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Críticas

A Acusação

por Leca Perrechil

8 Comentários 12 February 2008

Os Atores se Divertem 

Foto: Guto Muniz

oficcina.jpg

Realizar uma livre adaptação de um livro bastante conhecido implica, ao mesmo tempo, em facilidades e riscos, ambos pelo mesmo preceito: grande parte do público já conhece a obra. Dessa forma, por mais que a montagem não explique a trama tintim por tintim, alguns espectadores já possuem uma base do texto. Por outro lado, isso faz com que haja uma comparação inevitável entre o livro e a encenação, normalmente com prejuízo para esta última.

A peça A Acusação recria a história de Josef K., protagonista de O Processo, de Franz Kafka, pelo grupo mineiro Oficcina Multimédia, dentro do projeto Cena Contemporânea de Minas – que traz duas peças de companhias da cidade do pão de queijo ao TUSP (a outra é Servidão).

Kafka montou uma trama sobre um homem que um dia acorda detido e não sabe o motivo. Durante o seu processo, ele enfrenta diversos obstáculos burocráticos e acaba de mãos atadas diante de um poder maior, até sua execução. O grupo mineiro conseguiu transformar os obstáculos e o labirinto ao qual Josef K. se encontra, por meio da cenografia – composta por grandes estruturas metálicas, tábuas, escadas, baús, carrinho de supermercado, escorregador (sabe quando os atores parecem se divertir e você fica com inveja?), além das inúmeras portas, bastante presentes também no livro.

Contudo, a pressão sofrida por K., antes psicológica, foi transformada em física, e o protagonista perdeu um pouco sua arrogância e complexo de superioridade para se tornar um homem desesperado. Para quem leu O Processo, é incômodo ver, na peça, cenas em que os guardas dão pontapés em K. e o surram, enquanto, no livro, não encostam um dedo nele. Ou o ambiente de urgência instaurado no início do espetáculo, com um coro de homens de preto procurando K. e realizando suas partituras ao som de uma música, digamos assim, eletrizante. Principalmente porque Kafka traz um personagem esmagado por um poder maior, pelo sistema ao invés de ser pressionado por indivíduos (Por mais que a montagem quisesse representar essa pressão por meio dos guardas, ela não consegue expressar esse poder maior e nem o sufoco psicológico de K.).

O grupo dirigido por Ione de Medeiros – que em seu histórico traz diferentes manifestações artísticas para dentro do palco – trouxe à cena um trabalho bem feito de manipulação de bonecos, que dialoga com o fato de o protagonista lidar sempre com subalternos e funcionários que só recebem ordens.

Finalmente, no cenário de parques de diversão do terror não faltou nem a nave dos antigos programas da Xuxa – quando as portas se abriam, e de lá saia o protagonista em meio a luzes e fumaça, por pelo menos três vezes durante o espetáculo… a rainha dos baixinhos só saía uma por programa. Perdeu, Xuxa!

2 atores e 1 boneco brincando de escorrega

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Leca Perrechil

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8 comentários até o momento

  1. Jorge Assunpção says:

    Assisti ao espetáculo. Acho bastante inconseqüente associar a luz que marca a porta central do cenário do espetáculo à nave da Xuxa. Não acho possível estabelecer qualquer relação entre a luz ofuscante, da montagem de Kafka, (A Acusação) a qual interpretei como a visão da própria Lei, à “nave espacial” da referida atriz (global). A meu ver a imagem, desta luz no espetáculo, fazia uma alusão à própria transcendência da lei, abstrata, impalpável, ofuscante e ao mesmo tempo, bela e atraente. Quanto à surra dos bonecos, vi naquela ação dos atores contra um homem (que em seguida se transforma em boneco, e é morto em cena), uma materialização metafórica da violência. É comum a expressão… Suas palavras bateram em mim como um soco na boca do estômago… Ou: fui golpeado pelas suas palavras… Outras expressões como: língua de trapo, reforçam a intenção usual de dar um “quase” corpo para a violência. Acho mesmo que toda a pressão psicológica nos atinge fisicamente, de uma forma tão intensa que às vezes é capaz de provocar doenças. Então há sempre uma resposta física para a violência. Por outro lado, esta violência muda de figura no espetáculo, quando o personagem é interrogado por bonecos, (ou, pedaços de…) num distanciamento absurdo que ultrapassa a violência à distância e até mesmo cortês que Josef K sofre no romance… Esta cortesia, aliás, os guardas manifestaram na cena final, quando conduzem o personagem quase com um abraço para uma possível (?)… morte. Então, falta imaginação nesta crítica, ou “sobra” uma visão estreita e ao pé da letra que não ajuda em nada ao leitor na visão de qualquer espetáculo. Para quem não leu Kafka, esta crítica também não teria o menor sentido!!! A partir daí, perdi o interesse em ler e conhecer suas demais críticas. Queremos mais!

