saiu com 1h40 de atraso e, no caminho, descobri o porquê da Régis Bittencourt ser considerada a rodovia da morte. Resultado: uma madrugada inteira muito mal-dormida. Mas foi o tempo de chegar, tomar um café da manhã e já partir para o teatro.

Ao pegar o guia do festival, rapidamente fiz um roteiro dos espetáculos que veria no Fringe, mostra “paralela” (que de paralela não tem nada, uma vez que tudo é organizdo pela mesma turma).

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Logo de cara, primeira sessão lotada: Como Carne, daqui de Curitiba mesmo. A história é a de um açougueiro que supostamente teria vivido em Porto Alegre no século XIX e vendido à alta sociedade gaúcha suas vítimas na forma de lingüiças. O “contar histórias” ganha muito com a proposta teatral do grupo, embora eu tenha saído com a sensação de que a encenação tivesse um tanto de cara de “peça de colégio”. A diferença é que, neste caso, os atores eram bons e tudo era muito bem feito – algumas soluções são ingênuas mas não há nada que seja apontado como grandes problemas na montagem. Saí do teatro com a sensação de que a programação do Fringe esquentaria mais e mais.

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Segundo espetáculo foi no Solar do Barão: Aquilo Que Não Se Move. O livrinho da programação indicava que a categoria do espetáculo carioca era “contemporâneo”, o que já me deixou apreensivo. Ao entrar no espaço, uma surpresa boa: o cenário era composto por milhares de pedras de dominó e trazia, ao centro, um ator com uma mala de viagem e brincando com um ioiô. Uma imagem bonita de se ver, tão bonita quanto as outras imagens que seguiriam. Mas imagem não é nada, já dizia aquela propaganda. As personagens de Tchekhov e as imagens se perdiam na verborragia poética que levava o espetáculo do nada ao lugar algum. A impressão que ficou foi uma tentativa de fazer algo no mesmo formato das performances de Michel Melamed, mas sem o mesmo sucesso e principalmente sem o mesmo carisma na hora de interagir com a platéia. Um jornalista não resistiu e foi embora antes do término, ao ouvir algo tentador como “Eu, se fosse você, ia embora sem olhar pra trás”. E ele foi, assim como eu também queria ter ido. Não sei ao certo o porquê, lembrei-me de dois espetáculos de teatro-dança que vi em Porto Alegre: La Divina e Jandira. Mas ambos eram muito mais bem-resolvidos, menos pretensiosos e traziam um trabalho corporal mais bem-definido.

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A terceira do dia foi Andarilhos, de São Paulo. De longe, a montagem mais irregular do dia. O grupo optou por falar dos moradores de rua e sobre relações entre eles e, segundo a sinopse, inspirados também em O Andarilho, de Nietzsche. Na cena, apenas os atores com pouquíssimos adereços e brincando de teatro de sombra. Proposta bacana, abordagem diferente do que já estamos acostumados a pensar sobre moradores de rua. O tempo todo, tudo parece ter sido incorporado quase que de forma descriteriosa e ingênua. Tive a sensação de que não acabaria nunca aquela narração toda em terceira pessoa que, somada à falta de unidade no elenco, dispersava a narrativa e enfraquecia os personagens. Enfim, são riscos que se corre ao assumir uma direção coletiva.

Para terminar, a única peça realmente marcante vista no dia: Mãe Coragem e seus Filhos, do grupo Armazém. Desta vez, não no Fringe, mas na mostra oficial. Mas dessa, falaremos depois, em uma crítica mais elaborada.

E a noite termina como deveria terminar: em um bar alemão, entornando enormes e pesadas canecas de chope. E o festival continua…

E você, o que acha?

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