Conflitos Amorosos em Plena Parada Gay
Foto: Divulgação
A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo é, disparado, a maior do mundo. A estimativa é que, neste domingo, dia 10 de junho, convenientemente pertinho do Dia dos Namorados (leia-se Dia de Vender Flores, Celulares, Jóias e Ir a Restaurantes Chiques), uma Paulista ensolarada tenha recebido mais de 3 milhões de pessoas, entre elas cerca de 300 mil turistas de diversos estados brasileiros e de diversos países. Não, isso não é uma resenha sobre a Parada Gay, mas a festa da afirmação da diversidade influenciou e muito o movimento na Praça Roosevelt e a apresentação do espetáculo Amores Dissecados, em cartaz no Satyros Dois, já que o amor se expressava livremente nas calçadas e muretas.
Às 8 da noite, a praça estava cheia, ocupada, como sempre deveria estar e como eu não me lembrava de ter visto desde as Satyrianas. A festa disputava, ainda, com a quermesse junina da Igreja da Consolação. Muita gente bebia, muita gente se divertia, muitos casais se beijavam. Neste clima, depois de um pequeno atraso de meia hora, Amores Dissecados, espetáculo do grupo Teatro Insano, do ABC, começa revendo e recriando um espaço que já é alternativo. Peça andada no Satyros? Calma, é só a primeira cena, um breve monólogo regado a uma taça de vinho vermelha.
Logo, o público se acomoda em cadeiras dispostas no próprio palco, para assistir ao resultado de um processo colaborativo dirigido por Marcos Lemes. E os cinco atores se acomodam ao lado do público, de onde saem para ir ao centro do palco realizar esquetes e para onde retornam após a exibição, sem nunca utilizar as coxias. Aliás, as coxias, para eles, são as cadeiras vermelhas, onde realizam as incontáveis (mentira! Dava pra contar, mas me deu preguiça) trocas de roupas. Ao lado de cada um, uma mala, de onde saem e para onde voltam os figurinos realistas.
Rosas vermelhas, fotos, batom, vestido de noiva, vinho. A peça usa quase todos os ícones mais óbvios do amor e se foca na nossa dificuldade em amar de maneira simples. O amor tratado ali, por meio de tantos clichês com os quais todo mundo se identifica, é o amor complicado, o amor que nós complicamos.
Embora algumas cenas encontrem links muito bonitos e criativos, outras parecem perdidas no espaço e só se ligam ao espetáculo pelo tema. No entanto, a complexidade temática e o risco de assumir um processo colaborativo tão amplo tornam o deslize do grupo em algumas transições absolutamente perdoável.
Pode parecer fácil abordar o amor, mas não é bem assim. Na verdade, poucas coisas são mais difíceis do que falar de sentimentos e de coisas banais e cotidianas com alguma grandeza. Neste sentido, as atuações, em alguns momentos, têm sutilezas que expressam com verossimilhança nossos gestos cotidianos, mas para a maior parte das cenas, falta força e expressividade. Falta algo como um desespero passional tão angustiante que envolva o espectador e o incomode ou um romantismo que faça o público sorrir sem perceber.
O Teatro Insano traz poucas novidades, é verdade. Isso porque opta justamente por trazer situações que conhecemos muito bem. No entanto, para apresentá-las, encontra algumas soluções bacanas, como o uso de um gravador, uma discussão cuja maior parte acontece no escuro – aumentando a intensidade das falas – e uma quebra na teatralidade para tentar entender o amor (onde é que fica essa coisa afinal? Amar dói? Se dói, onde dói?), interagir com o público e, por que não?, promover um bailinho. Vale destacar, ainda, duas cenas que exploram os silêncios de maneira muito interessante. Uma delas se passa em um boteco, em que dois amigos percebem, em meio a um monte de bobagens ditas ao léu, a solidão em que estão imersos.
A mensagem da peça ganhou muito com essa apresentação em plena Parada Gay, haja vista a quantidade de casais assistindo sorridentes e grudadinhos ao espetáculo. É pena que os casais gays não prestigiem tão livremente o teatro em dias “normais”. Para mim, foi novidade, sim, mesmo que na Praça Roosevelt, ver tantos casais tão à vontade na platéia. Foi novidade e não deveria ser. Afinal, será que é preciso esperar pela Parada Gay para ir ao teatro bem acompanhado? Foi bem bonito assistir a peça ao lado deles, mas eu preferiria fazê-lo todos os domingos e não só uma vez por ano, quando a sociedade “consente”.
3 trocas de roupa por minuto


obrigado pela presença, e pelo texto.
acredite ou não, o espetáculo sempre tem platéia abraçada, ou brigando, casais que se separam ou que voltam depois de ver a peça, velhinhos chorando de mãos dadas… já vimos cada coisa naquele quadrado.
abs!
Claro que acredito! Que lindo…. Queria ter visto a peça com estes velhinhos… rs
Valeu pelo comentário. Apareça sempre!
(P.S: É um quadrado mesmo, né? Esqueci de comentar isso. Um quadradinho todo intimista!)
Juliene, valeu. Muito trabalho pela frente para acertar tudo, tenha certeza, afinla, nada é perfeito. E eu agradeço o apontamento. Como o Beto disse, já vimos cada uma… Na semana passada mesmo uma menina me presenteou com uma flor pelo espetáculo, porque ela relembrou coisas que não queria, mas devia. Grande beijo!
Olá Juli =)
POderia ter colocado este texto no overmundo. Parabéns pela narrativa!
Higor
Ola Juli,
Tudo bem?
No penultimo paragrafo, você citou duas cenas que exploram o silêncio, porém falou apenas uma, qual era a outra?
Abraços
André
Sim, Valmir… várias coisas a acertar, sempre. Isso, inclusive, é uma vantagem do processo colaborativo, acho. Você podem ir arrumando, mexendo, brincando com essas esquetes mesmo. Afinal, é tudo de vocês, não vai ferir a obra de ninguém! rs
Com certeza, é uma pçea bem tocante. Até pela temática mesmo. Como eu disse, todo mundo se identifica.
Higor, vou subir lá no Obvermundo, sim! Valeu!
A outra cena é prolongamento desta do boteco. Um casal de garotas que se gostam, mas que têm uma porrada de limites “sociais” (suponho) pra atrapalhar. O silêncio mostra muito bem o desconforto das duas.