Críticas

A Italiana em Argel

por Juliene Codognotto

1 Comentário 02 July 2007

Hoje tem ópera? Tem, sim, senhor!

Fotos: Sylvia Masini

Num luxuosíssimo Teatro Municipal, freqüentado pela nata da sociedade paulistana (como mostra Joyce Paskowitch no glamuroso Glamurama), uma ópera italiana não é o que se pode chamar de novidade. O original e atrativo desta apresentação de A Italiana em Argel, de Gioachino Rossini, fica por conta da direção de Hugo Possolo, palhaço, ator, dramaturgo e um dos donos do Espaço Parlapatões. Um palhaço dirigindo uma ópera é algo a se ver. No entanto, no mesmo Glamurama, você pode ver o palhaço vestido de gente séria. Com gravata e tudo! Será que foi em homenagem à presença do digníssimo ex-presidente e eterno “príncipe dos sociólogos” Fernando Henrique Cardoso?

Um chef italiano “bona gente” aparece no início da peça para nos dizer que aquela é uma “ópera-bufa”. Na verdade, o gordinho só está ali mesmo pra receber o pessoal, fazer um social, apresentar os músicos e explicar que o que vamos ver é uma ópera engraçada, em língua estrangeira. Ok, e lá vamos, mas não sem antes observar que a presença da Orquestra Experimental de Repertório, sob o comando do maestro Jamil Maluf, torna a apresentação especial. Os músicos ficam à frente e abaixo do palco, no que se chama, por um incrível mau gosto, de fosso do teatro. Também lá, fica o Coral Lírico. Saindo do fosso para o palco, o que encontramos é uma história meio tolinha e preconceituosa, com algumas inserções divertidas.

Muitos atores-cantores contam a saga de uma jovem que sai da Itália a procura do noivo. Iludindo um marinheiro boboca e apaixonado, Isabela consegue chegar à Argélia, onde seu amado virou escravo do rei Mustafá. Iludindo o próprio rei (que, numa coincidência perfeita, estava procurando uma italianinha para o seu harém), ela consegue salvar o noivo e voltar para sua pátria. Interessante notar que a italiana, de cara, se mostra muito mais esperta e descolada que todos – absolutamente todos – os argelinos da história.

Mais engraçado ainda é notar que muitos definiram A Italiana da mesma maneira. Só posso concluir, com isso, que quem escreveu que “A Italiana em Argel é uma engraçada história de choque de culturas”, copiou palavra por palavra o release que recebeu do assessor de imprensa do Teatro Municipal. Isso porque não é lá tão engraçada a tal ópera, nem muito menos fala inocentemente sobre um choque de culturas.

Ao contrário, a obra é nacionalista ao extremo e esfrega a bandeira italiana na cara da platéia a cada momento – isso sem falar em quando aparecem, ao fundo, 1104 formando, de fato, a bandeira, que é pra não deixar dúvidas. Embarcando nesta perspectiva, o preconceito contra os argelinos salta fácil das bocas cantantes e, como brincar não ofende, está permitido falar as maiores baboseiras tendo por referência as nacionalidades distintas.

Não bastasse o preconceito contra os argelinos, A Italiana vai além. Travestido de peça feminista, que valoriza a coragem de uma mulher, o enredo, na verdade, é bastante machista, numa história contada do ponto de vista masculino, que gira em torno de homens e em que todas as qualidades das mulheres se referem ao relacionamento que têm com seus atuais ou pretensos cônjuges. Em poucas palavras: Isabela é legal porque sabe enganar um homem poderoso e malvado para salvar seu grande amor. Elvira (mulher do rei) não é legal porque não consegue o amor do marido e só o irrita. Claro que Isabela tem diversas características de uma mulher mais forte e independente, mas ainda é muito pouco, convenhamos. Há que se considerar, ainda, que a peça foi escrita em 1813, o que permite relevar o machismo do escritor, mas não o dos produtores de 2007.

Cada frase dita/cantada por um personagem aparece numa legenda, logo ali, acima do palco, o que, em se tratando se Teatro Municipal, não é tão “logo ali”, assim. Além disso, a fala é repetida, no mínimo, três vezes, em ritmos distintos pra mostrar como os sopranos, meio-sopranos, baixos e barítonos cantam bem. Que me perdoem (ou não) os entendidos de ópera, mas a repetição só me fez pensar, durante todo o espetáculo, que a peça poderia ter um terço da duração.

Antes de terminar, devo assumir que não entendo muito de ópera, nem de música, o que me impede de opinar sobre a afinação dos atores e questões relacionadas. O que posso dizer é que estavam muito bem entrosados, ajudados por um figurino muito original, haja vista a inserção criativa de diversas gravatas nas roupas de todos os personagens italianos. Posso, também, ressaltar que, sem cambalhotas, nem trapésios, Possolo consegue, com um pouco de malabarismo e vários detalhes simples, fazer com que a ópera apareça recriada no picadeiro, digo, palco.

Em meio a tanta grandiosidade, quando escolhe utilizar dois barquinhos de brinquedo motorizados para representar o choque entre dois navios, o diretor acerta e conquista, aí sim, boas risadas. Pra ser sincera, eu esperava rir mais, mas não vai aqui uma crítica. Até porque, pode ser que o brilho das roupas na platéia e as frases de efeito pseudo-intelectuais ouvidas aqui e ali durante o intervalo tenham tirado meu bom humor. Deve ter sido isso mesmo, afinal, dizem as más línguas que até o digníssimo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre tão discreto, se desmanchou em gargalhadas. Dizem…

1.104 balões para formar a bandeira italiana

O que a galera acha

1 comentário

  1. Reinaldo says:

    Boa noite;

    Eu gostaria de saber como posso adquirir um dvd da Ópera Uma Italiana em Argel encenado no teatro municipal de São Paulo.


E você, o que acha?

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