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Críticas

Amor e Restos Humanos

por Valmir Júnior

9 Comentários 22 January 2008

Love is NOT in the air

Amor e restos humanos 1

Foto: Águeda Amaral
Amor: aquele assunto que todo mundo acha que pode discutir, mas na verdade ninguém sabe ao certo o que é. Mais ou menos igual ao assunto Deus. Somos todos PhDs da relação amorosa. Qualquer um pode discutir se pensa ser “inteligente” o bastante para dizer que o amor é assim, assado, virado ou ensopado ou até mesmo que ele… não existe.

Este é o pensamento do garçom Davi, outrora um ator de televisão, personagem principal da comédia dramática Amor e Restos Humanos, do canadense Brad Fraser. Originalmente, a peça se chama Restos Humanos Não-Identificados Ou A Verdadeira Natureza do Amor, mas Fraser, ao adaptar para o cinema sua peça, transformou o roteiro e condensou o nome, emprestado pela montagem dirigida por Marco Antônio Pâmio. Aliás, o roteiro de cinema virou filme dirigido por Denys Arcand, mesmo diretor de O Declínio do Império Americano, Invasões Bárbaras e do favorito ao Oscar A Era da Inocência.

Davi (Alexandre Cruz), o garçom-ator, é um homossexual desacreditado do amor. Suas relações são efêmeras, mais ou menos como se constata nos guetos gays das grandes cidades. Basta sexo, um punhado de amigos que substituam a família (Davi nunca menciona pai ou mãe e não sabemos nem de onde ele veio) e um trabalho que propicie a vida regada a hedonismo e “alegria eterna” (o termo gay quer dizer alegre em inglês e se refere a um estilo de vida homossexual, esse mesmo que acabei de descrever). A “família” do momento atende pelo nome Carla (Sílvia Suzy), a amiga e ex-namorada com quem ele divide o apartamento. Por ser solteira, Davi acredita que os problemas de Carla se resolverão após umas boas trepadas (o mesmo conselho que amigas solteironas dariam a uma amiga estressada) e Carla resolve se aventurar tanto com o amor entre iguais, como com o amor com o outro sexo, para tentar se encontrar.

ste fio central se engambela com uma história de assassinatos – um serial killer espreita a cidade – e com outras histórias de casais que se foram, casais recém-formados e presenças que se bastam, como a drag queen-travesti-transexual Benita (Lívia Guerra). A partir do fio condutor, a espiral de sexo, drogas, fracassos amorosos e desencontros começa a girar, e o texto conduz a cena de forma muito orgânica, intercalando momentos cômicos com outros muito dramáticos. Fraser consegue fazer as frases de cada personagem se resumirem a uma ou duas palavras, muitas vezes nomes, ações ou substantivos: são os tais restos humanos. O diálogo se resume e não consegue transformar-se em comunicação efetiva. Tanto que a direção de Pâmio bota as personagens para orbitarem e soltarem esses monossílabos. Ninguém se encontra, são zumbis, perdidos em algum resto de cenário de Eu Sou a Lenda, Extermínio, Madrugada dos Mortos ou Thriller (vai, exagerei).

Na tradução do texto para a cena, nada de interlúdios maneiristas (aqueles em que toca uma música e o ator faz algum movimento, “expressando” a angústia de seu personagem e que geralmente acontecem para preencher um vazio na cena). Nada disso. Pâmio obedece o recurso de corte seco que Fraser propõe: uma espécie de Nelson Rodrigues (sempre ele) revisitado, flertando com um Brecht ora aqui, ora acolá. Existem muitos detalhes a serem olhados, como os objetos vermelhos, os tons acinzentados dos figurinos e o tom pastel de uma personagem em específico, mostrando ser alguém sem sentimentos resolvidos. Há também o suspense criado sobre a eterna questão “Quem matou Odete Roitman?“… ops, me confundi, a questão da peça é: quem é o serial killer? O elenco consegue manter esse clima de tensão e nos deixar realmente em dúvida.

Do lado do elenco, tudo se afina. A sintonia dos atores é muito grande e, apesar de se tratar de um elenco de 8 pessoas, a disparidade é mínima. Entretanto, o destaque fica por conta de aparições pequenas e leves, como a de Erika Altimeyer, como uma espécie de narradora viva-morta que conta lendas urbanas com gosto, humor, terror e sacanagem. Já Lívia Guerra, a transex (definamos assim), é a personagem mais centrada do texto. O senso comum aponta os transgêneros como pessoas perdidas, mas é aqui que a brincadeira se configura: a mais transgressora é a mais equilibrada. Tão equilibrada que chega a ser a mais “evoluída” – explico: saída de um gibi de X-Men, nossa Dra. Jean Grey, digo, a transex Benita pode ler mentes. Fina ironia.

