Críticas

Assombrações do Recife Velho

por Astier Basílio

10 Comentários 25 November 2008

Fantasmas não usam fardas

Foto: Val Lima

Não sei se o Teatro Armazém, no Recife, é de palco italiano, arena. Nem sei, nem vou ficar sabendo. Era o último dia de apresentação de Assombrações do Recife Velho, da companhia Os Fofos Encenam, de São Paulo. Meia hora antes da peça começar já tinha uma fila para lista de espera. Logo na entrada já tinha uns refletores jogando uma luz vermelha na fachada. A peça já começa ali, aproveitando toda arquitetura assombrada do Armazém, que funcionou como equipamento do antigo cais.

Uma funcionária do Festival de Teatro do Recife entregou: “olha, daqui a pouco vai aparecer um ator da peça e vai levar vocês. Vai ser lá do outro lado”. Quando ouvi uma voz bem projetada, umas roupas em tom pastel e um sotaque de Sampaulo, pensei: “é ela”. E era sim. “Gente, quem tiver o papelzinho me siga”. A personagem falava igualzim minha tia, a Lurrrdes . Ela mora em São Beinarrdo. Nasceu em Patos, na Paraíba, mas mora lá há um tempão.

Antes de entrarmos no prédio do teatro, pequenas cenas aconteciam simultaneamente, algumas se conectando, outras não. Foi incômodo, estranho e bonito perder a noção do espetáculo que se esgarçava no que pareciam ser improvisos ou cenas abertas. Tudo isso captando os ruídos e com um link para interação com a platéia.

Só que o lugar onde rolaram essas cenas, era cheio de batentes e mal iluminado. Se funcionou como espaço para o prólogo e serviu para dar um clima, este mesmo cenário quase rendeu uma Vídeo Cassetada do Faustão (sim, tinha um cabra lá filmando o tempo todo), pois um espectador caiu ao caminhar com a platéia pelos degraus no meio do escuro.

Duas personagens me disseram que eu era doido, pois ia para aquele espetáculo usando uma camisa que além de preta era estampada com uma foto macabra do Coringa, interpretado pelo Heath Ledger. “Aqui tem ispritu”, alertou outra personagem, agora com um sotaque bem carregado do Récifi.

Não posso falar de um texto que não conheço. Sei apenas que Gilberto Freyre mandou um repórter coligir causos e histórias de Trancoso para depois, com o estilo e o requinte de sua pena, dentro do conforto de seu gabinete, compor a obra. Deu pra manjar um recado meio crítico, da forma como o livro foi escrito por Freyre, por meio da personagem da estudante, na montagem. Ela era uma “descolada” que parte com um gravador em punho a procura de assombrações no meio do povo. Ela pede que a esposa do contador de estórias abaixe o volume da TV. A mocinha, depois de gravar sua performance, pergunta: “Ô moço, onde que eu acho assim uma assombração?”. O velho contador diz: “Olhe, vá andando a pé. Ande, ande, ande. Até dar uma dor”.

A peça não fica apenas num registro cômico ou folclórico, mas vai além ao apontar para nossos fantasmas, nossas assombrações. O Maracatu conduzido por Frei Caneca… (pequena interrupção necessária – Bom, se você caro leitor for de certa faixa etária compreendida nos albores da juvenília talvez não saiba do que eu esteja falando. É que a Bárbara disse que os jovens não sabem o que seja Integralismo, que dirá a Diva-Vovó a respeito de um tema mais distante ainda como a Confederação do Equador?)… líder de uma insurreição popular. Morto por homens de farda, Frei Caneca carnavalizava a morte. A nossa Senhora no pau de arara iluminada por eletro-choques mencionando nome a nome alguns desaparecidos políticos redundou numa imagem muito forte… HE-MAN, pan pan, panparanpanpan…

Mas, fiquei pensando. E as assombrações de hoje em dia? E os fantasmas que povoam o agora? Quem são eles? Que rostos têm? Que figurino usam? Estas questões-fantasmas continuam me assombrando e vagam por ermos em busca de um palco.

Leia também a crítica de Juliene Codognotto.

1 – sentimento indisfarçável de “orgulho de ser nordestino” toda vez em que na peça se falava com certa ênfase: “foi aqui no Recife”…

O que a galera acha

10 comentários até o momento

  1. RR says:

    Belo texto.

  2. ai, queria uma camiseta igual a sua… ;)

  3. Astier Basílio says:

    ah.. Clarinha,
    vou ver se compro então.
    Comprei em Guaramiranga
    e espero ir pra lá ano q vem
    e q o cabinha esteja lá de novo
    vendendo a dita cuja

  4. Leca says:

    Agora você aceita encomendas por comentário Astier? Bom saber… rs.

  5. camisetas, DVds,
    trabalhamos com cartões,
    cheques e sorrisos

  6. bruna says:

    legal essa história gostei muito de ler

  7. bruna says:

    achei interessante essa história pois fala de cada detalhe enfim foi legal

  8. vic says:

    achei um horror


E você, o que acha?

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