Críticas

A Noviça Rebelde

por Maurício Alcântara

10 Comentários 05 May 2009

Dó Ré Mi Mofado

Voltar ao longínquo Teatro Alfa para ver um musical é sempre emocionante – seja pela adrenalina de lembrar o quão longe é aquele teatro quando já se está bem no meio do caminho (e torcer para não encontrar nenhum congestionamento); seja pela surpresa de saber que o estacionamento “alternativo”, em frente ao teatro, que sempre tinha um preço mais camarada (leia-se menos extorsivo), agora traz uma plaquinha de 22 reais (enquanto o Valet do Alfa/Hotel Transamérica custa “apenas” 20 reais. Bom, problema meu que decidi ir de carro. Musical por musical, podia ter ido no Abril, que é pertinho do metrô (não que o público daquele teatro precise saber disso, mas enfim).

Nota da edição: Vale lembrar que a Bacante nasceu de um papo dentro do saguão de mármore do Alfa – portanto não havia possibilidade de dar certo.

Mas nenhuma sensação é maior do que a ansiedade de saber se as três horas passadas ali no teatro-ultra-bem-equipado-e-chique seriam de prazer ou de angústia. Musicais sempre são imprevisíveis (mentira, em geral são BEM previsíveis), mas eu sempre tenho a esperança de sair cantarolando alguma musiquinha, ou ao menos sorridente de ter visto uma apresentação mais divertida do que incompleta. O formato para que isso aconteça já vem pronto, dado pelos marqueteiros/produtores das montagens internacionais, aprendido ao longo de anos com o turismo internacional. Só é preciso que nossas produtoras locais acertem a tomada (110 ou 220 volts?) e principalmente a mão na hora de levantar a versão tupiniquim, o que é ooooutra história.

Numa rápida olhada a outras críticas já publicadas na Bacante para musicais, é possível resgatar algumas leituras e argumentos que poupam a redundância para falar do contexto em que essa montagem de A Noviça Rebelde é apresentada em São Paulo, “após imenso sucesso em sua temporada no Rio de Janeiro”:

  • em My Fair Lady ocorre uma brevíssima contextualização sobre musicais apresentados em São Paulo nos últimos anos, além de mencionar que até mesmo as montagens que permitem uma adaptação mais livre não fogem da provinciana vontade de fazer “quinem” na Broadway;
  • em West Side Story é apontado o que pode acontecer quando a produção, na hora de criar a adaptação nacional, está mais preocupada com o quão bonito vai ficar o espetáculo do que com a contextualização conceitual do que nele é apresentado;
  • em Os Produtores é apontado o que acontece quando o estrelismo aproveita essa “liberdade de adaptação” para subverter o espetáculo em nome da autopromoção (vale lembrar que essa peça até teve bunda indicada ao prêmio Bacante!);
  • com Miss Saigon, deu pra pensar na real necessidade de se criar espetáculos ultratecnológicos e megalomaníacos;
  • em Aída é ressaltado que ok, quer trazer um musical pro Brasil? Traz com alguma coisa com qualidade, né?;
  • ainda em Aída (quase um trocadilho, hein gente!), como não poderíamos deixar de comentar, falamos de como é caaaaro assistir a um musical em Sampa;
  • já que estamos falando de dinheiro, dá pra emendar a crítica do Fuerzabruta, que fala um pouco do contexto econômico, político e turístico dessas megaproduções;
  • e pra finalizar, vale pensar: e quando surgem AQUI espetáculos neste mesmo formato gringo? Vale uma olhada em Senhora dos Afogados e Beatles num Céu de Diamantes.

Óquei, mas e quanto à Noviça Rebelde? Da mesma forma como essa crítica fica entrecortada com todas essas referências, essa versão de The Sound of Music também soa fragmentada, não de todo afinada. Não, não estou falando dos atores, mas da montagem mesmo. É difícil enxergar unidade num espetáculo que a cada momento parece querer “gabaritar” no uso de todos os recursos técnicos do teatrão gringo (cenários megalomaníacos e ultra-realistas, transições tecnológicas de cena, etc) ao mesmo tempo em que tenta inovar (como, por exemplo, no uso de vinhetas em animação gráfica que mais lembram as temíveis vinhetas do plim-plim da Globo) e se esquece do mais importante: criar uma encenação que não baseie suas marcações apenas nas poses fotográficas do elenco a cada canção, da mesma forma como garantir que as interações e diálogos entre os personagens não tenham aquela estrutura robótica do dramão naturalista.

Talvez isso (e não a megalomania da produção) já fosse suficiente para tirar um pouco da poeira deste musical da família-cantoria. Neste aspecto, o que mais chama a atenção é a interpretação, ainda que contida (e subaproveitada), de Saulo Vasconcelos, talvez um dos primeiros “veteranos” dessa safra de musicais no Brasil, que substituiu Herson Capri no elenco inicial desta montagem.

Mas que é intrigante imaginar o Herson Capri cantando, ah, isso é…

dino09

20 reais de valet parking (aumentou 2 reais!)

