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II Encontrão da Lapada

Deseja uma discussão com alguns representantes de teatro de grupo do Nordeste??? E ainda dois espetáculos de brinde???? Seus problemas terminaram!!!! Nos próximos dias 17, 18, 19 de outubro - ou seja, de sexta a domingo que vem - João Pessoa, PB, sediará o II Encontrão da Lapada.

O nome pode até parecer de reuniões de jovens para Cristo, ou retiro de evangélicos, mas juro por Deus que ninguém vai rezar nem cantar Hosana nas Alturas. Trata-se do “movimento que tem como objetivo realizar trocas artísticas e fomentar o teatro de grupo no Nordeste”.

“Lapada” em nordestinês tem vários significados: é medida de dose de aguardente; indica golpe ou agressão física. O etílico e o litígio. Este é o nome de um coletivo de coletivos teatrais formado pelos grupos Bagaceira (CE), Máquina (CE), Clowns de Shakespeare (RN), Estandarte (RN), Alfenim (PB), Piollin (PB) e Ser Tão (PB) “o movimento vem discutindo formas de articulação no cenário nacional de teatro há dois anos”. Mais aqui.

Se eu fosse o Merten diria “o repórter da Bacante” estará esses três dias “em movimento”, cobrindo o Lapada com direito a começar os textos com “Querido Diário”. Mas, como não sou o Merten, aviso, em primeira pessoa que vou acompanhar tudo.

O relise diz que “Dentro da programação, duas apresentações serão abertas ao público: O espetáculo “Vereda da Salvação”, do grupo Ser Tão Teatro (PB), vai se apresentar na sala preta da UFPB, no dia 17, às 20h30; e o espetáculo “Quebra Quilos”, do Coletivo Alfenim, na sede da Piollin, dia 18, às 20h30. Ambas as apresentações terão distribuição de senha uma hora antes dos espetáculos”.

Bom, até agora recebi sinal verde pra ver, inclusive, o que não “será aberto ao público”. Seja lá o que for.

Filosóficas

1) Descubro pelo e-mail de um amigo que está rolando essa semana um seminário lá na USP discutindo a repressão sofrida pelo teatro brasileiro durante a ditadura militar – e que há um acervo que pesquisa, resgata e disponibiliza na internet informações sobre peças censuradas naquele momento. Infelizmente esse seminário está acontecendo em “horário acadêmico”. O questionamento que eu levanto a partir desse tema é: e hoje, será que há algum tipo de censura? O que tolhe a liberdade artística e de expressão de nossos artistas - ou será que eles são realmente livres para dizer o que pensam/querem? Afinal, que querem dizer/expressar os nossos artistas hoje? Aberto e genérico, né? Também acho, mas vale pensar.

2) O ator Chico Ribas manifestou em seu blog sua indignação com a crítica que escrevi sobre o espetáculo Narcisianas. Não vou justificar a crítica, tampouco explicar por que eu não acho que uma crítica seja exatamente um “problema”, mas essa história levanta uma questão legal: o valor do ingresso. Considerando que o custo de produção de uma produção (vide espaço, técnicos, leitinho das crianças etc.) é um valor financeiro que em geral não tem nada a ver com o valor artístico da obra (tipassim grandezas diferentes, sendo uma absolutamente concreta, e outra radicalmente abstrata), qual o limite que o público está disposto a pagar/ deve ser cobrado pelo ingresso de uma apresentação, independente de seu valor artístico? Ou será que algum mágico por aí já achou a tabela de conversão? Também não tenho resposta pra isso, é pra pensar mesmo…

Baleiamos hoje cedo.

Nosso servidor nos deixou na mãe por algum tempo hoje cedo.

Desculpem pelo transtorno. Servimos bem pra servir sempre.

Sexta e sábado - deixando as máscaras

É muito difícil abrir o jogo quando a coisa funciona. O leitor desavisado vai relatar que eu só postei críticas ao festival de Guaramiranga e estará certo. Mas posso garantir que foi do mais profundo caralho fazer a cobertura de um festival em que a cidade toda entra na engrenagem do teatro. Precisei ir até a Serra do Baturité, duas horas de Fortaleza, pra descobrir que isso é possível.

