Sobre as normas, a arte e uma alma
Desculpe começar com uma pergunta assim tão direta, mas: você é normal? É, você que está matando seu trabalho pra ler essa crítica – ou que não tinha mais nada pra fazer mesmo – você se considera absolutamente normal? Não tô te perguntando isso pra você citar a música do Caetano e dizer que “de perto, blábláblá blábláblá”. Vamos lá, faz um pouco mais de esforço na resposta. Um exemplo, pra te dar uma mãozinha: se alguém te encontrasse na rua e te levasse a um hospital psiquiátrico, te colocasse entre os pacientes e te medicasse de 6 em 6 horas com o remedinho-sossega-leão-padrão-do-SUS, qual seria a diferença visível entre você e os seus colegas de enfermaria?
Se você pensou na pergunta “mas então o que é normal?”, você chegou ao mesmo ponto que eu. Então, vamos dar mais um passo: afinal, quem estabelece a norma a partir da qual se definem os limites da normalidade? A medicina? A ciência? Ah, claro!, o Freud? Quem sabe o Dr. Pinel?
Outra pergunta, também de supetão: você é artista? Se você é artista, te peço para pensar: de onde vem sua arte ou, em outras palavras, o que você manifesta quando faz arte? Se você não é artista no momento, te peço para pensar: o que manifesta um artista ao fazer sua arte? Aquilo que aparece ali no palco, na tela (do cinema ou do quadro), na escultura, na gravação… além de voz, corpo, traço, o que é aquilo? É um pouco de você/ do artista? É um pouco do mundo? É um pouco dos dois?
Adelina – cujo nome você vai cansar de ouvir caso resolva assistir à montagem homônima do grupo Ventoforte – não estava dentro da norma estabelecida e manifestava com pincéis, tintas e falas um pouco do que levava do mundo dentro de si. É partindo deste ponto, de uma personagem tão distante e, ao mesmo tempo, tão próxima, que o Ventoforte realiza seu primeiro monólogo – um solo de dança-teatro a 18 mãos, digo, com seis pessoas e três bonecos em cena. Bonecos, como sempre, já que no Ventoforte eles fazem papel inclusive de público se preciso for. Quanto às pessoas, a intérprete de Adelina conta com um narrador e quatro músicos, que executam ao vivo a trilha sonora que inclui a Canção de Adelina, composta por William Guedes especialmente para a montagem.
Marilda Alface (recuso-me a propor uma piada pra esse nome, por considerar que a atriz já deve ter ouvido suficientes desde a infância), pesquisadora do gestual do ator, é quem, de fato, dança Adelina Gomes. Paciente do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, podemos dizer que Adelina “deu a sorte” de encontrar entre uma e outra sessões de eletrochoque, uma psiquiatra que estava ali para, como nos conta o texto de Ilo Krugli, “observar a alma humana”: a Dra. Nise da Silveira – cujas anotações deram origem a este trabalho.
O solo de dança-teatro emergiu de outra montagem do Ventoforte, que reunia diversos personagens do mesmo hospital: um bando de foras-da-norma que aprendeu a expressar, por meio da arte oferecida pela Dra. Nise, tudo o que os remédios afogavam.
Com sensibilidade, delicadeza e uma série de simbologias que nos insinuam sentimentos, fúrias, medos, agressões e descobertas, a peça nos mostra uma alma. Uma alma que rodopia, que tem momentos de violência e de quietude, que quer se livrar das amarras que traz da infância e por isso as pinta com tintas coloridas, que quer amar. Que quer ser flor.
O trabalho ainda traz consigo um pouco de Ilo Krugli, que narrava a história e interagia com ela, recolhendo e entregando momentos a Adelina, evocando-a e deixando-a ir pelo caminho dos sonhos e, na maior parte das vezes, falando muito mais que o necessário sobre o que a cena já mostrava tão intensamente. Como Ilo está rodando por aí pelo projeto Palco Giratório, do Sesc, na montagem que vi quem narrava era um Marcelo Airoldi sutil, todo de branco, buscando uma neutralidade que algumas falas excessivas lhe roubavam, e realizando intervenções, por vezes explicadinhas demais, por vezes essenciais para entender a magia da história dessa moça-artista-flor-fora-da-norma.
A peça ainda está em processo, sobretudo no que tange à dramaturgia. E, para uma obra que fala da arte, da normalidade e, principalmente, da observação da alma humana, nada mais natural que estar num processo contínuo de transformação – ainda que já tenha se apresentado ano passado na Feira de Teatro Ventoforte. Para os que são artistas, vale pensar e repensar no que vale a pena expressar, no que está explodindo lá dentro e que precisa vir à cena para ter sentido. Para os que são público, vale regular o olhar para observar que almas estão expostas no palco.
Claro que o exemplo de Adelina como artista é radical e, em cena, é tratado com todo o lirismo característico do grupo que o representa. Vale ressaltar, no entanto, que não estamos falando de uma arte com pretensão de curar. Pode até ser, aliás, que essa idéia de dialogar com o próprio interior e com a maneira de experienciar o mundo não “cure” as suas anormalidades, ao contrário, talvez venha para “piorá-las”. Mas, afinal, de que vale essa tal arte, e o que ela é capaz de transformar, se ela não te tira ainda que momentaneamente da norma?
4 sessões de eletrochoque ou 4 gatos pintados em posições diferentes.

