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Críticas

André

por Francine Jallageas

2 Comentários 11 January 2008

André, ensina-me a te reconstituir

Fotos de divulgacao de andré

Foto: Divulgação

Nos últimos anos, o espaço cultural Oi Futuro tem sido, no Rio, o principal abrigo de projetos cujo foco é a pesquisa de novas tecnologias em arte. Foi lá que assisti André, peça de teatro intermídia que apresenta o texto homônimo do autor francês Philipppe Minyana, com direção geral de Christiane Jatahy e performance de Macela Moura.

A grande felicidade experimentada ao término de André se justifica menos no fato de termos nos identificado ou não, gostado ou não, e mais na percepção de que o projeto foi bem-sucedido. Isso porque, como parte do processo de recepção de André, compartilhamos da conquista dos principais objetivos intentados pela performer e pela diretora no interior da pesquisa – quais sejam, nas palavras das mesmas, respectivamente:

“O grande desafio foi o de refletir sobre os limites da narração e o uso de projeção de imagens. A idéia de recorrer à projeção de imagens veio da vontade de provocar um espessamento de significação e a criação de ambigüidades, permitindo o questionamento da própria imagem e a civilização da imagem, o questionamento sobre o olhar, a forma de apreensão da realidade e as possibilidades de multiplicação de pontos de vista.”

Marcela Moura em texto do programa

“… resolvi assumir a narradora dessas memórias como uma mistura tênue da personagem com a atriz. Ela, atriz/personagem, manipula a narrativa e nos expressa seus pontos de vista; no uso dos objetos, na construção das imagens projetadas. As projeções, ora são a memória recortada da personagem, ora são recursos narrativos da própria atriz/personagem, ora são interferências que escapam dessa narração para a tela.”

Christiane Jatahy, também no programa.

Não cito tais depoimentos por acaso, eles nos revelam consciência e coerência das criadoras com relação ao trabalho realizado um tanto raras na produção contemporânea, de modo que as questões expressas por ambas atravessam a experiência de recepção da peça.

A performer em presença, num palco central, espécie de semi-arena, manipula uma câmera cujas imagens captadas podem ser vistas concomitantemente em duas telas de projeções – uma em cada extremidade do espaço. Além das imagens captadas em cena, há também a projeção de imagens estáticas, frames, fotografias previamente produzidas, bem como mais de um vídeo onde a principal imagem é a figura de um rosto masculino, por vezes deformado, por vezes desfigurado, imagem-lembrança, imagem-memória, do personagem que dá nome à peça. André se torna presença não presente, presença mediada, personagem em torno do qual a narrativa se desenvolve.

O depoimento da atriz em cena, a construção narrativa, é movida pelo desejo de recuperação, reconstituição do que teria sido o relacionamento da personagem Anne Laure, com este outro personagem ausente, André.

A possibilidade de acompanhar seu corpo e objetos de cena no espaço e seu corpo e objetos de cena projetados produz dispersão do olhar e ambigüidades na construção de sentidos. É interessante notar o risco de uma imagem apenas confirmar a outra, produzindo meras redundâncias, de modo que o uso da tecnologia seria gratuito e supérfluo. No entanto, não é o que ocorre, as imagens são trabalhadas de modo a nos permitir enxergar duas ou mais realidades distintas. Há o instante, por exemplo, em que a performer se senta e solta os cabelos, coloca a câmera diante de si com o enquadramento fechado em seu rosto e parte do pescoço e ombros. Então, a vemos, de corpo inteiro e de perfil , cortar uma maçã e jogar os pedaços ao ar, logo atrás de seu corpo. Quando nos voltamos para a imagem captada pela câmera, temos o rosto frontal emoldurado pelos cabelos e o gesto de cortar a maçã apenas parcialmente visível. São duas imagens de uma mesma cena, em tensão e complementaridade a um só tempo, não brutalmente distintas, mas distintas, de modo que de forma sutil, nos é permitido produzir um significado diferente para cada uma, pois há diante de nossos olhos uma imagem quase de close-up, onde vemos um rosto feminino e uma imagem onde quase não vemos a face (encoberta pelo cabelo), mas o gesto de um corpo feminino sentado.

O close-up privilegia nuances, gradações, oscilações dos movimentos mínimos modificando as expressões do rosto, já o corpo inteiro em gestos amplos e repetitivos, situado no espaço, torna-se mais objetivo e concluso.

As imagens projetadas também produzem uma certa edição, recorte ou condução do olhar, quando operam com enquadramentos de determinados elementos cênicos dispostos no espaço. Se o olho buscava o todo até então, sem se concentrar num detalhe específico, ao olhar para a tela de projeções é levado a atentar, por exemplo, duas metades de uma maçã separadas por uma faca ao meio ou um par de tênis encoberto por pó de café. Neste último, o café que a performer acabou de jogar no tênis não parece terra, senão quando o vemos projetado na tela. Ali, por meio da fotografia estática, tênis e pó de café são rapidamente associados a essa significação, uma vez que no interior da narrativa descreve-se, neste momento, o desaparecimento de um menino, possível filho de André. A performer transita sem cortes abruptos entre a manipulação da câmera, a narração e a interpretação da personagem Anne Laure, de modo a nos deixar perceber as sutilezas de cada modo de trazer André.

Alguns pontos para a vista e um café sem açúcar

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. Linkei-vos na minha crítica: http://www.questaodecritica.com.br/conteudo.php?id=147
    Vamos começar a brincar….

    Beijos
    Daní

  2. Fabrício says:

    Po, então nem precisa colocar no final da crítica.
    Sempre que tiver, mande o link pra cá.
    Vou dar uma olhada na nova edição e linkar tb.
    Abraço


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