Os dois trabalhos de grupo apresentados entre a sexta e o sábado foram Cantil, que está criticada nessa semana e estará em São Paulo na programação do Centro Cultural São Paulo (não me lembro o mês, mas o grupo pode postar nos comentários); e Curral Grande, espetáculo que nasceu de um trabalho de conclusão de curso, cuja temática me surpreendeu demais: os centros de concentração para os flagelados da seca no Ceará na década de 30. Espero ter memória e tempo para criticar a peça, que deve entrar na semana que vem. Se não conseguir, não deixe de conferir a dramaturgia de Marcos Barbosa, que, segundo me informou o jornalista e pesquisador Magela Lima, foi o projeto de mestrado do dramaturgo.

Os últimos debates foram em outro tom. Ricardo Guilherme deixou de ser o cara mal-humorado que eu desenhei na primeira crítica (mas, dizem, continuava indo aos debates com muito sono). Sérgio Faria fez considerações técnicas que achei muito coerentes à Cênicas Cia. de Repertório. Tânia Brandão continuou a melhor contadora de histórias dos debates. Uma pena para o Dimenti não estar entre os últimos grupos que se apresentaram e efetivamente dialogaram com a crítica.

Drica Moraes apareceu na última noite do Festival de Guaramiranga apresentando um monólogo que me pareceu, como disse Sábato Magaldi na última edição da Piauí, um grande exercício para o ego. Enquanto grupos de lá apresentaram trabalhos interessantíssimos de pesquisa de linguagem, o festival traz, para um momento tão especial como a última noite, uma peça que não dialoga em nada com as escolhas curatoriais do resto da semana. A todo momento que via aquelas marcações tão explícitas de Aderbal Freire Filho, ficava lembrando de como Aldeotas, do também cearense Gero Camilo, poderia fazer esse papel de peça final e custaria muito menos ao festival. Fica a dica pro próximo ano.

O cortejo final tinha três ritmos distintos na fila. Muita cor, muita dança e música. Aquilo é o teatro. Não por acaso, o Grupo Garajau veio fazendo números ao longo de toda a trajetória. Ao som de MPB, a noite de sábado terminou na praça central e os Clowns de Shakespeare levaram 1º e 2º lugar na votação popular. Respectivamente com Fábulas e Muito Barulho por Quase Nada. O novo infantil do Bagaceira ficou em terceiro lugar.

Arrumar malas, seguir para Fortaleza no domingo logo cedo, voltar para o mar de concreto. Todo carnaval tem seu fim.

Quinta-feira

A semana vai chegando ao fim e o ímpeto de acompanhar quatro montagens por dia já não é mais o mesmo. Conferi apenas os dois espetáculos da Mostra Nordeste e foi o suficiente pra sair com a cabeça cheia. Meire Love, do grupo Bagaceira, estará entre as críticas da segunda-feira. Já o espetáculo Que Muito Amou, inspirado na obra de Caio Fernando Abreu, sofreu muito com as dificuldades do Teatro Raquel de Queiroz. Não falo do espetáculo pra me aprofundar no tema do espaço.

A que vem um teatro tão monumental numa cidade tão pequena? No dia seguinte, presenciei a chegada dos ocupantes de final de semana. O povo do resort. As lojas de turistas abrem. Os bares lotam e você deixa de conhecer todos os rostos. A fileira reservada aos convidados para o teatro é ocupada até a metade.

Interessante reparar que um dos convidados foi quem puxou o ronco na apresentação de Cantil. Enfim, a monumentalidade sonífera do Raquel de Queiroz. Fica aqui um apelo à curadoria: tragam espetáculos de rua. Alterem o fluxo do próprio festival. Subvertam a lógica turística da cidade e façam mais apresentações sem distinção de quem tem ou não ingressos.

