Nessa semana, a Companhia do Feijão abriu a casa para três dias de conversas sobre coletivos teatrais. A idéia inicial era discutir gestão; o nome, inclusive, era Ética e práticas de gestão coletiva. No entanto, como quase sempre acontece quando se junta um grupo muito variado de “fazedores” de teatro de todos os tipos e interessados em teatro pelos mais diversos motivos, a discussão deu uma passadinha por muitos outros temas.
Começamos conhecendo um pouco o histórico da Cia do Feijão e partimos para o primeiro tema que chega de sopetão. Adivinha? Dinheiro. Ou, em outros termos, gestão financeira. Tudo bem, não seria possível falar de gestão sem isso. Falamos de novo sobre Fomento, Lei Rouanet, Sesc e tudo mais… enfim, uma discussão com temática muito semelhante a que aconteceu no Festival de São Caetano, mas aqui interessante por outra razão: observar e acompanhar o quanto, mesmo dentro de uma pequena amostra da tal da classe teatral, muitos conceitos não estão completamente esclarecidos, o acesso a informações fundamentais é desigual e as posições levam à tão citada fragmentação do incipiente “movimento teatral”.
Em meio a muitas opiniões contraditórias, há um certo consenso de que o Fomento é uma iniciativa de referência que, no entanto, se continuar uma lei isolada passando por política pública, vai continuar a serviço de uma lógica mercadológica – que, pelo menos no discurso, é justamente o que os coletivos teatrais buscam contrariar em sua gestão. Por que mercadológica? Porque, conforme disse a Iná, em mais uma presença bombástica de terrorismo teórico, no contexto em que está, o Fomento é uma lei que gera privilégios. Além disso, cabe acrescentar, é uma conquista da classe que gera concorrência entre a própria classe. E aí? E aí, resta pensar uma política pública completa e diversa para o teatro. Ok, falar é fácil. Aliás, nem falar é fácil nesse caso, já que mesmo em espaços com esse fim é muito difícil chegar a propostas concretas para integrar essa política pública.
Mas, tentando fugir um pouco dos consensos, vamos destacar as polêmicas. Alguns temas levantados são um pouco mais novos e menos discutidos, pelo menos a meu ver. E, por conta da infinidade de temas e pessoas querendo dar seus pareceres acabaram um pouco atropelados. Um deles é pensar em como evitar que as lideranças – ainda que surjam espontaneamente – acabem por gerar um ambiente autoritário. A idéia esboçada pelo Pedro Pires (diretor e dramaturgo do Feijão) é que naturalmente há pessoas com mais habilidade em determinada área e que, portanto, é natural que elas se tornem lideranças. Mas, a partir disso, como estar atento o suficiente para não permitir que a liderança centralize a autonomia perante as realizações que deveriam ser coletivas? Em outras palavras, como evitar que a pessoa que dentro do coletivo manja mais de alguma coisa faça o que lhe der na telha no que corresponde a essa tal coisa e anule a discussão coletiva? No plano do ideal, penso eu, os componentes deveriam desenvolver-se a ponto de terem habilidades quase equivalentes – tipo todo mundo sabe muito tudo. Mas, no plano do real, muitas vezes nem interessa a todo mundo saber tudo.
Outra questão complicada é a migração de tudo que é gente “de teatro” pro formato coletivo – seja lá o que isso tem querido dizer. Uma vez que, se seu projeto não interessar a nenhuma empresa, praticamente só lhe restam Fomento e ProAC, melhor então ser coletivo, que aí você pode concorrer aos dois. Sendo assim passamos por uma inflação de coletivos em São Paulo (e, segundo comentou o Astier, isso chega até João Pessoa também) e isso é realmente divertido sob certo ponto de vista. Afinal, é claro o incômodo geral causado na sala quando uma menina levantou a questão de que a maior parte dos coletivos que ela conhece é composta na verdade por duas pessoas (quase sempre o grande diretor e a grande atriz) que reúnem outros caras em volta de si para caracterizar um grupo, uma trupe, uma companhia, ou qualquer coisa que encaixe no perfil da lei.
Em meio a tantos temas, por que não questionar o “onde estamos”? Falou-se, também muito por cima, da necessidade de grupos fomentados terem uma sede, ou melhor, alugarem uma sede. O argumento questionador é que há muitos equipamentos e espaços públicos em situação de abandono, e que poderiam ser ocupados por grupos, gerando então dois benefícios: utilização do espaço público para cultura e economia de dinheiro público ao não precisar pagar o aluguel das sedes. Houve respostas mais inflamadas, do tipo: “Eu prefiro estar num lugar caindo aos pedaços, mas poder pregar um prego na parede sem precisar pedir autorização”, mas houve a explicação da Cia do Feijão que, com menos empolgação, afirmou que tentaram ocupações de espaço públicos durante um tempo, mas que isso dificultava muito um planejamento a longo prazo e a continuidade da companhia. Além disso, eles dizem que o vínculo com o espaço é fundamental à criação e, nas palavras de Pedro Pires, “demora pra deixar o espaço quentinho”, ou seja, para preencher um espaço de significados e deixá-lo propício aos processos criativos. Penso que o argumento é compreensível, mas não exclui a possibilidade jogada na roda de melhor ocupação de espaços públicos por coletivos teatrais incentivados com dinheiro público. A idéia é muito coerente e me parece possível adaptá-la à necessidade de uma relação criativa com esse espaço. Uma idéia de mesa de bar, por exemplo, é pensar editais para ocupação dos CEUs, que deixaria um determinado grupo responsável por um equipamento público durante um ou dois anos, com autonomia e verba para o trabalho.
Finalmente, destaco uma pergunta do último dia, feita diretamente à Iná, que questionava como os coletivos se relacionavam com seu público. A resposta veio leve: depende do programa de cada coletivo. Mas, como não poderia deixar de ser, veio com o complemento do mundo ideal que seria, segundo ela, a relação mais horizontal possível. Ela exemplifica que há grupos que fazem trabalhos para públicos específicos buscando a participação efetiva da comunidade e – para ampliar a idéia para toda a cultura – cita o movimento hip hop, que não tem essa divisão tão clara e exclusiva entre aqueles que “fazem” arte e aqueles que “assistem” arte. Do outro lado, Iná cita os grupos que ainda mantêm uma relação com a platéia que ela chama de vertical: “pra nós, o público, só resta assistir o produto pronto, né? E procurar pra conversar depois, se quiser”. Ela faz a ressalva de que muitas relações podem se estabelecer antes e depois das apresentações dos espetáculos em si, como no caso dos seminários, oficinas, etc. No entanto, fica claro que a relação da Companhia do Feijão – como a de boa parte dos grupos de teatro – continua sendo a relação vertical entre quem faz arte – e, portanto, define o que é arte – e quem aprecia arte. Quando colocamos em pauta a relação com os arredores, sobretudo de uma companhia localizada no centro degradado de São Paulo, o trabalho fica ainda mais complicado e então é possível inferir que, além de ser vertical, a relação quase sempre exclui muitas pessoas, por meio de uma série de códigos e barreiras, ainda que nas sextas-feiras não seja preciso ter 10 reais para assistir a peça. Isso, na minha opinião, não invalida a pesquisa de linguagem e conteúdo desse grupo, que pode ser vista em Veleidades Tropicais, e que pode ser, em si, bastante transformadora. Mas é pra se pensar.

