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Críticas

A Alma Boa de Setsuan

por Marco Albuquerque

23 Comentários 14 October 2008

Os Trapalhões encontram Brecht

Foto: Divulgação
Não se assuste se, ao entrar no Teatro Renaissance pra assistir à Alma Boa de Setsuan, você der de cara com a Denise Fraga, devidamente caracterizada como a personagem Chen Te, distribuindo os programinhas da peça e agradecendo às pessoas por terem vindo. Este susto inicial vai se ampliar quando você, procurando o seu lugar, trombar com outros atores passeando pela platéia. Logo que eu me sento, dou de cara com um Ary França (caracterizado de uma forma absolutamente indescritível) brincando com espectadores que estão a poucas fileiras do meu lugar. Ele simula um aquecimento vocal (algo na linha lá-rá-lá-rá-láááááááááááááááá) e pede que alguns espectadores o acompanhem. Logo depois ele se senta no lugar de um casal e se faz de rogado quando eles o questionam se aquele é mesmo o lugar dele. É necessário que outro ator venha tirar Ary França daquela cadeira.

Assim que o público termina de se acomodar, os atores sobem ao palco e se sentam, de costas para a platéia, num camarim improvisado (camarim este que será efetivamente usado pelos atores na caracterização das diferentes personagens durante a encenação). Os atores então se aproximam do proscênio, cada um com uma vela na mão, gritam merda, apagam as velas que carregam e se engajam rapidamente na montagem do cenário. O espetáculo, oficialmente, começa.

A primeira informação que recebemos é que a personagem malucona de Ary França é, ninguém mais ninguém menos, que Deus! Ele mesmo, aquele que criou o céu, a terra e que ainda descansou no sétimo dia. Não deixo de ficar um pouco confuso pois, no meu universo imaginário, eu já tinha aceitado que Deus era a cara do Morgan Freeman. De qualquer forma, este Deus de Ary França (que no original de Brecht era composto por três deuses diferentes), já entra pra galeria de personagens difíceis de esquecer: ele aparece pedalando uma bicicleta com uma bexiga na frente, carregando no ombro um passarinho – que mais parece um pintinho – completamente destroçado. Na seqüência, ficamos sabendo que o pintinho é na verdade uma pomba (talvez seja mesmo uma pomba e eu é que não entenda nada de aves), mais precisamente a pomba do Espírito Santo (ou talvez eu não entenda nada de Espírito Santo).

Deus aparece na cidade de Setsuan com o firme propósito de encontrar uma boa alma, sob o risco de, se falhar na procura, resolver acabar com o mundo. É aí que entra a prostituta Chen Te, uma mulher que, de tão boa, não sabe dizer não (ops… ficou com um duplo sentido, não é mesmo?). Vamos reformular então: Chen Te é tão bondosa que, sem se preocupar com os seus próprios desejos, satisfaz as vontades de todos que a rodeiam (continuou com duplo sentido, não é mesmo? Desisto!!). O fato é que Deus descobre que Chen Te é a boa alma que procura e resolve lhe dar de presente 1000 moedas de ouro (só pede a ela que seja discreta, afinal de contas ia pegar meio mal se descobrissem que Deus andou dando dinheiro para uma prostituta… Já pensou as implicações? Já pensou na capa da Veja? Imagine o William Bonner lendo esta notícia…)

De posse das 1000 moedas de ouro, Chen Te é presa fácil para todos os vigaristas que a rodeiam. Ela logo perde o dinheiro, se endivida, arranja um namorado explorador e se mete em outras confusões. Pra tentar fugir deste círculo vicioso ela tem que inventar uma nova personalidade, um primo, Chui Ta, que sabe fazer o que Chen Te nunca conseguiu: dizer não a todos que a rodeiam.

Após o estabelecimento deste conflito principal, o humor passa a ser a motriz da encenação, graças ao time de comediantes reunidos na montagem. Impossível não pensar em Trapalhões, Três Patetas, Monty Python, dentre outros. Somos bombardeados com todo tipo de humor pastelão, com direito a muitas gozações com a cultura oriental, cenas à la Karate Kid, bombinhas sendo arremessadas contra integrantes do elenco, brigas em slow motion, piadas de conotação sexual, e assim por diante. O público se diverte muito e morre de rir com as gags e com as personagens criadas.