Patuscada

Na quarta à noite, aconteceu a tradicional Patuscada, festa debaixo da Tenda do Sesc e que trouxe calor e muitos saculejos aos corpos do festival. O repertório brega foi o ponto alto da noite, junto com o desfile iniciado pela atriz Samya de Lavor e radicalizado pelos rapazes garbosos de diversos grupos. A inveja da noite ficou por conta dos malditos dançarinos da Lia Rodrigues, que, sem o menor esforço, roubavam a atenção de todo o povo na tenda. O ponto baixo foi o término na festa exatamente quando ela estava em seu melhor momento. Não, eu não vou fazer colunismo social. Não mais.

Lia Rodrigues II (eu fui)

A segunda apresentação da Cia Lia Rodrigues de Danças foi o espetáculo Encarnado. Não há mais o impacto de Aquilo de que somos feitos - mal de festivais que apresentam repertório, bom pra quem gosta de acompanhar trajetórias. Mas dali, vislumbramos algumas referências claras pro grupo, como a imagem da obra de Lígia Clark reproduzida no palco, animais famintos numa selva humana, ketchup, o corpo nu, uma placenta, um nascimento… Uma obra de dança articulada como uma seqüência de quadros. Assim como na primeira apresentação, levo comigo mais as imagens e menos as palavras, sons e movimentos.

Um gesto por outro

Sabe aquele seu amigo que é fissurado em Buñuel, mas odeia teatro? (ok… forcei a barra). Pois é, se ele existir, leve-o pra ver Um Gesto por Outro, do grupo Cênicas Cia. de Repertório. Na montagem, o grupo pede ao público que saia, quando esse ainda está se acomodando. As convenções são colocadas em cheque (de verdade, tudo funciona como um jogo de xadrez) numa peça que trouxe um ar de estranheza ao festival.

Foto: Divulgação

Mostra “Oi” de Esquetes

Um pouco da mostra “oi, tudo bem? Como vai? Visse que os telefones não funcionam?” de esquetes:

Enjaule toda a liberdade do formato esquete numa jaula bem grande. A maior que você encontrar. Coloque público longe e ouvindo mal. Se mesmo assim houver fruição e recepção, então a esquete é realmente um fenômeno.
Dentre as que são, listo a esquete que coloca o ponto de vista de três personagens: o garçom, o marido e a mulher. Os atores reviram a cena a partir de todas as perspectivas, tornando o distanciamento em regra e a cena em exceção. O resultado é um germem de espetáculo, não uma esquete. Espero que o grupo tenha sacado isso.
O Bagaceira apresentou duas: uma nonsense e uma de bonecos. Ambas precisavam de proximidade, mesmo assim pegaram o público pela mão e conseguimos descobrir um pouco mais da linguagem e ireeverência dessa trupe cearense.

Dos malefícios do álcool

Não seria justo com os leitores dessas páginas mal visitadas que eu ficasse sete dias completos aqui em Guaramiranga sem nem sequer um dia de postagens ébrias. Portanto, deixemos de lado o senso crítico e vamos ao que interessa, ou seja, o que ninguém diz sóbrio.

O final da semana chega e revela a característica de resort que a cidade tem. Não por acaso, chamam Guaramiranga de a suíça cenarense. De 25 a 30 graus durante o dia e não menos que 14 graus durante a noite. Quase dá pra usar duas blusas nos dias mais frios. Então é prato cheio pra todo povo que quer mostrar a indumentária de inverno e não tem chance em Fortaleza. Só faltam as estações de esqui.

Guaramiranga quer dizer pássaro vermelho. Eu sei que você não precisava dessa informação, mas eu me sentia impelido a publicá-la em algum lugar. Como não houve contexto pra ela, crio um parágrafo só pra isso.

Pra exemplificar a desconexão entre os parágrafos, falo agora do espetáculo Clowns, do grupo Garajau. Clowns mesmo têm poucos, a coisa vai mais é pro lado de contar histórias. Novamente a “característica inerente ao ser humano” volta à cena e o que vemos é uma peça de rua bastante domada (apesar da cachaça servida a um coitado da platéia). Os integrantes revelam empatia e também vemos que as histórias espelham realidades próximas do universo do público. Mas parece pouco. Quando os grupos amadores vão sacar que o teatro é bem mais e menos do que revelar uma ordem de fatos que se concatenam?

Fim da postagem ébria.

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