Críticas

Admirável e só para selvagens

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 22 September 2009

Quantos atores são necessários para levar ao palco um livro foda?

Admirável Mundo Novo é uma ficção, dizem. Ou foi. O livro, escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932, descreve, em linhas exageradas e detalhadíssimas, uma nova fase fictícia da “evolução humana” e acaba por traduzir poeticamente muito do que de fato se vive hoje.

Dois atores, figurino e cenário mínimos, música executada na hora. A escolha da encenação é clara: ressaltar passagens reveladoras do texto por meio da técnica corporal dos atores, sem pompa, nem circunstância, o foco é mesmo a genialidade dessas pseudo-previsões, sem compará-las diretamente com o mundo de hoje, apenas exacerbando as descrições do autor e deixando as relações por conta do espectador.

E, para falar novamente em escolhas, não seria possível colocar na boca dos atores todas as palavras escritas pelo autor. São necessários cortes e, com eles, vêm ênfases propositais e reveladoras. Primeiro, é preciso contextualizar o público do teatro – que admirável mundo novo é esse? Afinal, como mencionaria Astier, ninguém exigiu atestado de leitura da obra na bilheteria quando venderam o ingresso.

Essa contextualização, em vez de didática e introdutória, se dá ao longo da montagem, com intervenções que permitem entender a divisão em castas – Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons – para as quais são dadas funções diferentes na sociedade e as quais foram especificamente preparadas para a função que deveriam desempenhar quando foram criadas em laboratório. Assim, não há descontentamento, o ser humano é criado para fazer aquilo, é condicionado a fazer aquilo, faz aquilo, se sente realizado com aquilo e pronto. Parece simples, não? Agora imagine que você nasceu para ser ascensorista – nada pessoal contra os ascensoristas.

Piadas à parte, os grandes focos que percebi das escolhas da montagem foram o soma (substância ingerida periodicamente por todos os humanos, capaz de preencher qualquer tipo de vazio existencial e inibir qualquer dor); a decadência das relações humanas verdadeiras e a ideia de Deus.

Com relação ao soma, é de fato uma das partes mais fascinantes deste novo mundo. A “droga das drogas” resolve tudo e, então, não há mais dor de cotovelo, dor de estômago, pedra no rim, ressaca moral. Não há mais porque modificar nada na vida, não há mais impulsos. Só conformismo. E mais, um conformismo alegre e pleno. Tipo uma have eterna.

A ideia de Deus surge no diálogo entre um selvagem (sendo os selvagens os excluídos do mundo novo, cujo nascimento não fora planejado e que mantêm hábitos arcaicos) e o criador e gestor do novo mundo, Vossa Fordeza, cuja grande obra começou junto com o surgimento das linhas de produção e toda a lógica que com elas se desenvolveu. O questionamento do selvagem de que é natural pensar que Deus existe, ou mais, é natural “sentir a presença de Deus quando se está sozinho e no silêncio” é refutado de maneira simples e direta: no novo mundo ninguém fica sozinho e não há silêncio. Desse modo, independentemente de sua existência, Deus torna-se desnecessário.

Finalmente, a escolha de tratar das relações humanas, que no novo mundo passaram a ser condicionadas para serem passageiras e distanciadas, é a mais delicada. Isso porque a metáfora que aqui se constrói está intimamente ligada à disputa entre a repressão e a liberação sexual. E, só por meio da radicalização proposta pelo teatro, a mim foi possível notar que a abordagem do livro acaba sendo limitadora e moralista neste ponto. No admirável mundo novo, o condicionamento dado aos humanos desde que nascem é o “ninguém é de ninguém” (não o da Zíbia) e o conceito desta frase é colocado como causa da fragilidade das relações no novo mundo. A meu ver, uma falsa premissa, uma vez que relações humanas e, sobretudo, relações comunitárias, não são no sentido de ter propriedade do outro, mas de pertencimento a uma coletividade. Outra falsa premissa é dizer que “fidelidade” e, sobretudo, um amor possessivo sejam constituidores de relações firmes e verdadeiras – haja vista o porquê eram feitos os contratos de casamento em sua origem e a mentira que comumente os circunda até hoje. Caímos, então, numa cilada, que talvez nem o profeta-autor tenha resolvido pra nós: que tipo de relação de pertencimento a uma comunidade pode combater a ausência de vínculos sociais sem tornar-se limitadora e moralista?

3 temas extremamente complexos

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