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Sexta-feira – 1º dia do II Encontrão Lapada

por Astier Basílio

Nenhum Comentário 18 October 2008

Vai dormir, Diário!

A peça

Já passamos da meia noite. Exatamente 27 minutos. Acabei de chegar da Universidade Federal da Paraíba, onde rolou a primeira peça, Vereda da Salvação, montagem do grupo Ser Tão, dirigido pela Christina Streva.

Mas, antes de contar como foi. Tenho de dizer uma estória que rolou antes comigo. Enquanto me aprontava pra ir, uma amiga minha liga.

- Me ligasse foi?
- Foi

Conversamos sobre o determinado assunto que motivou minha ligação. Depois, tento cortar o papo dizendo que tô de saída.

- Cê tá indo pra onde?
- Pro encontro do Lapada – respondi.
- É o que, hein? É negócio com cachaça é?
- Não é um coletivo que reúne grupos teatrais do Nordeste…
- Tchau. Boa sorte.

Taí a dica. Quando quiserem que um amiga ou amigo desliguem o telefone, não se esqueçam: lapada neles.

***

Ainda na fila ouço:

- Ué, cadê você lá?
- Você nem foi lá, né?
- Cara, a gente pensou que você vinha.

Uns três “lapadeiros” queriam saber porque eu não tinha ido no primeiro contato deles. É que à tarde, lá na Piollin, os grupos – ao todo são mais de 20 – tiveram um primeiro contato, uma dinâmica “meio que pra quebrar o gelo”. Foram discutidas/ditas/propostas quais atividades seriam desenvolvidas no sábado.

- Ah! eu pensei que eu tava liberado pra cobrir só amanhã – disse.

Mentira. Eu sabia que tava valendo. É que era aniversário da minha sogra e sabecomé, né?

A “Sala Preta”, onde Vereda da Salvação foi encenada, era uma semi-arena. Cheguei uns 30 minutos antes. A capacidade era pra setenta e poucos lugares. Dez minutos antes, chega a Chris:

- Meus alunos queridos (ela é professora do recém criado curso de Artes Cênicas da UFPB), agradeço a presença de vocês, mas peço encarecidamente que vocês ocupem as laterais e deixem a parte da frente pro pessoal do Lapada, porque o espetáculo vai ser apresentado pra eles, tá?

Eu tava na frente e achei bom não ser aluno da Chris.

Vereda da Salvação estreou final do ano passado naquele local, eu fui à estréia. Não sei o que aconteceu, mas acho que mudaram o teto, não tenho certeza. A acústica estava horrível, muito do texto se dispersou e a intimidade que eu senti sumiu.

O debate

Tava todo mundo lá. Gente de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e mais outros que eu devo conhecer amanhã. Chris começou falando que a turma era iniciante, muitos não tinham nenhum experiência, que foi uma garra todo mundo lá, cinco meses que o espetáculo tava parado, não tinha circulado. Depois falou o porque de montar um texto clássico, do Jorge Andrade, escrito em 1955.

- Gente eu sou carioca, tinha chegado na Paraíba e uma coisa que me impressionou muito foi esse negócio com a religião sabe? Você vai no ginecologista aí do teu lado (marido, transexual ou público civil?) um cara abre a Bíblia. Outra fez a gente foi no Shopping, no Manaíra… (seguem outros exemplos de histórias de fé)

Chris falou que não queria ser fiel ao texto que pede 30 personagens, etc. Depois comecei a me sentir meio aluno quando ela falou das teses que foram lidas, do Antunes, da montagem do Antunes em 1964, depois a de 1993. Depois falou do lance das partituras físicas, do trabalho centrado em Stanislavski, do lance da verdade.

Depois de duas, três perguntas levantei a mão.

