Patativa do Assaré e os aviões
Foto: Tito Wagner

A SPTrans indicava o ônibus “Metrô Santana”. Desceríamos na Av. Santos Dumont 1.300, perto da praça Campo de Bagatelle, e de lá a pé até o teatro Alfredo Mesquita. Foi minha segunda visita a esse espaço, que mais parece um aborto e menos um espaço cênico: palco italiano, perto do Metrô Santana, mas de difícil acesso a pé, pouca visibilidade e péssimo isolamento acústico (com o Campo de Marte ali do lado). Kerouac, monólogo de Mário Bortolotto, dirigido por Fauzi Arap já foi encenado lá, mas na época fui ver de carona. Nossa Dulcinéia São Paulo não ajudou dessa vez: fui assistir Argumas do Patativa de ônibus lotado no sábado à noite.
Na porta, éramos seis gatos pingados esperando o início da peça. Uma dupla de repentistas (ou seria outro nome por causa do pandeiro?) vestidos de cangaceiros nos recepciona com versos bravos e bem humorados pra que desliguemos o celular. Pra desqualificar a “cara de mau” dos dois, uma dancinha muito brega, que eles deixam a entender que é exigência do diretor. Adentramos, então, o interminável corredor daquele teatro e sentamos nas três primeiras fileiras.
No palco, uma seqüência de histórias retiradas da poesia de Patativa do Assaré. A peça tem início com cenas de teatro de bonecos, sem emitir uma só palavra que não seja cantada. Luzes acendem e apagam, revelando cenas curtas, para nos contar, de forma extremamente simples, uma história trágica do sertão nordestino.
Um ator vem para a frente do palco, para assumir o papel do pai da família – antes representado pelo boneco – que perde a filha, Nãnã, muito jovem. A mãe, interpretada por um ator – ele tinha barba inclusive, pra não deixar dúvidas – toma o canto do palco com semblante de choro, e toca uma sanfona de boca permeando a fala do esposo. A figura toda de preto fica ali, escura e triste, o lado de algumas velas e um vestidinho branco, numa espécie de altar.
Na noite em que assisti, havia um problema na iluminação que veio muito a calhar. A luz central parecia fraca demais e o ator que interpretava o pai perdia a forma. Não se via seu rosto, então ficávamos quase com uma sombra, que sugere não apenas um personagem, mas várias sombras do sertão que nunca veremos de perto. Pena que, depois do espetáculo, os atores nos confidenciaram sua frustração com o problema da luz. Teria passado batido. Mais que isso, eu teria elogiado a idéia.
O que atrai nesse espetáculo é o que vai além da poesia de Patativa. Ok, você vai discordar de mim se você fizer parte da Comunidade Nipônica Adoradora da Poesia de Patativa do Assaré (CNAPPA), que enviou quatro de seus representantes à peça naquela noite – além dos dois bacantes, toda a platéia era composta de nipo-brasileiros. No entanto, os momentos em que a criação do grupo aparece mais do que os versos do poeta, são aqueles em que o universo sertanejo transmitido por Patativa contagia mais. Quanto menos homenagem a Patativa eu via, mais próximos de mim ficavam os personagens. Em uma das melhores cenas, dois casais vizinhos brigam por conta de ripas de madeira numa cerca e novamente – isso já tinha sido utilizado, de outra maneira, em O Homem Provisório – o que nos carrega para o sertão é uma briga em que os instrumentos musicais, não as palavras, são as armas e os sons é que ditam os movimentos. Fica, portanto, como rebarba, um respeito além da conta ao texto base.
Necessário dizer que a parte musical em tom de “sou brasileiro” é questionável. Chamar a platéia a cantar proclamando uma identidade em eterna crise, essa do brasileiro, exige uma alienação grande da parte de quem assiste. Não me sinto “brasileiro” nesse sentido patriota iludido e tampouco a fim de exaltar nossas belezas junto com quem está no palco. Mas também posso ser só chato demais.
O patriotismo quase heróico pode até ter uma relação com o “patriotismo santista” do grupo Teatro do Pé, que afirma fazer questão de se manter na cidade de origem, contrariando o eixo de migração artística litoral-capital. A peça Argumas de Patativa, no lugar onde está sendo encenada em São Paulo, é mais uma batalha heróica a ser vencida a cada final de semana. Não se pode começar das salas mais bacanas. Mas a vida é assim. A rapadura é doce, mas…
2 pedaços de bolo depois da peça e uma boa conversa com os atores.

