Mais do mesmo?
Foto: Divulgação
É muito difícil falar de atuações. Acho que minha principal trava é a de ser ator e por isso impor o dobro de cuidado ao comentar do trabalho individual de alguém numa peça. Sou meio traumatizado com a forma como a mídia costuma citar as atuações: não só repórteres de celebridades, que já meio que passam batidos de tão idiotizados, mas também boa parte da crítica, que tem uma mania terrível de diminuir os comentários individuais a um parágrafo. Isso quando não se comenta em uma linha ou uma palavra todo o trabalho de preparação de um ator para uma peça. Se for assim, prefiro não comentar.
A peça sobre que escrevo nesse momento conta com o trabalho de dois atores. Experientes, ambos já fizeram seus monólogos (aqui e aqui), e nas críticas dos dois, fiz questão de ressaltar a entrega à busca por personagens verossímeis, algo que reafirmo no comentário de Aos ossos que tanto doem no inverno. Um (Mário Bortolotto) tende mais para o naturalismo, outro (Nelson Peres) já mostrou sua versatilidade de interpretação em outros estilos. Só que hoje vou falar só do primeiro.
Se falar de qualquer ator já é complicado, falar das peças do Mário Bortolotto é ainda mais complexo. Não é só porque ele também é blogueiro e, só por isso, permitir o diálogo em outra esfera. O fato é que o cara não precisa de mais críticas, parece que todos os amigos dele têm esse ímpeto de escrever quando vêem seus espetáculos – O Nelson Peres, seu parceiro no palco, tem blog também, mas acho relativamente simples analisar o seu trabalho, ao menos nessa peça. Enfim, não é o caso. O Mário é mais complicado, porque é a contradição em pessoa.
Um ex-seminarista, que não economiza na hora de contar histórias do seminário no blog, capaz de escrever textos como esse no dia da tomada midiática da cidade pelo PCC e de se dar ao trabalho de uma batalha quase solitária contra o movimento dos evangélicos que tudo querem moralizar – cuidado, eles realmente estão em todos os lados e já levaram minha irmã e sobrinhas – mas que ao mesmo tempo é a personificação de um certo teatro, contraditório também, que só ele consegue fazer. Quero chegar numa reafirmação do que disse na crítica de Kerouac: Bortolotto por si só é um personagem quase indistinto dentro ou fora do palco. Quando assisto uma peça dele, não consigo deixar de conectar com os seus comentários sobre o teatro e com sua imagem-personagem cotidiano de coturnos desamarrados e camisetas surradas (disse uma colaboradora dessa revista que ele faz algo especial pra que suas camisetas sejam tão amarrotadas).
Dentro do palco, vejo duas pequenas variações, que ele já afirmou não serem qualquer “desafio superado“. Uma é a do personagem que pouco fala, mas que tem arroubos emotivos – algo entre o mafioso chefe de Getsêmani (III Mostra do Cemitério de Automóveis); o jornalista briguento de Efeito Urtigão; Kerouac, na direção de Fauzi Arap; e o Júlio, personagem que é ele, mas que foi interpretado por Otávio Martins, em Uma pilha de pratos na cozinha. A outra versão de seu duplo que já vi em cena é um personagem mais ingênuo, meio chucro até, que vemos em Éramos todos Thunderbirds, Vamos sair na chuva quando a bomba cair e no personagem central em Medusa de Rayban. A razão de relembrar todos esses bortolottos é demonstrar que o Chico de Aos ossos que tanto doem no inverno não traz surpresas com relação a essas essas criações, mas uma síntese desses dois desenvolvimentos.
Ambos estão lá, seja nos arroubos – que também estão presentes no personagem de Nelson Peres – seja na forma ingênua como um e outro jogam ao longo da peça. Encontramos também o Bortolotto textocêntrico, apaixonado pelo cinema e sua linguagem, seus jogos narrativos e suas conquistas. O Bortolotto respeitoso da direção, texto, marcação e as hierarquias instituídas no teatro mais naturalista possível. O Bortolotto que dá um jeito de beber em todas as peças e que por isso foi homenageado com a nossa sugestão de lei-seca.
Tudo isso pra dizer que existe uma proposta, que pode soar anacrônica e despolitizada, pois não lida com o momento histórico do teatro, além de negar as vanguardas e os coletivos. Mas não se pode negar, depois de ver e ler algumas dezenas de peças de e com Mário Bortolotto, que há uma verdade do artista, como afirmou o Rodolfo García Vazquez na primeira matéria realizada pela Bacante, e que essa verdade se apresenta de forma muito coerente em cada trabalho. Cabe procurar saber se ela tem ou não sentido pra você. Mas aí, só vendo mesmo. Tem como contar não.
3 perdigotos distantes, grazadeus


