Uma fila em formato de cobrinha no hall central do Teatro San Martin. Faltavam três semanas para o inicio do festival quando começou a venda de entradas. Peter Brook, Angélica Liddell, Thomas Ostermeier, Guillermo Calderón e peças nacionais por 8 pesos (para os aficionados por conversão: R$3,56 – no dia da elaboração desse texto) eram os principais motivos das pessoas que formavam a fila. Resultado: uma espera de cinco horas entre preencher a ficha de compras, sentar no chão, levantar, socializar com os parceiros de espera, sentir fome, lembrar que se tem uma bala na mochila, ler a sinopse das mais de 50 peças do festival, voltar a conferir a ficha de compras… E observar o curioso grupo humano que se formava ao nosso redor:
- Vários grupos de jovens falando e cantando alto, com toda a pinta de estudantes de teatro;
- Uma mocinha bonita que trabalha na televisão (informação que a própria nos deu, porque nós realmente ainda não dominamos o star system televisivo argentino) que fez com a amiga um piquenique de sushi;
- Um jovem professor de teatro sozinho, variando entre o celular e um livro antigo sobre a literatura russa;
- Um grupo de velhinhos comendo amendoim doce, lendo Hamlet, comentando sobre as peças, reclamando da espera…
- Pessoas se fazendo de perdidas, furando a fila como quem espera um ônibus;
- Cães de guarda e raivosos da fila, que desconfiavam e cutucavam até quem não estava furando.
Uma das conversas mais interessantes com o pessoal da fila, que depois de várias horas esperando juntos se converteram em amigos, foi com o grupo de velhinhos. Especialmente com uma das senhoras – que nesse relato, por não lembrarmos seu nome chamaremos de Dona Nélida para facilitar a narrativa. A conversa começou com a conclusão mútua de que realmente era muito amor pelo teatro estar ali todo esse tempo para conseguir entradas – nós apenas com os pés cansados e ela apoiada sobre uma bengala, o que fez a gente pensar que o amor dela era ao menos um pouquinho maior que o nosso. Depois seguimos conversando sobre as peças do festival que pareciam valer à pena, que derivou a uma conversa sobre o teatro portenho em geral. Aí descobrimos que a Dona Nélida sabia muito sobre teatro e era uma espectadora assídua do circuito dito independente da cidade (Veronese e Tolcachir são seus preferidos). Perguntamos sobre que envolvimento ela tinha com o teatro e ficamos surpresos ao saber que ela era uma médica aposentada que só tinha participado de uma peça escolar em sua juventude em que passou de protagonista à vizinha que não tinha uma linha sequer de texto. Ela era apenas uma aficionada por teatro…
Depois nos contou que em anos anteriores o FIBA trazia muito mais peças estrangeiras, mas que ultimamente muitos dos projetos culturais da cidade tiveram grandes cortes no seu orçamento porque para “alguns” governantes a cultura não parecia ser uma prioridade – e quando disse isso, trocou um olhar cúmplice com sua amiga.
Recorrendo com os olhos a fila em cobrinha, vimos quantos velhinhos da idade da Dona Nélida estavam ali naquela espera… Por algum motivo inexplicável, em Buenos Aires não há prioridade para os velhinhos seja na fila do mercado ou do teatro. Só para “discapacitados”, coisa que obviamente dona Nélida e companhia não são.
Bom, este sábado (24/09) finalmente começou o VIII FIBA. O Teatro San Martín, o grande complexo teatral de la Ciudad de Buenos Aires, sede central do festival, depois de uma reforma interminável, finalmente tem a sua fachada impecável, com grandes cartazes e projeções de luz, e abre suas portas ao grande público, aos amantes da arte sagrada.
* Fizemos um calendário com as peças que iremos e colamos na parede para não haver o perigo de que nos esqueçamos de alguma delas (tal como aconteceu no festival de cinema, o BAFICI, no começo do ano).
A nossa listinha:
1. Hamlet, de Thomas Ostermeier;
2. Yo no soy bonita, de Angélica Liddel;
3. Amar, de Alejandro Catalán;
4. Ala de criados, de Maurício Kartun;
5. La família argentina, de Cristina Banegas;
6. Uné flûte enchantée, de Peter Brook;
7. Villa + Discurso, de Guillermo Calderón.
8. Niños del limbo, de Andrea Garrote;
9. Si es amor de verdade, me dirás cuánto entonces, de Beatriz Catani.



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