Ao final, uma atitude corajosa: a reprodução fiel do texto de Brecht: questionador, difícil e longe de ser conclusivo. O público que ria muito até ali, e com certeza esperava um final convencional, parece fechar a cara e sair sem querer pensar sobre o que foi dito. Na saída do teatro, ouço várias pessoas reclamando da peça. Fico me questionando sobre que razões levam a maioria do público a não querer pensar, a não querer ser confrontado com questões que possam tirá-lo, mesmo que por alguns momentos, de uma zona de conforto. Os responsáveis pela montagem em cartaz no Renaissance fizeram a sua parte e mantiveram as questões do texto de Brecht. Fica a critério de cada um refletir (ou não) sobre o que foi apresentado.

1 platéia querendo fugir do teatro pra comer pizza

P.S. O pessoal aqui da Bacante é bastante eclético. Além de sermos dublês de críticos teatrais, nós também mandamos bem como psicanalistas e psiquiatras. Se você quiser marcar uma horinha com a gente, pode mandar o seu e-mail para tarde_no_divã_da_bacante@bacante.com.br. Também sabemos ler tarô, jogar búzios e ver o futuro na borra do café. Com todo este nosso profundo conhecimento, foi impossível não perceber que a personagem Chen Te sofre do que hoje é conhecido como co-dependência (sabe como é né?, ela está sempre mais preocupada em resolver os problemas dos outros do que os seus próprios problemas…). Se você quer saber se é co-dependente, pode fazer um teste rápido aqui. Se você descobrir que é co-dependente e quiser resolver os NOSSOS problemas, mande o seu e-mail para quero_doar_1000_moedas_de_ouro_pra_bacante@bacante.com.br. A gente promete que te manda um bottom da Bárbara Heliodora como agradecimento.

O que a galera acha

23 comentários até o momento

  1. 1) filho, você contou uma boa parte da peça que estraga a surpresa para o público. e tira a graça do trabalho do encenador…

    2) isso não era para ser uma crítica?

    beijo.

  2. Marco Albuquerque says:

    Oi Maria Clara,
    1 – Acho que você tem certa razão. Por um lado, talvez o texto pudesse ser precedido por uma mensagem indicando que contém “spoilers”, ou algo do tipo.
    Por outro lado, o que efetivamente está descrito na crítica são os momentos iniciais da encenação (a descrição efetuada não excede os quinze minutos iniciais do espetáculo) e o aspecto principal desta obra de Brecht (a dualidade Chen Te/ Chui Ta), que é citado em qualquer texto sobre a peça e portanto não deveria estragar a surpresa pra ninguém que optasse por ler algo (como, por exemplo, esta crítica) sobre o espetáculo antes de ir assistí-lo.
    2 – Na minha modesta posição de dublê de crítico teatral eu considero que o texto é uma crítica. O que você acha que faltou?
    beijo

  3. 1) bom, todas essas coisinhas que podem (e talvez sejam) ser detalhes no começo fariam muita diferença para mim, que sou encantada… então, ter lido sua crítica antes me tira um pouco dessa magia.

    2) humm… me pareceu mais uma descrição do que uma crítica. não sei. quase uma narrativa. sua visão pessoal, mas sem lirismo. sua fórmula pronta.

    talvez eu não saiba mesmo o que é uma crítica. rsrs

    mas eu gosto de ser tocada.

    ouse. subverta. seduza.

    se fosse fácil eu mesma faria(!). rsrsrs

    beijão.

  4. Amanda França says:

    gostei muito do espetáculo
    e fui ver pela sua critica…
    abraço

  5. Marco Afer says:

    Sou leigo em questão de crítica, mas gostei do que escreveu meu xará.
    Assim como na peça seu texto tem humor e reflexão.
    Vi a peça na última 6ª feira e adorei é imperdivel!

    Grande abraço!