  2. Diego says:

    Adorei esse espetáculo. Pena que ficou apenas 2 semanas aqui em SP. Acho que os paulistas deveriam assistir essa peça para pararem de pensar que só aqui que existe trabalhos de qualidade. A Acusação é de um brilhantismo raro visto nesta cidade. Parabéns ao grupo mineiro…

  3. Gabriela says:

    Diego, concordo contigo sobre os paulistas comtemplarem trabalhos de além das fronteiras da mega São Paulo.
    Acho “A Acusação” bem genial e o trabalho corporal dos atores é muito bacana.
    O que falta é incentivo. O que falta é as empresas poderosíssimas do país apoiarem mais grupos, ao invés de dar milhões a uma companhia só. O que falta é as pequenas empresas saberem que podem reverter parte do seu lucro à cultura, ao invés de entregá-lo de mão beijada ao governo.
    Na verdade, falta um monte de coisa, mas voltando: a peça é incrível. Os meninos parecem ter algo que falta à maioria dos atores da cena paulista: o desprendimento egóico.

  4. Bom, não assisti ao espetáculo, portanto não posso falar sobre esta peça específica. Mas vamos lá:

    Jorge, não leve tudo aqui tão a sério – até porque é premissa da Bacante é relativizar a seriedade e a sisudez da crítica. Você se incomodou com a nave da Xuxa? Deveria dar uma olhada nas outras comparações absurdas que fazemos, pra ver que essa não foi nada… A gente é exagerado mesmo.

    Diego e Gabriela, onde vocês entenderam que o teatro fora de SP não presta? Aqui na Bacante, certamente, não foi. Até porque nós adoramos garimpar o que tem de bacana rolando fora daqui…

    E um toque: quando vocês falam “dos paulistas” ou da “maioria dos atores paulistas”, soa tão preconceituoso como falar que fora daqui não se faz teatro bom…

  5. Juli says:

    Pessoal.

    Que tal todos darmos uma lidinha nas quatro críticas da Mostra de Uberlândia (que fica a 605km de São Paulo) que foram publicadas aqui na semana passada? Assim a gente pode comentar mais o teatro de fora de São Paulo. Essa semana, se o Deus do Teatro de Fora de São Paulo ajudar, publicaremos mais críticas do Emiliano, nosso querido colaborador de fora de São Paulo!

    A propósito, quem se interessar, pode ainda dar uma passadinha pelas críticas dos espetáculos dos Clowns de Shakespeare – grupo de Natal (a 2.321 km de São Paulo) – que esteve no TUSP. Teve ainda uma entrevista gigante com eles, pra quem tiver um tempinho pra investir.

    Rolaram também algumas criticas do Rio de Janeiro (a 420 km de São Paulo), durante o riocenacontemporanea e também fora dele.

    Falamos ainda do Festival de Porto Alegre (a 1119 km de São Paulo) e, antes de ele acontecer, do grupo de lá Ói Nóis Aqui Traveiz.

    Enfim… só pra gente começar a fazer nossa parte (ai, que lindo!) pra um teatro menos São-Paulo-cêntrico.

