Críticas

A Pane

por Maurício Alcântara

3 Comentários 15 January 2008

Comer comer, comer comer, é o melhor para poder crescer

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Fotos: Marcelo Carnaval

Um carro pifa nos Alpes suíços e o motorista – um empresário – é forçado a pernoitar na casa de um juiz aposentado. Naquela noite e naquela casa (coincidência ou destino?), acontece uma brincadeira semanal de velhos juristas que não estão dispostos a jogar dominó: eles preferem brincar de tribunalzinho, e naquela noite o convidado seria o réu. O argumento até que é bacana – a turminha da lei tenta convencê-lo de que cometeu um assassinato. O julgamento ocorre durante um sofisticado banquete em que, entre uma garfada de comida e um golinho de vinho, a vítima vai se enrolando na teia preparada pelas aranhas de cartola, e logo o jogo se mostra bem menos ingênuo do que parecia no início. Longe de ter a complexidade de um processo kafkiano, o texto não decepciona – mas também não vai além daquilo que está descrito na sinopse (e olha que sinopse não é exatamente um tipo de literatura complexa, sacou?).

Nesses casos, é legal quando a encenação multiplica os sentidos de um texto frágil, né? Pois é. A direção perde essa oportunidade ao optar pelo naturalismo padrão – aquele que todo mundo conhece, do cenário beginho, dos figurinos pomposos e dos móveis da vovó, sabe? De inusitado, apenas uma informação que já vinha destacada no rilise: “todos os pratos servidos durante o espetáculo são de verdade e os atores comem toda a comida”. Eu, espírito de porco, já esperava algo como A Comilança, de Marco Ferreri, mas para minha decepção não teve nada disso. Os mocinhos se comportaram direitinho a peça toda, apesar de ter gente que não comeu toda a comida. Que feio. Num país como o nosso em que tanta gente passa fome… Deve ser dieta.

A proposta de servir um banquete de verdade ao longo de todo o espetáculo poderia ser a chave para tirá-lo da obviedade, mas se dissipa a cada prato anunciado por uma garçonete com afetação de animadora de festa infantil. A cada novo prato cantarolado com sotaque italiano forçado, eu imaginava que com certeza haveria um restaurante bancando aquela comilança alheia (pelo bem da arte, minha gente, não estou dizendo o contrário), e eu não estava errado. Ao pegar o programa da peça, na saída, a suspeita se confirmou: todos os pratos servidos em cena podiam ser degustados em qualquer loja do La Bucca Romana, aquele restaurante italiano sem cara de restaurante italiano. Nada contra o “apoio cultural”, mas quando a comida parece querer chamar mais atenção que o resto, as coisas ficam mais estranhas.

Da comida, a platéia fica só com vontade – quem quiser que troque a pizza pós-peça pelo italianinho. O que sobra pra ser comentado é um elenco talentoso (o juiz interpretado por Henrique César é impagável!) que é desperdiçado por piadas e artifícios fáceis (inserção à força de manchetes do noticiário no contexto da peça já deu, né?) -, mas que parecem agradar o público ainda assim. Este, o público, se divide entre as pessoas que riem, as pessoas que bocejam e as pessoas que não param de falar um minuto sequer – como sempre. Pelo tom do texto, adivinha em que turma eu estava? Acertou.

Sinceramente, não entendi o porquê do espetáculo estar no teatro SESC Anchieta e não no Cultura Artística – afinal tinha grande potencial para ser vizinho da estrada de tijolos amarelos do Walter Mancini : tem rostinhos que vemos aleatoriamente na tevê e não abre mão daquele jeitão de novela de época (apesar da fábula acontecer nos dias atuais). Enfim, uma peça de que não me lembrarei em muito pouco tempo.

2 horas de comilança

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Milena says:

    Estava ansiosa pra ver sua crítica.
    Achei a idéia da peça boa – gostei desse lance de jogar com a culpa e a inocencia, o prazer de julgar, a sedução por um certo poder e cordialidade típicos do Direito. Mas concordo com você. A peça falha ao cair numa comédia fácil, com piadas que nem chegam a ser piadas só por ‘atualizar’ a peça com casos de Renan. Um texto mais profundo deixaria essa peça inesquecível. De qualquer forma, o texto não decepciona (seriam bons advogados mesmo) os atores bons, exceto pelos coadjuvantes.

  2. Falei para você jantar antes.

  3. MIlena, eu diria que para que essa peça se tornasse inesquecível (ao menos para mim), precisaria de muito mais do que apenas um bom texto. Pra falar a verdade, neste caso o texto era o menos crítico, com uma linguagem tão “mais-do-mesmo”…

    Quanto ao elenco, eu não tenho tanto do que reclamar não. Há um desnível sim, mas nada que comprometa neste aspecto (acredite, tem coisa MUITO pior por aí)…

    ———–

    Sérgio, pois é. Mas você avisou tarde demais também. E mesmo que avisasse antes, num daria tempo… hehehe


E você, o que acha?

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