Nada Contra!
Se você trabalha num daqueles prédios todo envidraçados, com ar-condicionado e mesa própria, e pode dar um tempo nas tarefas para tomar um cafezinho, também pode pagar os R$ 50,00 para ver a peça Andaime, no teatro Vivo mais longe de você. E, claro! Não se esqueça de ir de carro! Assim você pode pagar R$ 12,00 por um lugar no estacionamento.
Ambientada do lado de fora de um desses prédios, a história retrata dois personagens migrantes que não teriam nenhuma condição de pagar um ingresso com esse preço. José Mário (Cláudio Fontana) e Claudionor (Cássio Scapin) são limpadores de janela que dia após dia permanecem pendurados em um andaime, sujeitos aos riscos do vento, chuva, altura, convivência, vergonhas familiares e de temíveis máquinas capazes de executar o mesmo serviço no Japão.
Mesmo longe do chão e de outros seres humanos, acompanham pelas janelas a prova de som os hábitos do pessoal do escritório e até uma aula de ginástica, o “único benefício gratuito do trabalho”. Conversam sobre assuntos que correspondem à imagem que os mais afortunados (no caso, a platéia) têm do ‘povão’, tais como: bingo, crediário, rifa, cartomante, chefe.
Porém, o que faz a peça sair das piadinhas costumeiras e ganhar relevância, é a crítica social implícita no texto de Sérgio Roveri. É como se, na verdade, os personagens estivessem em um aquário, onde fazem apenas parte da paisagem enquanto o mundo (no caso, de dentro) continua quase sem olhar para eles. Ali, fazem o que alguém mandou. É o mundo das pessoas que só recebem ordens – usar o equipamento de segurança, ficar pendurado por cabos, não fazer ginástica – e isso não é só no trabalho, também na vida e até mesmo nos banheiros, quando se recomenda pegar apenas duas toalhas de papel pra secar a mão.
A brincadeira da folha de papel é mais do que piada. O texto, que parece ingênuo, fala, na verdade, de um sentimento de exclusão e repressão que o personagem vive em muitas outras situações de seu cotidiano. Fala ainda da vontade de reagir que mora em cada pessoa reprimida pela sociedade e que aflora nos momentos mais inesperados. “Qualquer dia eu vou entrar lá e vou pegar um monte de folhas e quero ver quem é que vai me falar que eu só posso usar duas!”.
As limitações da vida de um empregado pobre é tema recorrente, talvez central. A única liberdade que eles têm é para fumar, um gostinho do prazer que os fumantes de dentro do escritório não possuem.
Ao contrário de Motel Paradiso, de Juca de Oliveira, em que a platéia ri de si mesma, em Andaime o espectador ri dos seus empregados e parece não se incomodar nem um pouco com isso.
Com as boas atuações de Cássio Scapin (o Nino, do Castelo Rá-Tim-Bum) e de Cláudio Fontana (que atuou em Fera Ferida, antiga novela da Globo), o diretor Elias Andreato é bem pouco criativo e deixa todo o mérito para Roveri. O que dizer do Nino rebolando pra limpar o vidro? A platéia ri, é verdade, mas há passagens no texto que dispensam completamente gracinhas fáceis desse tipo.
Para compensar as falhas na direção, o Teatro Vivo oferece a você um belíssimo Fran’s Café (ok, nem tão bonito), poltronas confortáveis, uma exposição, lagos transparentes na entrada e um incrível ‘desfile de moda’ (o figurino da platéia foi nota 8,5, superior à do Bibi Ferreira. Aguardem novas avaliações da moda teatro 2007).
3 toalhas de papel brancas e fofas



Chicas, muito bom o texto!
O teatro VIVO está longe de quem?
só deve ir ao teatro quem mora nos bairros centrais da cidade?
Que preconceito!
Antipático como todo prconceito.
Aury
Então eu viro a pergunta: o teatro Vivo está perto de quem mesmo? E o Alfa?
Acontece que dá pra chegar facilmente ao centro vindo de qualquer região da cidade, ao contrário destes teatros.
Só um comentário: antes da peça eles apresentam o serviço de narração de cenário e figurinos para deficientes visuais, e vendem como inclusão cultural e SOCIAL.
Veja bem: inclusão social a 50 reais o ingresso em uma região de difícil acesso a quem não tem carro.
E então, o que é antipático e preconceituoso mesmo?
Eu moro perto do Teatro Vivo. E longe do resto de São Paulo.
De minha parte foi um comentário estritamente pessoal. O “você” de “teatro Vivo mais longe de você”, era “eu”, que moro perto do centro. Não achei que tava sendo antipática. Normalmente eu até que sou legal. De qualquer forma, não se sinta ofendido! A Leca também mora longe.