Uma Peça Correta
Foto: Ary Brandi

Um espaço cênico bem escolhido, uma atuação precisa, uma iluminação competente e um texto de Hilda Hilst são suficientes para criar uma peça inesquecível? Este é o questionamento que tive após assistir ao monólogo A Obscena Senhora D., encenado pela atriz Suzan Damasceno no SESC Consolação (ou Anchieta, para os mais íntimos).
A peça é toda certinha. A produção se apropriou de um cantinho com paredes irregulares e aspecto degradado no 3º andar do prédio da unidade do SESC, ideal para um clima de abandono ao qual se encontra a personagem. Compondo o cenário, um aquário com peixes de papel e um chão com terra e palha.
Sem grandes apropriações do texto, o espetáculo se calca quase que inteiramente na atuação de Suzan, uma atriz antuniana (do verbete, aquela que teve influências cênicas de Antunes Filho e guarda no corpo a marca dos guarda-chuvas) com sete anos de CPT (Centro de Pesquisas Teatrais). Ela encarna a viúva sexagenária que vive entre a loucura na sua solidão e a relação tumultuada com os vizinhos. No último caso, ela joga com as máscaras sociais, ao se destitui da máscara humana da normalidade e vestir a da insanidade para causar escândalo, por puro prazer em provocar os mais puritanos.
Para completar, o texto de Hilda Hilst sobre a mulher que, após perder o marido resolve ir morar num vão de escada, traz nuances sobre a solidão e a velhice – da desistência da vida perante a morte de alguém querido, da busca por um Deus sem muito sentido.
Apesar de tudo isso, a pergunta que fiz no início desse texto continua. Pode-se dizer que é um espetáculo correto – com todos os elementos cênicos necessários. Contudo, não chega a emocionar e, com tanta técnica e precisão por aí, ficou faltando um pouco de emoção. Não que a atriz não tenha demonstrado sua carga de sentimentos, até nisso a encenação foi correta, mas senti falta de uma releitura do texto, que transformasse mais em imagem e em cena as palavras de Hilda. Em dado momento, foi inevitável dar uma dispersada na mente, em meio às falas reproduzidas em um tom contínuo. Não tô dizendo que não seja possível se fazer uma peça inteira sentada, só com falas – vide Denise Stoklos, que já fez um monólogo em que só mexia um braço para virar as folhas de um caderno, e conseguia prender a atenção inteiramente. Outro bom exemplo é o de Fernanda Torres em A Casa dos Budas Ditosos. Mas a constância do ritmo da fala e a pouca exploração desse universo proposto por Hilda enfraqueceram um pouco a montagem.
Com tantas palavras no mesmo tom, se destacam os momentos em que ela imita a voz dos vizinhos falando com ela, às vezes muitos deles tagarelando um atrás do outro – e quando se lembra das conversas com o marido. Outra mudança bem vinda ocorre quando ela se levanta para xingar os vizinhos na janela – nesta cena, a intensa iluminação em seu rosto, contrasta com o resto das luzes soturnas da peça (outro aspecto técnico bem utilizado).
É claro que os amantes de Antunes vão adorar o espetáculo (apesar de não ter nenhum guarda-chuva em cena), justamente pelo seu rigor técnico. Mas, às vezes, tudo isso não basta para sair do teatro com reflexões mais profundas do que “onde vou jantar hoje?”.
3 peixinhos de papel
Concordo em genero, numero e grau. e acrescento q me foi possivel sentir solitária, incomodada, e querer viver intensamente, pois me veio a sensação de pena da senhora. que muito falou, mais pouco viveu. Muito técnica, e totalmente superficial. eu assisti no sesc Bauru
Discordo completamente! Assisti no SESC de Porto Alegre e achei a atriz maravilhosa, fiel à letra de Hilda Hilst e mais, talvez pelo meu encanto com a obra da escritora estava “com medo” de assistir a peça e saí surpresa, muito emocionada. Em momento algum me dispersei, para mim este foi um dos aspectos que mais me chamaram a atenção no excelente trabalho da atriz.
“É duro quando a pessoa vai assistir a peça com a peça pronta na cabeça…”
Já se perguntou se essa “monotonia” não foi proposital para, justamente, o espectador sair do teatro com a reflexão tchecoviana do “tanto faz!”
Não sei também. Talvez vc tenha razão.
Ou não. Eu é que não quero ter certeza de nada.