Assistir quatro peças num dia é algo extremamente reprovável, que não há como deixar de fazer quando se está num festival. No FIT, em Rio Preto, a gente pegava leve, afinal estávamos em três. Aqui em Porto Alegre, a coisa é bem diferente: o número de peças é bem maior, existe uma cena dos grupos da região que ocupa boa parte do cronograma e a cidade é muito maior, o que nos faz recorrer ao transporte urbano a todo momento (busão e trem, óbvio, que táxi é coisa da burguesia vendida).
Ontem tinha planejado assistir essa peça postada pelo Maurício aqui embaixo, A Tempestade e os Mistérios da Ilha. No entanto, não podia passar por aqui sem conhecer um dos destaques do festival, a Mostra Descentralização, que é bancada pela Caixa Econômica Federal e acontece na áreas mais periféricas. Aqui começa minha saga.
“Perae que vou procurar” disse a menina que dá informações de localização no ponto de encontro do festival. “Hum, eu também não conheço essa rua, vou entrar no mapa”, era muito solícita. Fiquei de lado e reparei que ela ligou do próprio celular pra uma amiga, que por sua vez fez uma ligação para o serviço itinerários da cidade. Em paralelo ela acessava mais informações pelo site. Depois de uns cinco minutos chegou a informação consolidada. “Você vai até a estação mercado, pega o Rubem Berta, desce no ponto final, pega Alimentadora Wenceslau Moura e desce no Cesmar”.
Uma hora e meia antes do espetáculo, eu já estava com medo de chegar atrasado. O caminho que o primeiro ônibus fez foi revelando uma outra Porto Alegre, à medida que ia se distanciando do centro verticalizado. Primeiro prédios baixos, de três a seis andares, muito bem cuidados na faixada. Depois vieram os mesmo prédios, sem revestimento em algmas paredes externas, por fim vieram as casas, já próximo do ponto final.
O segundo ônibus tinha uma distinção clara da população. Muitas crianças e mães de família se aglomeravam na frente. Avistei um garoto cuja camisa tinha escrito “Centro Social Marista” (Cesmar), o qual me explicou que chegaríamos em cinco minutos. Apressei-me pra passar a catraca que, pasmem, não tinha cobrador. “Como assim?” Voltei pro garoto da porta e a essa altura já pensava que ele era o cobrador. Fui abrindo a carteira e ele disse “não tem que pagar não”. Caiu a ficha. Por alguma razão que ninguém soube me explicar ainda, aquele ônibus não era pago. Ele só dava a volta no pequeno bairro, feito um circular, e ninguém paga.
Chego ao Cesmar com pelo menos meia hora de antecedência. Na região Nordeste da cidade, o Cesmar é um espaço muito grande, com rio, pato, ganso, galinha d’angola, muitos cartazes de Jesus, um telecentro, uma biblioteca fechada aos sábados, um refeitório, uma quadra, mas pelo que vi, nada de teatro. O grupo se apresentou na quadra mesmo, ajudado por uma caixas de som cujo volume alcançava até o ponto final do Rubem Berta.
Barbosinha Futebó Crubi é a montagem que se apresentaria na seqüência pelo grupo paulistano Teatro Popular União e Olho Vivo. Por conta de atraso, alguém, que eu gostaria de saber se é diretor, autor, ou animador de platéias, pega o microfone, conta tudo que vai se passar no espetáculo e ainda dá a moral da história. Na seqüência chega um dos integrantes do elenco e avisa, bem perto do microfone que “vai precisar dar um tempo”. Então toma o microfone e dá-lhe pergunta pra criançada: “quem daqui é gremista?”, “quem torce pro atlético?”.
Chegamos então ao que interessa. Barbosinha Futebó Crubi é uma história criada para fazer crítica à forma como boa parte da música brasileira incorporou elementos da música estadounidense no período da jovem guarda. Para criticar, o autor César Vieira criou o embate entre Barbosinha Futebó Crubi, tradicional clube paulistano, e o América “Soçaite” Club, dos malditos yankees.
Gosto demais da proposta de se apresentar no descentralização, só por aí já poderíamos discutir uma das questões centrais do teatro, que é a distribuição dos espetáculos; acho a metáfora escolhida um pouco ingênua, porém possível de ser encenada; mas o resultado nos faz crer que o grupo partiu da premissa de que seu público não assiste TV, nunca viu um filme, enfim, que ninguém entende nada de narrativa. Além de usarem um “palco” microfonado, com imensas caixas de som de cada lado, tudo fica muito, muito, muito explicadinho. Como havia dito na crítica de Marragoni, isso parece ser um mal de grupos de rua, mas na apresentação de Barbosinha esse didatismo é tão exacerbado que parece “radicalização de linguagem”. Uma tristeza mesmo.
Fica como ponto alto da apresentação as aulas de palavrões. Não faltou filho da puta (mais de uma vez) e, se não me falha muito a memória, pelo menos um vai tomar no cu. Havia ali atrás de mim uma moça filmando tudo. Quem sabe não vira viral no youtube, não é mesmo minha gente?
Precisei ir até Porto Alegre pra “descobrir” um grupo com 40 anos da minha própria cidade. Claro que fui com muita espectativa, e, claro também, quero assistir uma segunda montagem, de preferência em São Paulo, onde é a casa deles. Mas não tenho ressalvas pra afirmar que foi o ponto mais baixo do festival até o momento.

