Críticas

Abre as Asas sobre Nós

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 21 May 2007

Cocô de passarinho – uma peça sobre como a liberdade pode dar tontura e caganeira

Foto: Divulgação

Ok. A música de referência pode ser clichê, reproduzidíssima, pouco original, blablabla, blablabla, mas a montagem de Abre as Asas sobre Nós, de Sérgio Roveri, em cartaz no Espaço Parlapatões, não é isso. Aliás, passa longe disso. Sim, a peça que rendeu ao dramaturgo de Jundiaí o Prêmio Shell fala de asas, de nós, dos outros, de liberdade, mas, com todos estes subtemas, fala muito é da doidera que é este mundo em que a gente vive. E é nesse ponto que é diferente, que se torna mais poética e cheia de significados.

Falo aqui da doidera dos criadores de passarinhos, dos que gostam de chuva de cocô do teto, dos travestis e dos seus cafetões, dos cheiradores de cocaína (ou de rapé), mas falo também de uma loucura individual, uma loucurinha só nossa, que a gente nem sempre conhece.

Uma das grandes sacadas é o retrato de um universo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, tão humano e ao mesmo tempo tão selvagem, no que pode haver de mais violento no termo. Ao mexer com a realidade dos travestis, com ou sem pipi, mas sempre muito bonitos, elegantes e altos (seja este um atributo oferecido pela genética ou por aqueles saltos malucos com que meus pés feitos pra andar descalços não podem nem sonhar), a obra nos joga na cara temas pelos quais estamos acostumados a passar todos os dias e, simplesmente, acostumados a não notar, mesmo quando os atropelamos ou quando eles fazem parte da vista da nossa janela. Temas sobre os quais a montagem lança um olhar com poucos preconceitos e bastante crueldade.

O aspecto cruel da prostituição, inclusive, é muito bem retratado por outra peça, Abajur Lilás, de Plínio Marcos, já resenhada na Bacante e em cartaz no TUSP, que, por sua vez, aborda a questão por um viés feminino mais colorido, mas não menos podre. Na verdade, mais podre.

O que faz o espetáculo em cartaz no Espaço Parlapatões incomparável não é talento individual dos atores, nem tampouco direção espetacular. Não é, para simplificar, nenhum elemento isolado. O quê especial da obra está nas lindas metáforas construídas pela composição texto+cenário+dinâmica de cena. Tal combinação é auxiliada, ainda, por uma trilha que te desespera e te envolve, alternadamente, e que preenche todos os vazios de um cenário que permite vigiar e ser vigiado, inclusive como parte da extinta penitenciária Carandiru.

Relegada ao horário bendito da meia noite, Abre as Asas é resultado da criação artística com base em um texto que nos coloca, de maneira muito sutil, diante do nosso medo da liberdade e da nossa necessidade de aprisionar os outros. Sobretudo, expõe a imensa curiosidade que pessoas têm por pessoas, em qualquer universo.

4 penas coloridas com muito glitter.

E você, o que acha?

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