-->

Críticas

Aldeotas

por Valmir Júnior

3 Comentários 19 November 2007

Da infância à vida adulta, só permanece a amizade

“É preciso um certo tempo de silêncio para se fazer uma boa crítica”. Essa frase foi repetida algumas vezes em Aldeotas e cá estou eu, escrevendo esta crítica após um tempo de silêncio de um dia e meio. A frase sábia da personagem Elias traduz um pouco do espírito dos críticos de antigamente e que aparentemente não faz mais parte do repertório de qualquer resenhista-relâmpago de hoje. Nós, bacanais, ops, bacantes, nos incluímos nesse caldeirão. Mas, pelo menos, após um espetáculo, esperamos o arrebatamento ou a falta dele se dissipar para redigir claramente a crítica.

Aldeotas é o tipo de peça que todo espectador iniciante de teatro deveria assistir. Deveria fazer parte do currículo escolar (se a escola realmente fosse legal – e ela deveria realmente ser legal!). Temos uma série de características no espetáculo que o tornam uma espécie de “manual da primeira ida ao teatro para saber como é assistir uma peça de verdade e não um engodo”, a saber: comédia sem escracho, despojamento de cenário e trilha sonora, história inteligente, ritmo contagiante e elenco de novela com interpretação (de verdade) mesmo e não apenas fiapos televisivos de representação. Agora, se você já é um iniciado… sem preconceito! Assista também! É quase uma reciclagem.

O texto de Gero Camilo conta a história de Levi e Elias, dois amigos da cidade fictícia de Coti das Fuças que crescem juntos e montam um jornal de colégio, no qual Levi é o poeta e Elias, o crítico. Ao correr do tempo, os dois descobrem a própria sexualidade e o ponto em que a de um cruza com a do outro – além das reações do mundo com relação à amizade “diferente” que alimentam. E só, nada mais. Situações entre eles são emblemáticas, algumas até mesmo previsíveis e não menos grandiosas. Até porque não necessitamos de mais: é essa simplicidade a chave para que seja um bom espetáculo.

A direção conta com a mão delicada de Cristiane Paoli-Quito, que tornou o texto de Gero Camilo um jogo rápido entre os dois atores: o próprio Gero e Caco Ciocler (na versão anterior, era Marat Descartes em seu lugar e custava em média 50% menos; é o tal do “efeito Ciocler” na Nasdaq). A dupla dá o tom correto, sem apelar para truques fáceis de envolvimento de platéia. Não, nada de caras e bocas e piadas prontas, Gero Camilo conversa com o público quando este o interpela no meio da cena ( ou seja, quando certas pessoas confundem a arena do Tucarena com “espaço para falar durante o espetáculo”), utiliza seu corpo e energia com uma desenvoltura elegante, forte e sutil e cria um Levi engraçado, quase clownesco. Ciocler traz uma força máscula (ui!) a seu Elias, um contraponto interessante ao homem miúdo e um pouco efeminado de Camilo.

A simples iluminação, com demarcações pequenas e pouca variação de cores, foi pensada por Marisa Bentivegna para pontuar e contextualizar a cena. Bentivegna também delimitou o espaço cênico com um tapete. Os dois juntos, luz e tapete, fazem a ilusão que comporta lagos, mirantes, quartos e bailes. Para quem leu A Porta Aberta, de Peter Brook: parece que vemos um protótipo do que o diretor inglês faz com sua companhia em outros países. Se encena no tapete, mais nada. Ele configura o espaço cênico e lhe dá forma e sentido. À parte disso, só os atores.

Preciso confessar que, algumas vezes, pensei que Caco Ciocler e seu Elias só fossem meros apetrechos do espetáculo, pois no início a narração de Gero Camilo é tão extensa que quase acreditamos que Ciocler seja uma muleta – o que é prontamente consertado.

Tenho a impressão também de que, mesmo com toda a entrega, Gero Camilo me parece ser Gero Camilo (e faço uma pausa para explicar que isso é minha opinião). Sua interpretação perpassou o limite de confusão entre ator e personagem, o que não é necessariamente ruim, já que há a sensação de tom autobiográfico no texto. Mesmo que não haja nada da própria história de Gero em Aldeotas, para mim este ator entrou para o imaginário popular, assim como Fernanda Montenegro, Marco Nanini e o já-saudoso Paulo Autran, como aquela figura do monstro sagrado ou do rei Midas. Tudo o que toca vira ouro. Quem o assiste fica em êxtase por ele ser um ator de mão cheia, mas a imagem do monstro sagrado se confunde com a do ator que se confunde com a da personagem. Talvez seja ruim para Gero, em seu íntimo como ator (isso eu não posso afirmar), mas para a platéia não é. Na verdade, isso só engrandece mais a experiência de assistí-lo.

A poesia que transborda e a lição de vida que a peça transmite já valem . Daí temos os atores, o que torna o caldo mais gostoso ainda e temos crianças, adolescentes, velhos, além de meninos e formigas que vivem no centro da Terra. A simplicidade da encenação adiciona o tempero principal. Igual comida de mãe, aquela pela qual ficamos desesperados quando moramos sozinhos; dá no mesmo. Levem seus filhos para assistir (mas não tapem seus olhos na hora em que os dois se beijarem!).

9 saltos, 9 beijos, 9 voltas ao redor do espaço cênico

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Fred says:

    O espetáculo é uma fábula moderna com ótimas interpretações e uma direção primorosa. Concordo que devia ser obrigatório em todas as escolas.

  2. Juli =) says:

    Ainda mais se pensarmos cada porcaria que é obrigatória na escola…


Trackbacks/Pingbacks

  1. Blog da Bacante » Sexta e sábado - deixando as máscaras - 23. Sep, 2008

    [...] que via aquelas marcações tão explícitas de Aderbal Freire Filho, ficava lembrando de como Aldeotas, do também cearense Gero Camilo, poderia fazer esse papel de peça final e custaria muito menos ao [...]

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

 A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.