Críticas

A Comédia do Trabalho

por Fabrício Muriana

2 Comentários 19 August 2008

O riso alheio

Fotos: Lenise Pinheiro / Douglas Estevam (não dá pra saber pelo site do Latão)

Já que o nome da peça é A Comédia do Trabalho, aproveitei o momento da fruição pra fazer um estudo empírico sobre os efeitos da comédia. Para não terem dúvida de que fui parcial na decisão, escolhi como cobaia dos primeiros apontamentos sobre a comédia contemporânea a filósofa, crítica e acadêmica sempre próxima do movimento de teatro de grupo de São Paulo, Iná Camargo Costa. A metodologia foi a seguinte: estando eu na penúltima fileira e ela na última, todas as vezes em que consegui ouvir a moça dando risada, anotei a frase proferida na cena que causou o riso. Algumas frases do início da apresentação foram perdidas, mesmo assim podemos ter uma idéia do teor e da complexidade do humor da peça pelos apontamentos registrados.

Para que o leitor (ou a leitora) possa ter uma contextualização mínima, a Comédia do Trabalho é uma montagem da Companhia do Latão, desenvolvida num processo de criação coletiva da dramaturgia e, segundo o site da Cia., foi a montagem mais assistida do grupo, com um público que supera 70 mil pessoas. A história é a de Léo e Créo, dois banqueiros que querem vender o banco depois de um corte de funcionários. Estão nela também os funcionários da instituição financeira, que se manifestam, puxam saco, trabalham, dizem que vão se suicidar e morrem. O distanciamento e o humor dão o tom dessa montagem que eu e Iná Camargo Costa vimos no Sesc Pompéia. Vamos às frases:

“O que quer dizer a palavra bucétuda?”
Neste momento a personagem que é um misto de auto-ajuda com consultora de RH reloaded (proporcionalmente a que mais causou risos na cobaia) tenta ler inscrições no banheiro masculino da instituição financeira.

“Sejamos vanguardistas, dadaístas, futuristas…”
Léo (ou seria Créo?) comenta de sua idéias administrativas para o futuro.

“Aquela que foi água outrora, tão quentinha e salobra”
A mesma moça do “bucétuda”, comentando sobre a urina de um dos funcionários da instituição financeira que pretendia se matar.

“Você sabe que agora eu só uso homeopatia”
Léo (ou seria Créo?) começando seu novo tratamento pra ficar mais zen.

“As duas metades da minha rubra janela serão tuas”
A moça oficial dos recursos humanos dando em cima de Créo (ou seria Léo?).

“A antena da televisão levando a verdade a milhões de casas”
Uma das funcionárias da instituição financeira, em momento de reflexão.

“Sr. Nulio, o Sr. precisa reintegrar sua Psiquê”
Novamente a consultora de RH, agora dá dicas ao suicida de como reestabelecer seu indivíduo.

“Não dá o peixe, promove um seminário de pescaria”
Investidor estrangeiro mostra o futuro do banco, após sua venda pelos irmãos Léo e Créo.

“Suruba”
Dispensa contexto.

“A Luta de Classes não acabou, que merda”
Créo (ou seria Léo?) refletindo sobre a atualidade das definições de Karl Marx.

Não há uma conclusão sobre esse primeiro estudo. Algumas hipóteses se apresentam, no entanto, a comprovação se dará somente com estudos posteriores e comparativos em que consideraremos a recepção de outros públicos. Vamos à hipóteses:

1 – O teatro épico brechtiano ainda consegue colocar nossa sociedade em crise por meio de mecanismos que abrem fissuras na lógica do drama burguês, por isso os risos de Iná. Resta saber se com essas fissuras não acaba por expandir o mesmo drama burguês. Quase como se pudéssemos falar hoje de uma [wannabe] burguesia ampliada.

2 – Não se levar a sério abre possibilidades de crítica que tanto nos tempos de Brecht quanto hoje ainda foram muito pouco explorados no teatro. Mais uma razão dos risos de Iná.
3 – Confundir despreparo dos atores com mecanismos de distanciamento pode resultar numa dupla comicidade. Nesse caso não é possível saber do que Iná ria.

2, pelo menos, risos complacentes dentre os anotados acima.

Ps: No site do grupo é possível encontrar críticas da época em que o espetáculo foi apresentado pelas primeiras vezes. Vale a visita.

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. salvia says:

    Leninista ri a toa. Mas só nas comedias autorizadas pelos lideres.

  2. Fabrício says:

    O riso era verdadeiro, Sérgio.


E você, o que acha?

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