Críticas

Angu de Sangue

por Maurício Alcântara

1 Comentário 24 September 2007

Angu Pernambucano

Fotos: Maurício Alcântara


Angu de Sangue é um espetáculo pernambucano inspirado no livro homônimo do também pernambucano Marcelino Freire. São dez esquetes que criam um panorama sobre personagens urbanos vistos todos os dias pelas ruas: uma catadora de lixo, um homem que não consegue se livrar do mendigo à sua porta, uma mulher tentando convencer uma pessoa na rua a aceitar seu bebê, uma manicure fascinada pelo american way of life, um homossexual que acha que ser gay nos dias de hoje não tem o charme de outrora, ou ainda uma platéia de classe média que assiste a um filme e, nos comentários, revela seus preconceitos. Muitas situações, muitos personagens, muitas possibilidades. Impossível de não relacionar este espetáculo com Prego na Testa, solo de Hugo Possolo para o texto de Eric Bogosian. Os personagens e o formato dos dois espetáculos dialogam tanto…

Linguagens diferentes não faltam nessa montagem, e o grupo mostra que não teve nhém-nhém-nhém na hora de se experimentar. Tem de tudo um pouco: vídeo, música, manipulação de bonecos, interação com a platéia etc., e pelo fato de assumir os riscos de misturar linguagens, o grupo encontra grandes trunfos, mas também gera algumas rebarbas.

As cenas sem monólogos são nitidamente mais ricas que aquelas em que o ator conversa com o nada (não que eu esteja chamando a platéia de nada). O vídeo assume uma grande importância dramática ou conceitual em algumas cenas, ao passo que em outras, ele serve de cenário moderninho (eu gosto de chamar de proteção de tela – é bonito mas não serve pra muita coisa), e há ainda as esquetes em que o recurso nem mesmo é usado. A iluminação também difere bastante de cena pra cena, criando contrastes além da temática: há esquetes que apresentam uma luz limpa e precisa, enquanto outras possuem pouca luz ou luzes coloridas em excesso, poluindo tudo aquilo que vemos no palco.

Dentre todas as esquetes, a que mais me chamou a atenção em termos de possibilidades e experimentação estética foi a da manicure fascinada pela forma como os americanos sabem morrer. Para burlar o problema da falta de interlocutor, a atriz Gheuza Sena vai até a platéia, busca um espectador e o coloca em sua cadeira. Enquanto fala seu texto, vai tirando cutículas, desencravando unhas e pintando-as com esmalte (para diversão da platéia, que adora rir da desgraça alheia). Fora isso, a cena tem um elemento que dá um tom de sofisticação ausente nas demais: na projeção, enquanto a manicure fala com “sua cliente”, uma montanha de sapatos é formada, calçado a calçado, como possível metáfora para a massificação ou para a banalização de valores e de sentimentos. E o que interrompe a cena, dando gancho para a próxima? Um sapato, que vem do céu e despenca ali, no proscênio, para surpresa da manicure que observa assustada: era apenas um sapato, o primeiro.


Há ainda a belíssima cena em que é contada (ou melhor, cantada) a história de uma criança violentada e assassinada, com a precisa manipulação de um boneco de pano. Pequenas sutilezas de linguagem como essas geram um ótimo estranhamento e não só poderiam ser mais exploradas neste espetáculo, como poderiam ser aproveitadas em muitas outras peças. Gostaria de ver também em outros grupos a mesma coragem dessa turma que não tenta fazer um teatro bonitinho, porque no final acaba sendo menos perigoso arriscar do que aceitar fazer só mais um pouco do mesmo teatro chato que vemos todos os dias.

3 unhas pintadas com esmalte vermelho

O que a galera acha

1 comentário

  1. carlos says:

    Um espetaculo maravilhoso e marcante para os
    nossos dias e para gente com sensibilidade
    artistica.


E você, o que acha?

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