Falta ainda uma afinação no tratamento dispensado pelos atores no manuseio dos acessórios cênicos. Por exemplo, a cerveja permanece sem peso, já vem aberta da geladeira e pode ser virada ao contrário, sem ninguém esboçar um susto ao imaginá-la despejando. Não pode. Além disso, a trilha sonora cobriu algumas vezes as vozes dos atores (deve ter sido um erro de estréia, na certa). Mas nada que uns ensaios não consertem. Não é nada de chamar a atenção. O que fica na cabeça é a poesia do texto e a energia da encenação. Destaque para a ótima cena da pizza em que as personagens comem e perdem seus olhares, como que pensando: “O que vai ser de nós agora?”.

Agora vamos à questão: o que é o amor? Muitos espetáculos versam sobre este tema e eu me pergunto: devemos nos preocupar em desvendá-lo ou simplesmente vivê-lo (se acharmos que estamos vivendo). Fraser responde: “a gente sabe”.

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9 comentários até o momento

  1. Ainda não vi a peça mas quero ver…quanto ao amor, é o calor que aquece a alma…vamos vivendo…vamos sentindo…amor e dor se completam.

  2. Quero ver a peça. Deu vontade.

    Agora, me tira uma dúvida Sr. Crítico: jura que vocês vão a um espetáculo NA ESTRÉIA e depois escrevem uma crítica? Não dá pra esperar a coisa esquentar um pouquinho, e a gente relaxar e curtir pelo menos a estréia depois de tanto trabalho? É sempre assim que funciona? Beijos!

  3. Fabrício Muriana says:

    Querida Maria Clara

    Essa peça reestreou no Satyros, mas pelo que sei já esteve em cartaz na USP. O Valmir pode dizer melhor, mas acho que não podemos chamar de estréia, estréia.
    Mesmo assim, cabe crítica na estréia sim. Cabe crítica no segundo dia. Cabe no último tb. O Décio de Almeida Prado ia várias vezes. E às vezes fazia crítica por elemento cênico. Particularmente, acho que cabe crítica a tudo. Abração.

  4. Existe uma diferença entre criticar estréia e criticar ensaio aberto, por exemplo. Em uma estréia, presume-se que a peça esteja pronta pra ser exibida – logo, está passível de crítica.

    Mas muitas vezes vai da percepção de quem vai escrever saber se aquilo que está sendo visto tem interferência da estréia ou não. Por exemplo, quando vi a estréia de Divinas Palavras, preferi ver novamente porque deu pra perceber que aquilo não era o todo… enfim…

  5. Gostei bastante de saber as posições de vocês. Obrigada. Realmente me ficava essa dúvida, e o exemplo mais claro que me veio à cabeça foi ´Divinas´, que todos sabemos teve problemas na estréia. Mas eu penso que o espetáculo sempre ganha em maturidade depois de algumas apresentações pelo menos, por mais ´seguro´ que esteja na estréia. E acho essa sensibilidade de quem faz a crítica fundamental, claro. Ver um espetáculo mais de uma vez, por exemplo, pode ser legal se o crítico achar necessário. Penso que críticos e artistas devem estar do mesmo lado, sempre. Mas às vezes me pego, sem querer, com ´medo´ dos primeiros… Que estranho isso, né!? Só agora me dei conta desse sentimento. Será que só eu sinto assim? Beijos e abraços, rapazes. Com maçãs vermelhas.

  6. Valmir Jr. says:

    Maria Clara querida,

    A opinião do Sr. Crítico: como ator, devo dizer que estréia é sempre problemática, em decorrência de uma série de variáveis, seja a ansiedade dos atores e o cumprimento de alguns de seus desejos (como o de estrear umapeça, dependendo de seu processo criativo) como a arquitetura da produção (incluindo aí equipe de produção, contra-regragem, quando tem, e os operadores de som e luz). Ou seja, é muito difícil.

    Entretanto, do lado do crítico, eu debando para o que Fabrício e Maurício disseram: deduz-se que, quando um espetáculo estréia, ele é passível de crítica. E Décio de Almeida Prado chegava ao cúmulo de criticar elemento por elemento cênico, ator por ator, bem no estilo “crítica clássica”, incluindo a estréia. Entonces, pude redigir a crítica.

    Completando a informação, posso dizer que este espetáculo foi a conclusão de curso de uma turma da EAD, em 2006, portanto, o espetáculo já deu uma rodada legal por aí e deve ter adquirido estofo. Tanto que, um dos pouco erros foram técnicos. Portanto, é só coisa de afinação.

    Grande beijo!

  7. Antonio Moraes says:

    Na primeira temporada, na EAD/ECA, foi apresentado um programa duplo, chamado “Restos na Geladeira”, formado por este espetáulo e pelo “Cobra da Geladeira”, que corou os bons espetáculos desta entrosada turma (o anterior foi “Ópera do Malandro”, com direção do Iacov Hillel). Pretendo revê-lo. Vale a pena. E espero que eles façam mais trabalhos juntos.

  8. Gustavo says:

    valmir, vc é o valmir da revista dom? gostaria de falar com vc…

  9. cristian says:

    ola solo te quier decir q est puret las imag


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