  6. William says:

    Tb acho que parte do encantamento de um espetáculo está nas surpresas que com tanto carinho os atores e diretor preparam para o público. Contar estas surpresas é estragar um pouco do espetáculo. O que isto tem de crítica?? Acho que nada… uma pena!

  7. Íris neves says:

    É Marco,você estragou a minha surpresa, agora que sei disso, perde um pouco da magia.

  8. Mau Alcântara says:

    Carinho? Magia?
    Eita.
    hehehe

  9. marcio says:

    obrigado, me poupou de ir assistir a peça

  10. Lia de Carvalho says:

    Após ler este enorme comentário sobre a peça me interessei bastante e fui ao teatro assistir.Me surpreendi com a integração dos atores com a platéia e gostei muito.
    Houve modificações , pois os atores não ficaram de costas no início da peça e logicamente as brincadeiras para com a platéia foram outras também.
    Valeu a pena ter lido pois caso contrário não iria ao teatro Renassaince…

  11. márcio roberto says:

    nem li o texto justamente pra nao perder a surpresa da peça… onde estão se apresentando?

  12. Se gostar, comenta comigo é no teatro Renaissance lá da alameda santos num deve ser barato, mas deve valer à pena!!!
    bjus

  13. márcio roberto says:

    é, vou ver se assisto a peça na próxima semana, qq coisa comento aqui, faço minha crítica….bjx

  14. Jony says:

    Oi, assisti a peça no domingo dia 21/03 – no teatro São Pedro- em Porto Alegre e realmente a peça é fabulosa, espetacular. Apesar de conhecer a história foi maravilhoso ver o excelente trabalho dos atores, tanto no palco como nos recepcionando na entrada do teatro. Eu recomendo.
    Abs

  15. E um bom espetaculo, e o testo de brecht, são muitos bom, e sempre bota o povo para usa o juiso, a direção do especula usou bastante o cernario e a sonoplastia e maravilhosa com aquele bg, e no teatro de santa isabel fcou maravilhoso..
    paulo germano sonoplasta do teatro de santa isabel

  16. Laura says:

    Scho que esse Paulo Germano Vieira da Silva devia aprender português antes de escrever qualquer coisa na internet.

  17. Mariana Nunes says:

    Estou indo ver a peça ….. ótimo comentário !

  18. CINTHIA M GALVAN says:

    ASSISTI ESSA PEÇA E ODIEI.O HUMOR É PATETICO,AS DIALOGOS NÃO TEM NEM COMEÇO,NEM MEIO NEM FIM,VC PERDE 2 HORAS DA SUA VIDA COM UM TEXTO Q PODERIA SER MELHOR EXPLORARO,E NAO RIDICULARISADO COMO É,

  19. joao paulo says:

    nao entendi o q q uma “pomba” simbolizando o espirito santo tem a ver com a chima da peça. Isso tem no texto original?

    Achei o tom de comedia um pouco exagerado, principalmente pela presença canastrona de Ari França, ele perde a mao ao exagerar alguns improvisos tentando roubar risadinhas nas primeiras filas, eh logico q consegue, ja nao se fazem plateias como antigamente

  20. Paulo Germano Vieira da Silva says:

    E um bom espetaculo, e o teXto de brecht, são muitos bons, e sempre bota o povo para usar o juizo, a direção do espetaculo, usou bastante o cenario e a sonoplastia é maravilhosa com aquele bg, e no teatro de santa isabel fcou maravilhoso..
    paulo germano sonoplasta do teatro de santa isabel

  21. Elaine Nudelman says:

    Paulo, parabéns pelo seu esforço, mas faltou acentuar algumas palavras e rever a pontuação.
    Referente aos comentários sobre a peça, impossível não se encantar com a atuação da Denise Fraga. Abbs.

  22. Luciano says:

    Rsrs… quase caí duro, ao entrar no teatro e ver a Denise entregando os programas e agradecendo a quem entrasse no teatro, em Americana, interior de São Paulo… gostei muito da peça e recomendo…


Trackbacks/Pingbacks

  1. Internetfull | Caderninho da Hiperatividade - 09. Mar, 2010

    [...] Bretch: como ser bondoso sem submeter os próprios desejos – e necessidades – à ganância alheia? [...]

E você, o que acha?

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