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Críticas

As Noivas de Nelson

por Leca Perrechil

4 Comentários 08 April 2008

Destruindo Casamentos

Fotos: Rogério Nunes/Clix.

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- 1, 2, 3 e uolllhhhullll!!! – o elenco grita em uníssono, enquanto uma das atrizes vestidas de noiva joga, de costas, o buquê para a platéia, ao final da peça.

- Eeeeeeee! – novo uníssono quando uma pequena na platéia, toda risonha, pega o arranjo de flores na mão.

- Você está acompanhada? – pergunta um dos atores. Depois da moça responder entusiasmada e um tantinho encabulada com aquele sim com a cabeça, o foco se volta pro rapaz ao lado dela que agora a abraça meio surpreso, também risonho e encabulado.

- Ahhh – continua o ator, enquanto outro se encaminha para a platéia, segurando uma garrafa esverdeada – Então o acompanhante leve para casa um presente dos nossos patrocinadores, uma garrafa de Sidra Cereser!

Não sei bem o que significa para uma pessoa pegar um buquê em uma peça chamada As Noivas de Nelson, depois de acompanhar cinco histórias envolvendo casamentos fracassados, e ainda levar para casa junto com o namorado uma Sidra Cereser – aquela que o Raul Gil anunciava em seu programa de calouros. Se o casal levar em consideração que Nelson Rodrigues já disse que a família é o inferno de todos nós e lembrar dos contos curtos vistos durante a apresentação – escritos pelo dramaturgo/jornalista para o jornal carioca Última Hora, na coluna A Vida Como Ela É – acho que não vão ficar muito felizes e, pior, não conseguirão nem ficar embriagados, já que Sidra Cereser não embebeda ninguém.

Se, lendo o nome da coluna que Nelson escrevia entre 1951 e 1961, você se lembrou daquele quadro do Fantástico de mesmo nome, narrado por um José Wilker de óculos vermelho e jeitão garboso (seja lá o que isso signifique), acertou. Aliás, na peça, entre as cinco histórias apresentadas, uma delas me lembro de ter assistido na TV anos atrás com o Caio Junqueira no papel principal. Só que no espetáculo, em vez de Wilker, a narração das historinhas fica por conta dos próprios atores/personagens, de forma intercalada.

 

Entre uma historieta e outra, durante o blackout ouvíamos a voz de Nelson Rodrigues falando suas frases. Nem sempre o grupo conseguia encaixar o que ele dizia com o que era visto em cena, fazendo com que tal opção, às vezes, parecesse apenas uma tática para entreter enquato eles mudavam de figurino pras próximas cenas.

 

O fato é que por mais que se proponha uma perspectiva de conexão entre os contos – todos têm casamentos frustrados – essa fórmula de usar histórias curtas escritas por Nelson já foi tão usada, seja no teatro ou na TV, que você sai da apresentação com a impressão de ter visto um pouco mais do mesmo. Tá certo que algumas produções são mais bem trabalhadas do que outras, mas todas tendem a trazer a mesma estrutura e estilo narrativo fiel ao autor – narrados por Wilker ou não.

As Noivas de Nelson trouxe boas sacadas, como repetir umas quatro vezes a mesma cena de casamento – com aquelas tias se abanando em leques (sempre presentes nas montagens rodrigueanas), ora dando suspiros de admiração, ora chorando o péssimo negócio. Já que casamento é tudo igual mesmo, nada mais irônico do que a repetição – a única coisa que muda, é a maneira como o casamento vai afundar. Os atores também são ponto a favor, com destaque para os olhos arregalados de assombração de Vladimir Camargo. Os atores conseguem passar – de uma história para outra – de moço afeminado para amigo macho, de filha meiga para esposa feia, e assim por diante.

Antes de vir para na Mostra Nelson Rodrigues, do Centro Cultural São Paulo, o espetáculo tinha sido destaque no Fringe, no Festival de Curitiba. Mas já que uma das frases do Nelson que mais gostam de parafrasear por aí, inclusive pelos comentários da Bacante, é “toda unanimidade é burra”, o leitor fica convidado a assistir e tirar suas próprias conclusões. Se não gostar, poderá assistir as outras tantas peças roduigueanas em cartaz (veja AQUI, AQUI e AQUI mais ou menos) na cidade.

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2,5 batatas! no espeto

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Edu carvalho says:

    deixem o nelson descansar!!!

  2. Ceife says:

    Otima sua materia Leca…. observadora voce comentou minuciosamente uma fracao de um icone da damatrurgia brasileira, usando o mesmo tipo de humor e sarcasmo que eram comuns nas obras de Nelson Rodrigues…. sacada esperta com comentarios inteligentes. Parabens Alessandra.
    Crioulos e Ceife


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