    Opa! Faltou um detalhe: pra não sermos Brasil-cêntricos, vale ler também os textos sobre espetáculos italianos, franceses, ingleses, holandeses, argentinos, entre outros países. Desculpe, não vai dar pra especificar as distâncias nesses casos.

    Beijos.

  6. Leca Perrechil says:

    Olá, Jorge
    Desculpe a demora para responder. Vamos lá:
    Sobre a cena em que a luz me lembrou a nave da Xuxa – ela pode até ter todas essas interpretações que você colocou, mas não achei uma boa solução cênica, ficando até brega… e por três vezes. Me lembrou na hora a nave da Xuxa, por mais significado que o grupo tenha pensado. E chamar a Xuxa de atriz??? Você foi bem bonzinho!

    Sobre a violência física, eu realmente não curti da maneira como foi feita. Pareceu uma saída meio fácil, mais do que uma elaborada metáfora (até pq não é elaborada). Eu sei que no teatro é bem comum representar o psicológico utilizando o físico e vice-versa, mas conhecendo o livro de Kafka, que tem rubricas bem precisas em relação a ninguém tocar em K. (o que no livro cria uma tensão toda particular) não achei uma boa opção para a montagem, até porque não achei o trabalho corporal dos atores tão bom, principalmente no começo… Tá certo que eles ficam pulando, subindo, caindo e tudo mais… mas isso não significa que a postura deles em cena seja espetacular. Eles fazem um ótimo trabalho na manipulação de bonecos, como já tinha escrito no texto. Assim como o cenário é uma ótima metáfora para a burocracia e obstáculos enfrentados por K. durante seu processo.

    As observações acima nos leva para o próximo mote: ficar muito presa ao livro. Até foi por isso que a resenha começa como começou – falando sobre adaptar um livro muito conhecido. Confesso que enquanto assistia à peça, não consegui me distanciar da obra – principalmente pq o livro é muito bom. Certamente se eu não tivesse lido, minha percepção seria outra. Mas não consegui me distanciar,… é um risco que se corre. Não estou falando que um livro tem que ser fielmente adaptado pro teatro, longe disso. Conhecemos várias montagens espetaculares que foge totalmente do livro, vide Ensaio.Hamlet (http://www.bacante.com.br/revista/critica/ensaio-hamlet), da Cia dos Atores. Mas não acho que essa peça seja um bom exemplo de boa livre adaptação.

    Mas é sempre bom expor visões diferentes sobre um mesmo espetáculo. Nada tem uma única visão do fato. Por mais que discordemos, é sempre bom ouvir outras impressões.

    Diego e Gabriela,
    não acredito que a montagem seria melhor se fosse de São Paulo. Já resenhamos muitas peças boas de São Paulo, como muitas ruins. Muitas boas de outros lugares e muitas ruins. E tem grupos residindo em São Paulo que não são do estado. Agora é só vocês aguardarem nossa cobertura do Festival de Curitiba…

    Bjos.

  7. Juan says:

    Mauricio, realmente não deviamos nem ler estas críticas horriveis. Que diz que usa de satira e sisudez para comentar. Aqui neste site nunca li tantas criticas ( ou melhor comentarios) de peças com conceito tão amador ( nem quando estava na universidade escrevia tão mal asim) e falando e grupos tão importantes. Nem sei porque perdi tanto meu tempo lendo tantas besteiras na minha vida, como comparar Kafka a Xuxa. Assistir esta peça no Tusp achei a solução da porta sensacional o roteiro muito. . Ate entendo certo tipo de ignorancias como as de voces não entederem porque afinal Kafka num e lá muito digerivel para mentes pequenas e restritas. Achei o comentario do Jorge quase uma critica mais bem feito do que esta critica do site.

  8. Leca Perrechil says:

    Olá, Juan
    Se vc realmente leu o texto e achou que comparo Kafka com Xuxa, vc precisa voltar para sua citada universidade e aprender um pouco de interpretação de texto.

    Bjos,
    Leca.


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