Críticas

As Três Marias

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 04 February 2008

Não me olha assim que você já viu coisa pior!

Noite de quinta-feira, pouco antes do Carnaval. Uma revista virtual de teatro se organiza para assistir os espetáculos da semana e criticá-los a tempo de cair na folia. A equipe se divide entre as pouquíssimas peças em cartaz na cidade e que ainda não tenham sido criticadas pelo amável veículo – e eu me encarreguei de desbravar a Vila Leopoldina atrás de um SESI onde a programação teatral do ano ainda não havia começado. Segunda mancada do guia do jornal na mesma semana.

Fui parar, então, no Teatro do Ator – aquele ali na Roosevelt, que se orgulha de ter um palco italiano e possui uma programação bem heterogênea (e duvidosa), que inclui peças espíritas, comédias comerciais e shows de hipnose. No início, relutei em assistir, mas então rolou uma conversa telefônica que me obrigou a topar o desafio:

- Oi, vai ter a apresentação de As Três Marias hoje?
- Vai sim.
- Sou da Revista Bacante, queria saber se ainda tem convite de imprensa…

(Do outro lado da linha, ao fundo, um “não, não, não, não”. Eles devem ter pensado em nossa reputação.)

- Er… Hum… Hã… Num tem. Acabou tudo.

Tinha que ver, não? À paisana, antes de entrar, pensava no quanto eu não queria bater em cachorro morto (uma peça sobre três solteironas que brigam por um único pretendente tinha poucas chances de ser um espetáculo bom), mas estava na torcida para ver algo diferente de minhas expectativas. Queria me surpreender de alguma forma.

E – de fato – houve uma surpresa. Não, a peça não se salva: dramaturgia óbvia e previsível, nos mesmos moldes das comédias comerciais que abundam não muito longe dali, na Brigadeiro Luís Antônio. Os personagens são estereotipados: há a irmã beata, a irmã burra (loira) e a irmã puta, a empregada e, finalmente, o galã por quem todas as mulheres se engalfinham. A iluminação é padrão e o cenário deve ter sido comprado nas lojas Marabraz. Tudo horroroso como você, leitor, deve estar imaginando – sim, é desse jeito mesmo.

Onde estaria, então, a surpresa? No elenco. As três irmãs são interpretadas por atores homens (que se desdobram para exagerar ao máximo os trejeitos de suas personagens), e a empregada é interpretada por Silvetty Montilla – famosa por seus shows de drag queen em boates paulistanas. A peça, no fim das contas, acaba servindo como pretexto para um grande show drag da veterana, que utiliza os mesmos bordões e artifícios de seus shows noturnos convencionais – quando ela não incorpora a empregada Fitzgerald (será uma homenagem a Ella?).

A platéia (que tem cheiro de banho tomado) atrás de riso – e não necessariamente de teatro – se esbalda com os cacos incorporados à cena, e principalmente com os momentos em que ocorrem intervenções grotescas que se assemelhariam muito a stand-up comedy (não fosse uma personagem que recicla o tempo todo as mesmas – poucas – piadas, seja no teatro, seja na boate) e que nunca se arriscam em fazer piadas que não sejam às custas de alguém. Apesar de tudo, o timing das piadas e as intervenções com a platéia são suficientes para tirar risos e gargalhadas daqueles que possivelmente “vão ao teatro, mas só gostam de comédia”, como já ouvi de muita gente.

1 Bacante torcendo pra não ser alvo das interações com a platéia

E você, o que acha?

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