Críticas

O Ruído Branco da Palavra Noite

por Paulo Bio Toledo

Nenhum Comentário 28 September 2010

Obs.: Entre os dias 02 e 12 de setembro de 2010, Paulo V. Bio Toledo participou do 25º Festivale, em São José dos Campos, como crítico convidado pelo festival. O texto a seguir foi originalmente publicado na página do 25º Festivale (veja aqui)

Da arte e da sociedade

Fotos: Nelson Kao/divulgação

Em O Ruído Branco da Palavra Noite há um grande movimento coral de atores lidando com o material fascinante das cartas trocadas entre os participantes do Teatro de Arte de Moscou: um momento fértil como pouco se viu na história do teatro, uma verdadeira revolução paradigmática vinda do frio russo. O espetáculo da Cia. Auto-Retrato recolhe os fragmentos dessa revolução poética e compõe um laboratório do pensamento e de experiência sobre o teatro.

Entremeadas com cenas das peças de Anton Tchekhov, as cartas são lidas pelos atores com tal propriedade e aproximação das palavras que as linhas fluem concretas e vivas – a encenação e a interpretação reiteram o tempo inteiro a simplicidade e a deflagração da “própria vida” em cena: tal qual almejava Stanislavski. As cenas exercitadas ao longo da peça são cuidadosamente construídas e conquistam justeza poucas vezes vista no teatro atual.

Mas há algo que não encaixa. O espetáculo parece querer sublinhar e debater aspectos metalinguísticos da própria prática teatral, como o silêncio, a verdade, a representação do real, as “superações” pela forma etc. No entanto, o faz desligando-se absolutamente da história. Os aspectos pinçados do debate russo são lidos como parte de um debate “universal” acerca do teatro e, assim, considerações fundamentais de contexto são deixadas de lado na compreensão daquela revolução poética. A obra de Anton Tchekhov, por exemplo, está absolutamente ligada (no conteúdo e na forma em crise) a uma conjuntura de apatia patética da sociedade aristocrática decadente russa – não à toa muitos reiteram com insistência a “genialidade” do autor em captar esta atmosfera “pré-revolucionária”. Doravante, a revolução formal de Meyerhold está intimamente associada a Revolução de Outubro e a ebulição popular e política nos anos anteriores a 1917.

Dissociar o debate artístico da história reduz o objeto a tergiversações elitistas da própria arte. Como se o desenvolvimento do teatro pairasse acima do tempo e das “mesquinharias” humanas. Ademais, ao incorrer nessa seara o espetáculo cria uma camada hermética de compreensão e todos aqueles que não estão envolvidos no universo teatral devem encontrar pouco interesse em O Ruído Branco da Palavra Noite – de modo que ao escolher debater “arte pela arte” fecham-se as portas aos habitantes do “mundo material”. Algo bastante estranho numa arte, por definição, pública… Ou seja, algo não soa bem quando temos que aceitar o fato de que debater teatro exclui aqueles que não praticam tal atividade.

No ano passado circulou pelo Brasil a Cia. chilena Teatro en el Blanco com o espetáculo Neva. A temática era muito próxima, mas a situação criada era um ensaio com Olga Knipper concomitante ao Domingo Sangrento de 1905 em São Petersburgo. Sem a pretensão de comparar espetáculos tão distintos, em Neva o grupo debateu os mesmo aspectos do teatro, mas o fez justamente porque não dissociou o tema da história. Ou seja, uma coisa não exclui a outra, pelo contrário, são partes do mesmo. Como dizia Adorno: “A referência ao social não deve levar para fora da obra de arte, mas sim levar mais fundo para dentro dela”

O espetáculo foi assistido gratuitamente dia 03 de setembro às 21h no Teatro Municipal de São José dos Campos como parte da programação do 25º Festivale

5 lágrimas e 10 bocejos

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).