Poesia tem a ver com teatro?

Foto: Divulgação.
O pessoal que fez Anjo Malaquias, da companhia Personas Produções, do Rio de Janeiro, acha que sim. A direção é de Delson Antunes. O grupo se apresentou no Fringe, no Festival de Curitiba.
Sempre fico com um pé bem atrás com propostas desse tipo. O risco é de se cair no lugar comum de dramatizar os poemas, criar uma historinha cheia de lirismo e pieguice.
O ator Afonnso Drumond, um dos responsáveis pelo roteiro que dividiu o palco Fabrício Polido, disse que o lance deles era outro. “O que nós quisemos foi não fazer um recital”, disse Drummond, que interpreta – eu acho – em alguns momentos o próprio Quintana. Ele falou isso quando todo risos, ingresso e felipeta, me abordou na sala de imprensa.
Recital é algo muito bacana, legal, mas é outra coisa, outro lance e é pra ser apreciado em outro lugar e vendido com outro rótulo. E Anjo Malaquias – diferentemente do que afirmou Drummond – é quase um recital.
A peça até que começou bem. Dois atores em cena. Uma carroça puxada por um dos personagens e o outro acompanhando. Era de lá, da carroça, que saíam os instrumentos – pandeiro, sanfona e outros salamaleques para composição do cenário, como uma escada. Aliás, o cenário aqui é como futebol, uma caixinha de surpresas, sai até uma escada dele.
O figurino, com aquelas roupas coloridas e veludosas, casava bem com a proposta da mambembagem. A maquiagem, idem. Houve projeções. Ora paisagens, – a surrada e “a merencória luz da lua”, claro, não podia deixar de aparecer – ora cenas de filmes de Fellini, Chaplin. O problema, digamos, o erro de mão da peça foi o tom excessivamente didático. O personagem de Fabrício Polido, além de dançar, tocar, sapatear e puxar carroça, era uma espécie de “saiba mais” cênico. Era ele o responsável pelo tom aulinha tipo: “Mário Quintana nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, seu primeiro livro de poemas foi Rua dos Cataventos. Só faltou projetar gráficos e o mambembe dizer: “olha, prestem atenção que isso vai cair no vestibular”.
Quer um exemplo? Aparece a projeção da foto de Greta Garbo e o mambembinho diz: “Quintana era um aficcionado por cinema e apaixonado pela atriz…”. Teve até projeção com foto de Bruna Lombardi e, claro, a explicação de que ela era sua musa e blá blá blá, blá blá blá.
Se eu fosse o crítico Paschoal Carlos Magno, ajeitaria o meu paletó e, direto do túnel do tempo, diria ao sr. Delson Antunes que : “… a poesia (…) ameaça a representação, suspendendo a ação. O teatro exige movimento…”. Porém, nem eu sou Delson Antunes, nem tudo está perdido na encenação. O ritmo muda perto do final, pois os atores param o didatismo e, realmente, contracenam. O diálogo entre ambos se faz a partir de entrevistas em forma de poesia que Quintana escreveu; tudo com muito humor e lirismo, falando sobre sua vida e questões das mais diversas.
Pra quem conhece a obra de Quintana, mesmo que um pouco, a peça pode até tocar, comover. Isso se você, nobre leitor, que sabe aquele verso “eles passarão, eu passarinho” não se incomodar de imaginar-se de novo nos bancos escolares tentando decorar que Quintana “pertenceu à Geração 45, embora apenas por uma questão cronológica….”. Se você, meu caro, ao contrário, não conhece nadica deste que é um dos nossos maiores poetas, acho que o prejuízo será menor.
4 – esse foi o número de vezes que Quintana tentou entrar na Academia Brasileira, mas não conseguiu e isso, ainda bem, não foi falado na peça. Bacante também é cultura.


Astier, meu querido!!!
Revelando sua porção Barbara Heliodora?
hauhauahauhauahuahauahauhaua
Assisti à peça Anjo Malaquias e chorei do início ao fim. Conheço a obra de Quintana e a força de seu lirismo. O tom “didático”, como o site classifica, é na minha opinião o ponto forte da peça, pois a mesma é uma obra de arte e arte é o exercício das múltiplas possibilidades de tocar o espírito humano, por isso a classificação indicativa englobava até mesmo crianças, sabe, aqueles seres desprovidos de preconceitos, arrogâncias intelectuais, excesso de perfeccionismo, etc, etc, etc. Crianças como a alma de quintana. O espetáculo é eclético, empolgante, lírico e emocionantemente TEATRAL.