Fora da zona de conforto

Com direção de Zélia Monteiro e assistência de Valéria Cano Bravi, Área de Risco é um trabalho interpretado por seis artistas do Núcleo de Improvisação, com qualidades de movimentos muito diversas entre si.
Área de Risco, esteve em cartaz de 10 a 13 de julho, em pequena temporada, na Sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo. Assisti à segunda noite, na companhia de um público variado, de cerca de 70 pessoas, que incluía gente da classe artística e um grupo de adolescentes que me pareceu ser de estudantes. Durante o espetáculo, um silêncio quase absoluto da platéia indicava a concentrada atenção de todos. Esta silenciosa reação foi quebrada apenas pelos aplausos finais, dados por um público que se manteve sentado.
Aliás, o final do espetáculo foi um problema da encenação. Por tratar-se de um trabalho de improvisação e, portanto, lidar com freqüentes quebras e retomadas das ações físicas, cada black out trazia a dúvida: acabou? Um deles quase foi tomado como término do espetáculo, mas eis que os dançarinos retomam a cena, com uma luz que pareceu, ela mesma, em dúvida se voltava ou não.
O elenco tem características muito diversas. De um lado existe a participação da veterana Lu Favoreto (Cia Nova Dança 8), que demonstra domínio do jogo do corpo com a sonoridade presente.
Ela tem “controle” (entendendo aqui tratar-se de um tipo de controle que é mais intuitivo que racional) da ação física que empreende no palco, e entra no jogo alheio com grande desprendimento de movimentação. Por outro lado, jogam corpos com histórias e percursos distintos nas artes cênicas, realizando com ela um mesmo conjunto de improvisação.
Um exemplo bastante claro aparece na relação entre a atuação de Donizete Mazonas, que é principalmente um homem de teatro, com a atuação da dançarina Lu Favoreto, porque eles criam interações de movimentos usando cada qual vocabulários e expressividades bastante distantes. Daí nascem diálogos entre línguas diferentes.
A constante que permeia as cenas é a desorganização das relações entre os corpos e deles com o ambiente. A todo momento o inesperado se coloca em cena, seja através da intervenção sonora, que quebra ritmos, silencia, e pulsa de diferentes formas sem um planejamento musical, seja através da imposição das intenções expressas no movimento do outro, que contracena, e que solicita comunicação para realizar um jogo claro.
A improvisação rompe toda possibilidade de se trilhar caminhos fáceis. O caminho mais fácil é o caminho que conhecemos. E a improvisação é avessa aos atalhos e às premeditações. Não há planejamento, porque o impulso que coordena um movimento tem no seu fluxo a continuação, mas pode ser atravessado pelo fluxo do grupo, que ora segue uma proposta que forma duplas, trios, etc.
A pontuação do início e do final dos fragmentos que compõem o conjunto do espetáculo é determinada sobretudo pela iluminação, que ora desenha uma área cênica no centro do palco, ora desvia o foco para o proscênio ou para a lateral, ora se difunde por toda a extensão do teatro. A luz, neste espetáculo, é a coordenadora dos fragmentos de improvisação, e delimitadora dos espaços de atuação. O que está fora do alcance de sua potência, está fora do campo central de atuação, mas não necessariamente está fora de cena. Este é um jogo do iluminador com os intérpretes, em que ele elege pontos e áreas de destaque para a ação cênica, e nesta eleição cria espaços secundários, com menos luz, mas não os exclui da possibilidade de uso. Sua operação é bastante sensível ao momento, sintonizada aos jogos que estão em cena, e trabalha com a dinâmica da dança. Ela atua como uma espécie de sétimo intérprete no espetáculo.
Área de Risco assume principalmente o risco de desenvolver diversidades usando a improvisação como linguagem comum a todos. É ousada a empreitada. Esta escolha passa pela corajosa opção de se comunicar espontânea e ruidosamente com o público, e assume uma grande disponibilidade de se lidar com o imponderável. Articula-se com tanta desenvoltura quanto uma comunicação planejada, coreográfica. E, sem ser prolixa, fala dos encontros e desencontros que a tentativa de se aproximar do outro produz.
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