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Críticas

A Julieta e o Romeu

por Anônimo

6 Comentários 23 July 2007

Coragem de rir

Em respeito à Semana do Anônimo Feliz, não identificaremos o autor deste texto.
Foto: Vitor Damiani

Não, não é mais um Hamlet (aliás, fica avisado que a Bacante não cobre mais Hamlets este ano). Apesar de ter uns trechos de “ser ou não ser”, o espetáculo A Julieta e o Romeu é, na verdade, uma grande brincadeira séria de dois palhaços que utilizam fragmentos de obras de William Shakespeare (Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo e Macbeth ) para poder rir, com toda a liberdade, dos atores, de seus apegos e de suas técnicas.


Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria – aquele grupo de palhaços que visita hospitais – disse em entrevista que “o processo de ser palhaço é a pessoa no seu aspecto mais inocente, mais bobo, dividindo o ridículo com as pessoas”. Não há como discordar. Mas, para além de expor o próprio ridículo, o que Mafalda Mafalda (é nome composto mesmo) e Zabobrim fazem no palco do Teatro Fábrica é expor o nosso ridículo, é nos fazer pensar rindo e rir pensando.

Rimos da pretensão de Mafalda, do caráter submisso de Zabobrim, de tentativas de suicídio, de remédios de tarja preta e – por que não? – da morte de Antônio Carlos Magalhães. Aliás, a brilhante e politicamente incorreta sacada de incluir ACM em uma lista de pessoas velhinhas ou falecidas (exatamente no dia da morte do senador – sexta-feira, 20 de julho), demonstra com perfeição o que mais me admira na palhaçaria: a coragem para rir do que algum dia alguém disse que não era risível.

No final das contas, o pobre do Shakespeare aparece muito pouco, perdendo espaço para a caracterização radicalizada do palhaço branco (chato e mandão) realizada pela atriz Andréa Macera e, sobretudo, para o intenso trabalho corporal que o ator Esio Magalhães desenvolve para compor um palhaço augusto (boboca e brincalhão) que procura demonstrar ao público, com direito a cueca de oncinha, as técnicas de interpretação que aprendeu com Mafalda. Esio comprova sua preparação corporal também em Freguesia da Fênix, espetáculo em cartaz no mesmo espaço, em que o ator interpreta três personagens.

E já que a idéia é brincar, vale apostar em muitas interações com o público, na magia da sanfona e até mesmo numa ingênua brincadeira com a luz, que mostra que a iluminadora Alice Possani está esperta e integrada no processo.

Segundo o rilise da peça, Sue Morrison, mestra de Andréa e Esio no curso “O Clown através da máscara”, onde os dois se conheceram, se baseia na idéia de tribos indígenas norte-americanas de que “o homem deve ser ver em várias direções para se encontrar com o ridículo da beleza humana e com a beleza desse ridículo”. Contraditórios e complementares, Mafalda e Zabobrim são um encontro de extremos que nos faz ver o quanto pode ser belo ser ridículo. No final do espetáculo, os atores apresentam seus narizes, para os quais batemos palmas animadamente, porque naquelas bolotas vermelhas estão a sensibilidade e a coragem de uma arte.

4 piruetas com cueca de oncinha

O que a galera acha

6 comentários até o momento

  1. anônimo feliz says:

    O anônimo feliz autor do texto não falou que a além da influência da Sue Morrison (que vai estar no Brasil novamente em agosto), a direção impecável é da Naomi Silman (a palhaça do Lume que faz “O não lugar de Ágada Tchainik”), e só pra constar, o espetáculo levou o prêmio de melhor espetáculo no festival de Pindamonhangaba no ano passado.
    E já que gostaram tanto do Ésio em cena, vale a pena assistir o seu solo “WWW pra Freedom”. Nào sei se está em cartaz aí em Sampa, mas é muito bom!!!

  2. Anonymous says:

    Bacana, Anônimo! Valeu pelas informações. Quanto à direção, na verdade, tudo parece um grande e competente improviso, tão natural que quase esquecemos que eles foram dirigidos. Gostamos do Esio, sim, e também da Andrea, que é uma atriz mega-generosa. Vamos pesquisar este outro espetáculo (WWW para Freedom). Está em Campinas?

    Um abraço e valeu por ter entrado no clima feliz!

  3. anônimo feliz says:

    Uai, não sei se o www para freedom está em Campinas, pq eu assisti em um festival em Uberlândia no ano passado! Mas deve estar acontecendo por aí em algum canto, pq eles nunca param!
    Lógico, sem a Andrea, o palhaço do Ésio não funcionaria tanto nesse espetáculo, daí a importância do branco. E o valor da direção da Naomi é exatamente esse, fazer com que tudo parecesse como se estivessem fazendo pela primeira vez!

  4. Anonymous says:

    Opa, Uberlândia! Foi mal, achei que você fosse de Campinas pela proximidade que tem com o grupo!
    Enfim, concordo com tudo. A direção é responsável por essa sensação de “improviso”. Bom demais. E tb, o branco deixa o augusto mais divertido e forte, sem dúvida.

    Quando vir www vou oferecer a resenha pra vc, ok?

    Valeu!
    Beijos.

  5. anônimo feliz says:

    Ah já é!
    A tal “proximidade” é q eles tão em todos os festivais por aí! Não tem como não esbarrar!
    E nossa! Vou aguardar uma resenha especialmente pra mim!
    Valew tb!

  6. adam says:

    se alguem souber como faço para ver as peças de Zabobrim me avisem vi uma no itau cultural ha uns dois anos e nunca mais consegui ver…o cara é ATOR….se alguém souber por favor…adam_aguiar@hotmail.com


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