O inferno está no sétimo andar

Fotos: Divulgação.
Da próxima vez que você parar num semáforo e vier um sorridente entregador de panfletos imobiliários, aceite o papel e dê uma olhada. Certamente ali naquele croqui do paraíso perdido (todos os croquis de lançamento imobiliário prometem o paraíso) haverá uma informação que brilha muito: as dimensões da área privativa. Sem querer entrar na questão assustadora do significado da palavra “privativo”, aponto para outra questão: a vizinhança – aquela da fofoca e da xícara de açúcar emprestada – está prestes a desaparecer.
Não, não, não vá pensando que o cara que mora do seu lado vai virar fumaça. Ele continua lá e vai continuar por muito tempo. Acontece que, na sua cabeça, provavelmente ele não passa de… fumaça, não é mesmo? Com relações cada vez mais distantes entre pessoas que são obrigadas a (con)viver na mesma área geográfica, todo e qualquer tipo de contato (encontros no elevador ou emissão de ruídos, por exemplo) tende ao estranhamento.
É esse estranhamento que faz com que Fulano de Tal deseje tanto a morte da vizinha do sétimo andar – ao ponto de imaginar o tempo todo estratagemas para que ela faça uma viagem sem volta para o beleléu. Inicialmente, Célia – a tal da vizinha – representa para Fulano (não tinha nome mais original pro personagem não?) tudo aquilo que ele despreza em sua vida.
Com o passar do tempo, sua mulher, seus filhos e todas as pessoas que o circundam também o irritam e lhe fazem algum mal. Sabe aquela frase do Sartre que já virou clichê, que diz que o inferno são os outros? Pois é, inevitável não pensar nela – tanto que até mesmo uma variação desta frase é mencionada (pra não dizer enxertada) no espetáculo Acqua Toffana.
O texto, adaptado da obra de Patrícia Melo, denuncia o quanto todos os problemas apontados pelo protagonista são, na verdade, mesquinharias não somente do indivíduo, mas de uma sociedade (sobretudo uma classe média) que desaprendeu a tolerar a presença do outro, do diferente em sua vida. E, na contramão, com a histeria do “politicamente correto”, todos os preconceitos e estranhamentos, em vez de liqüidados, passam a ser ocultados e cultivados subconscientemente, quase como fetiches.
É uma espécie de fetiche que faz com que Fulano de Tal abra mão de viver sua própria vida para acabar com a da gordinha do sétimo andar. Mas no espetáculo protagonizado por Dani Barros estes porquês ganham muito menos destaque do que os “comos”, que dão à narrativa fragmentada um aspecto cômico. (Momento Bárbara Heliodora, em homenagem à produção carioca.) Sobre a questão técnica, as ressalvas são apenas para a necessidade de blackouts para transição de cenas, revelando que a transposição literatura-teatro não se realiza completamente (Fim do momento Bárbara Heliodora). Mas aí a gente lembra que um conceito não é mera formalidade, e se faz aquela pergunta que é (ou deveria ser) anterior a qualquer escolha estética: pra quê o espetáculo foi produzido mesmo?
A proximidade do monólogo com a linguagem literária faz com que a personagem, ainda que em primeira pessoa, fale com o nada – num tom de testemunho que lembra os depoimentos de sofá da campanha da Brastemp (claro, se as pessoas da tevê estivessem mais preocupadas em matar alguém do que falar de geladeira e lavadora). Da mesma maneira, a opção por dar mais peso ao humor negro e à inventividade do personagem do que às suas motivações faz com que tudo tenha cara de quadro do Luiz Fernando Guimarães no Fantástico. Só que na tevê, o objetivo a ser alcançado (e, conseqüentemente, a motivação para produzir um projeto) é a audiência. Mas e no teatro, será que apenas a transposição de um texto bacana ao palco justifica uma montagem?
3 sonhos psicopatas




me expliquem por favor….
o que justifica uma montagem?
EU li o livro…
Edu, essa é uma ótima pergunta. Filosófica até.
Bastante coisa pode servir de justificativa: pesquisar linguagem, fazer rir, fazer chorar, ganhar dinheiro, emocionar a mãe, homenagear a vovó… Não vou entrar no juízo de valor de quais são mais ou menos nobres, mas essa escolha, ainda que inconsciente, interfere conceitualmente na forma como o espetáculo é concebido.
No caso de Acqua Toffana, não saquei onde a proposta queria chegar, ficou a impressão de que ficou o “Luiz Fernando Guimarães pelo Luiz Fernando Guimarães” mesmo… Apesar do texto parecer permitir mais do que isso (ao contrário do Ronaldo, eu não li o livro – mas mesmo sem ler, na peça tive vontade de ver mais pontas desse novelo sendo puxadas).
então foi a concepção que não agradou?
ou aquela humor estou fazendo um tipinho naturalista e falando rapidinho com cara de passado que ultimamente temos visto na tv.
ótimos atores se perdem neste humor(ao meu ver)e se repetem…sou mais a Dercy!