O que a galera acha

10 comentários até o momento

  1. Julio says:

    Que esta é uma critica que não me serviu em nada, pois mais evasiva impossível e ainda Saulo Vasconcelosnão é o unico veterano da Montagem Kiara Sasso também

  2. Oi Julio,

    Evasiva? Prefiro chamar de hipertextual. Tudo que eu queria ressaltar tá aí, apontado nesses links – mostrar que não são questões só desta montagem, e sobretudo que ela não é única nem especial, nem pro bem, nem pro mal.

    Kiara veterana? Ninguém disse o contrário. Mas repare que não aponto o Saulo como o único “veterano”, mas como a única coisa que realmente me chamou a atenção.

    O resto, pra mim, é fator guti-guti.

    Abraço.

  3. SORAIA BENEVIDES says:

    kkkkkkkkkkk ta escrevendo pior que a encomeda hein! nada de novo no site!

  4. Soraia, o melhor ainda está por vir.
    Espere só pra ver o que estamos aprontando…

    Abraço.

  5. Anita says:

    Estou cansada de ler críticos (ou artistas) falando mal dos “recursos técnicos do teatrão gringo”. Chega, né? Ô papinho… Deixa os caras ganharem dinheiro e fazerem o que acham bacana, bonito, artístico… afinal, a antropofagia nunca sairá de moda. Tá cheio de artista brasuca fazendo igual ao Peter Brook e – apesar de eu achar o “ó” – ninguém fala mal!
    Calma meus colegas, tem espaço pra todo mundo.

  6. Oi Anita,

    Lê de novo, e você vai reparar que ninguém está falando mal dos “recursos técnicos”, até porque eles não fazem mal pra ninguém. Assim como ninguém está defendendo o Peter Brook em detrimento de outras linguagens. A questão é: apenas os recursos técnicos e a repetição de uma fórmula bastam, artisticamente?

    Abraços!

    PS: me fala quem é que tá fazendo igual o Peter Brook, que não vi ainda!

  7. Mas tem uma coisa legal que você levanta, Anita. O “tem espaço para todos”. Não concordo, mesmo, porque essa frase tem, pra mim, um senso de justiça que não acho que exista.

    Primeiro porque espaço é relativo: eu identifico pelo menos dois, o espaço-estrutura (local físico adequado, dinheiro, equipamento, etc), e o espaço-visibilidade (imprensa, público, crítica, divulgação). E não, não há para todos,

    Pensando nisso, agora questiono inclusive a utilidade dessa crítica para um espetáculo que já tenha muita visibilidade (mas aí entramos numa outra questão, também importante, que é a visibilidade publicitária e a visibilidade crítica, papo pra outra hora).

    Fato é que eu considero esse recorte/consolidação de todas as críticas de musicais já publicados aqui revelador de como tudo se repete sempre, o tempo todo, mais uma vez e de novo (pirutetas no palco).

    Mas vamos voltar à questão do espaço. Fazendo juízos de valor deliberadamente e genericamente: não é todo mundo que tem o espaço merecido, assim como não é todo mundo que merece o espaço que tem. Essa é a equação que não fecha (ainda que, por outro lado, acho que você tem razão ao levantar que sempre há a possibilidade de haver um mínimo de justiça: espaço pra quem merece, não-espaço para quem não merece).

    Agora pra problematizar: na teoria isso é claro, simples e tucanável. Mas e na prática, como se define esse “merecimento” sem cair no juízo de valor simplista? Como diria minha tia do interior, é aí que a porca torce o rabo.

    Por isso, são necessários recortes. O que faço é: artisticamente, o que é transformado/enriquecido com isso? Quais portas, ainda que minúsculas, cada produção abre para o fazer teatral (seja do Peter Brook ou dos próprios musicais, por quê não,) aqui no Brasil?

    Para mim, A Noviça Rebelde é um dos espetáculos que menos me apontam para essa resposta do ponto de vista artístico. Já do ponto de vista econômico, soa como manutenção de mercado, para que o público-turista não se desacostume com os musicais até que venham os próximos.

    Abraços,
    Mau

  8. Bueno, a fala de “Mau” sobre justiça me mostra exatamente a impressão que eu tive após ler a crítica: a de que 1) quem escreveu não gosta de musicais a la Broadway aqui e nenhum nunca parece que vai agradar a essa pessoa; 2) os musicais agradam menos porque, pelo que me pareceu, roubam público, espaço, artistas e o pior não necessitam de crítica.

    Acho que muito pode ser falado sobre a “Noviça Rebelde” com margarida e não com edelweiss. De longe se vê o Macdonaldismo jeito de fazer. Agora questionar o valor artístico é algo que só tem um único objetivo: chorar pitangas!

    Os musicais são lindos. É um gênero e tanto e que bom que está sendo feito. Não é brasileiro? Não, não é. Mas o que é brasileiro? Só penso no gênero Teatro de Revista. Alguém está fazendo ele aqui?

    Copiar os musicais dos States é o mesmo que montar Becket.

    Que seja bem feito o que for que tiver que ser feito!

  9. Rodrigo,

    Oi???

    Abraço,
    Maurício

  10. E aí Mau,

    tudo bem???

    Abraços do

    rsrsrs


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