Críticas

A Curandeira

por Juliene Codognotto

3 Comentários 20 May 2008

Diálogo aberto ao público

Fotos: Alexandre Diniz

“São Paulo, 20 de maio de 2008.

Cara Adriana Fortes,

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Estabeleço, por meio desta carta, um diálogo diretamente com você sobre a peça A Curandeira – diálogo que pretende ser tão honesto quanto aquele que você estabelece com o público, ao representar um texto que você mesma concebeu, com fé cênica difícil de ser comparada aos trabalhos que vi recentemente. Não sei se é o seu texto que convence tanto dessa verdade, mas sei que são olhos muito intensos e sinceros os dessa curandeira, que vem propor um novo jeito de olhar pro mundo, de modo que a gente enxerga escutando. Abrindo os ouvidos, mesmo que para as pedras, tão difíceis de se ouvir.

As histórias baseadas principalmente na cultura indiana – que vão se enfiando no seu discurso sensível – são coerentes, mas não essenciais. São bonitas, metafóricas, mas não trazem a mesma verdade da expressão dos sentimentos da curandeira, presente quando ela narra, por exemplo, o dia em que ouviu a própria Terra – nem sei se uso “t” maiúsculo, já que quero dizer, ao mesmo tempo, planeta e chão. O canto da terra, aliás, é das passagens mais intensas da sua interpretação e, mesmo, do processo de criação. Afinal, quanto tempo se leva para concluir como falaria a Terra se nós a ouvíssemos? Ou como seriam sua voz e suas expressões? E quanto trabalho é preciso pra colocar isso em cena? Em som e imagem?

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Temo, Adriana, ao refletir sobre a peça e mesmo ao reler meus dois primeiros parágrafos, que a fruição da sua lógica sobre o ser humano aconteça somente na superfície. Os discursos-ecobobos-hipócritas que estão na moda contribuem pra que a leitura do seu texto não seja plena e não chegue às críticas mais profundas contidas nele, já que ele não trata unicamente de “defender a preservação da natureza” – embora seja isso também.

A crença da curandeira de que existe função pra tudo neste mundo – inclusive para o homem – e sua tentativa de compreender qual seja esta função são, por exemplo, questões tão profundas que às vezes me parece não chegarem ao público plenas de seus significados, mas esvaziadas em meio a muitas outras reflexões e falas. “Pra que serve o homem? Pra criar Deus?” – é uma das falas que, misturadas a um longo texto, correm o risco de perderem sua riqueza de sentidos. Em outro momento, dar a própria vida em sacrifício à Terra e, sobretudo, decidir sair pelo mundo vivendo de um jeito novo é atitude reveladora de impulsos que muitos de nós temos, às vezes diariamente, quando estamos presos no trânsito de São Paulo, por exemplo.

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Na cena mais tocante pra mim, em que você, atriz, se livra do figurino e prova, ali, que um personagem é composto por muito mais do que seu vestuário característico, fica clara sua identidade com aqueles sentimentos e sua entrega completa. Tanto, tão forte, que fico me perguntando se essa peça existiria sem a sua atuação. Não, isso não é um reparo ou um desprezo pelos demais elementos – direção, iluminção, figurino, todos bastante harmoniosos – é, na verdade, mais uma questão que revela algo sobre este trabalho, algo muito contemporâneo que eu chamo aqui de identidade, mas que pode se nomear de muitos jeitos. Trata-se daquela particularidade, daquele envolvimento criativo (que deduzo ter sido sobretudo seu e da Melani Halpern) que tornam a montagem um pedaço de quem a criou. E estes pedaços de ser humano, expostos e investigados em cena, tornam o teatro cada vez mais um encontro único, que é o que é.

Ainda sob os efeitos da peça,

Juliene Codognotto.”

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4 Adrianas Calcanhottos cantando “Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado…”

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Flávia says:

    Concordo plenamente … sai da peça … flutuando… acreditando que existe muito além do que podemos ver…
    Alecrim…alecrim para todos

  2. geraldo chacon says:

    Lindo, tudo maravilhoso!!

    Que bom que a peça acaba de entrar de novo em cartaz.
    prof Chacon

  3. Kel Ribeiro says:

    Olá!
    Vou assistir a peça e estava procurando opiniões de quem já assitiu a mesma, essa foi a primeira que li, não vou ler mais nenhuma, e mal posso esperar para contemplar.
    Obrigada pelo texto!
    Beijos


E você, o que acha?

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