Falei que tinha uma proximidade afetiva com o grupo, elogiei o fato deles isso e aquilo, depois fiz as seguintes observações:

A peça foi escrita há mais de meio século. O recorte da dramaturgia privilegiava uma rota de conflito entre os dois personagens, o Joaquim, fanático e o Manoel, pragmático. Só que esse recorte – recorte mesmo, há um personagem que media esses dois mundos que é riscado da encenação – opta por uma rota de conflito num nível mais de relação pessoal. Que nesse meio século, numa perspectiva histórica, tanto a questão agrária, trabalhada no texto, era outra, como a questão religiosa, a alienação por um paraíso na terra substituída por um “o reino dos céus é aqui”, é bem diferente e que eu não via links com a realidade atual.

Isso eu não disse, mas quando a Dolor, mãe do Joaquim disse: “filho é a riqueza de pobre”. Eu pensei logo na questão do Bolsa Família e em como esse benefício alterou a realidade do Nordeste e essa alteração da realidade Nordestina não chega na montagem.

A Chris respondeu que embora reconhecesse que as questões política e agrária estavam lá, mas que via na peça outra coisa, que o desenlace ali tinha se dado a partir de problemas de relações pessoais e que era a opção dela mesmo aquilo e que estava atual sim. Um dos atores citou um caso de fanáticos que “tinha saído na mídia agora pouco”, escondidos numa gruta esperando o fim do mundo.

Nessa hora, o cara com sotaque de Recife quis falar de novo, aí Luiz Carlos Vasconcelos incorporou o palhaço Xuxu e disse: “mas, tu fala rapaz”. Mas, não rolou censura não, como a que o Sérgio quase fez comigo em Guaramiranga. É que faltavam só dez minutos pra terminar e tinha duas pessoas inscritas.

O Kleber, que é bailarino, elogiou o tônus, o físico, as imagens, mas disse que a peça não o deixava respirar, que o ritmo era porrada o tempo todo. Bingo! Ele acertou:

- Olha, concordo com você. É por isso que a gente sente falta de um olhar de fora, sua observação é bem pertinente e é a crítica que eu também faço. Eu não consegui encontrar a medida pra respirar. Mas, garanto a vocês, pessoal, que a minha próxima peça vai ser uma pluma (risos). Vou montar a Dama das Camélias, tá? (risos de novo). Mas, parabéns pela observação, pela sua crítica.

O Luiz Carlos Vasconcelos fez quase um trabalho de dramaturgismo. Apontou, com “mas”, “poréns”, “entretantos”, falou como expectador, falou como encenador – tipo Batman e Bruce Wayne – “sujeitas” – desculpa eu não sou bom com as palavras, disse o Luiz. Chaves poéticas pontuando cenas e cenas mais realistas; figurino que apontava pra esse perspectiva, mas caia acolá pra outro caminho. Citou a montagem do Antunes – como se dissesse eu vi-ê, eu vi-ê.

Depois de falar tudo, com minúcia, disse:

- Mas, eu não tenho certeza de nada do que eu falo, não levem a sério o que eu falei.

Extras ou comentários em word dos atores

Dizer ou não dizer, eis a questão.

Mas, dá tanta verdade pro texto pegar essas falas.
E tipo, rolou uma questão meio hamletiana: “beber ou não beber, eis a questão”.
Kleber falou:

- Ó, só vou aparecer lá pelas 2 horas, viu?

Ou seja: fiquei pensando em como aquele slogan do governo cabe bem para os encenadores:

Se dirigir não beba, se beber não diriga.

Márcio sabia disso, tanto é que falou pro Luiz:

- Poxa, era melhor que (não comprendi esse trecho da conversa) à tarde, não era?.

Risos.

(Abaixo, segue o diálogo numa pequena tentativa de imitar o estilo do contista Luiz Vilela, que ao que parece não tem nada a ver com o Gabriel, a googar)

- É – concordou Luiz.
- Essa hora a gente tava tomando a nossa cerveja – observou Márcio.
- Tendo que acordar amanhã às 8 horas, não rola a cerveja – lamentou Luiz
- Não, não rola.

E você, o que acha?

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